RITUAL - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






RITUAL

O corpo de Gertrudes jazia a alguns metros longe de Sandra. A casca de minha amiga ostentava queimaduras e bolhas de sangue. O rosto estava esfolado, como se arames farpados tivessem sido usados para torturá-la. Os olhos haviam sumido, assim como os lábios. Havia uma crosta de pele esturricada que pendia do pescoço até onde antes havia seios e o que sobrou das mãos foram apenas tocos carbonizados. Afastei os olhos dali e investiguei o corpo de Sandra.

Sob a neta de Gertrudes havia uma poça de sangue escuro. Mas, claramente não era o dela. Minha amiga nunca a machucaria. O plano corria bem.

Sentei sobre os cacos de vidro e aguardei. A ansiedade me anestesiava e o medo me deixava apreensivo. Lá fora os vizinhos lotavam as ruas. A árvore de onde eu observei a batalha de Gertrudes havia tombado sobre o asfalto; o forte vento havia a deixado com as raízes expostas ao céu estrelado e à curiosidade humana.

Voltei a olhar para a casca de Gertrudes e Sandra se moveu; esticou as pernas e apalpou os braços de forma lenta, respeitosa. Inspirou, expirou e abriu os olhos bem devagar. Usou os cotovelos para içar o tronco e depois ficou sentada por um momento. Olhou ao redor desnorteada, os olhos dançavam nas órbitas até me notarem. Sustentei aquele olhar hediondo sem me deixar intimidar. Sandra sorriu e ficou de pé. Caminhou até mim, pegou-me com mãos macias como seda e me afagou em seu colo. Passou os dedos em meu pelo preto e chamou meu Nome Secreto e não o de felino. Fez carinho nas minhas patas e só ali percebi que havia me cortado no vidro.

Agora estou aqui, ao lado de um caldeirão. O calor fustiga minhas patas, meu focinho, eriça meus pelos. Alguns espíritos vagam por entre as paredes, deuses bebem e festejam lá na Sala de Cerimônias.  Sei que não passo de um familiar incumbido de certas missões, mesmo que seja apenas observar. No entanto, estou feliz por mais uma vez a imortalidade de Gertrudes está garantida. 

O ritual deu certo. O plano correu bem. Como eu sei disso? Por inúmeros motivos, sendo o mais belo e verdadeiro deles o olhar da minha amiga e companheira de magias. Afinal, os olhos são ou não são a Janela da Alma?

 

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Wan Moura
RITUAL

O corpo de Gertrudes jazia a alguns metros longe de Sandra. A casca de minha amiga ostentava queimaduras e bolhas de sangue. O rosto estava esfolado, como se arames farpados tivessem sido usados para torturá-la. Os olhos haviam sumido, assim como os lábios. Havia uma crosta de pele esturricada que pendia do pescoço até onde antes havia seios e o que sobrou das mãos foram apenas tocos carbonizados. Afastei os olhos dali e investiguei o corpo de Sandra.

Sob a neta de Gertrudes havia uma poça de sangue escuro. Mas, claramente não era o dela. Minha amiga nunca a machucaria. O plano corria bem.

Sentei sobre os cacos de vidro e aguardei. A ansiedade me anestesiava e o medo me deixava apreensivo. Lá fora os vizinhos lotavam as ruas. A árvore de onde eu observei a batalha de Gertrudes havia tombado sobre o asfalto; o forte vento havia a deixado com as raízes expostas ao céu estrelado e à curiosidade humana.

Voltei a olhar para a casca de Gertrudes e Sandra se moveu; esticou as pernas e apalpou os braços de forma lenta, respeitosa. Inspirou, expirou e abriu os olhos bem devagar. Usou os cotovelos para içar o tronco e depois ficou sentada por um momento. Olhou ao redor desnorteada, os olhos dançavam nas órbitas até me notarem. Sustentei aquele olhar hediondo sem me deixar intimidar. Sandra sorriu e ficou de pé. Caminhou até mim, pegou-me com mãos macias como seda e me afagou em seu colo. Passou os dedos em meu pelo preto e chamou meu Nome Secreto e não o de felino. Fez carinho nas minhas patas e só ali percebi que havia me cortado no vidro.

Agora estou aqui, ao lado de um caldeirão. O calor fustiga minhas patas, meu focinho, eriça meus pelos. Alguns espíritos vagam por entre as paredes, deuses bebem e festejam lá na Sala de Cerimônias.  Sei que não passo de um familiar incumbido de certas missões, mesmo que seja apenas observar. No entanto, estou feliz por mais uma vez a imortalidade de Gertrudes está garantida. 

O ritual deu certo. O plano correu bem. Como eu sei disso? Por inúmeros motivos, sendo o mais belo e verdadeiro deles o olhar da minha amiga e companheira de magias. Afinal, os olhos são ou não são a Janela da Alma?

 

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