RITUAL - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






RITUAL

Com a bagunça Sandra não percebeu o brilho vermelho do pentagrama sob o sofá, nem as folhas de louro e lavanda que forravam a cristaleira ou a vassoura no canto esquerdo se movendo como uma serpente até sumir nas sombras perto da janela. A garota não notou a casa em êxtase por ter chegado a hora do ritual de Gertrudes.

Sandra resmungou algo e olhou para as escadas como se aguardasse um sinal, talvez outro grito para confirmar que não havia sonhado. 

Então veio aquele grasnado sufocante. O grito veio e era o nome da neta que Gertrudes fazia cortar o ar como um sopro gelado numa tarde quente.

Observei Sandra levar uma das mãos à boca e com a outra pegar o celular do bolso para telefonar. Mais tarde descobrimos ser o namorado do outro lado da linha. Sandra ria como uma lunática enquanto subia os degraus da escada. Imagino que na mente dela a palavra “herança garantida” ecoava ao lado de um sorriso estampado com notas de cem no lugar dos dentes amarelados de Gertrudes.

A garota invadiu o quarto da avó ao mesmo tempo em que os gritos pararam e as luzes da casa apagaram. 

Naquele momento abandonei meu esconderijo e me aproximei da janela para ver melhor o que se desenrolaria lá. Olhei Sandra usar a lanterna do celular para clarear o ambiente e ao iluminar a cama perceber que a avó não estava lá. Sandra engoliu em seco e enxugou os lábios com as costas das mãos. Jogou a luz para janela e berrou quando seus olhos encontraram o brilho fantasma dos meus. Deixou o celular cair e deslizar para perto da cama. Tentou apanhá-lo e tropeçou no penico de Gertrudes; escorregou na urina pútrida e caiu. Na queda o pulso direito soltou um estalo. Sandra soltou um rugido proporcional à dor que sentiu. 

Páginas: 1 2 3 4 5 6

Wan Moura
RITUAL

Com a bagunça Sandra não percebeu o brilho vermelho do pentagrama sob o sofá, nem as folhas de louro e lavanda que forravam a cristaleira ou a vassoura no canto esquerdo se movendo como uma serpente até sumir nas sombras perto da janela. A garota não notou a casa em êxtase por ter chegado a hora do ritual de Gertrudes.

Sandra resmungou algo e olhou para as escadas como se aguardasse um sinal, talvez outro grito para confirmar que não havia sonhado. 

Então veio aquele grasnado sufocante. O grito veio e era o nome da neta que Gertrudes fazia cortar o ar como um sopro gelado numa tarde quente.

Observei Sandra levar uma das mãos à boca e com a outra pegar o celular do bolso para telefonar. Mais tarde descobrimos ser o namorado do outro lado da linha. Sandra ria como uma lunática enquanto subia os degraus da escada. Imagino que na mente dela a palavra “herança garantida” ecoava ao lado de um sorriso estampado com notas de cem no lugar dos dentes amarelados de Gertrudes.

A garota invadiu o quarto da avó ao mesmo tempo em que os gritos pararam e as luzes da casa apagaram. 

Naquele momento abandonei meu esconderijo e me aproximei da janela para ver melhor o que se desenrolaria lá. Olhei Sandra usar a lanterna do celular para clarear o ambiente e ao iluminar a cama perceber que a avó não estava lá. Sandra engoliu em seco e enxugou os lábios com as costas das mãos. Jogou a luz para janela e berrou quando seus olhos encontraram o brilho fantasma dos meus. Deixou o celular cair e deslizar para perto da cama. Tentou apanhá-lo e tropeçou no penico de Gertrudes; escorregou na urina pútrida e caiu. Na queda o pulso direito soltou um estalo. Sandra soltou um rugido proporcional à dor que sentiu. 

Páginas: 1 2 3 4 5 6