Rock, tinta e sangue - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Rock, tinta e sangue

Édipo pensou um pouco, a frase que havia decidido já não lhe parecia uma ideia agradável. Dos alto falantes, agora era o AC/DC que explodia com seu rock vibrante na música “Highway to Hell”. Édipo assim como a jovem Rita, a quem não conheceu pessoalmente, também foi ensinado pelos avós a interpretar os sinais. Foi assim que notou o cheiro estranho misturado ao de Lavanda; o som alto demais, mesmo para um local onde várias tribos frequentam; a ausência da recepcionista desaforada; as persianas baixas, apesar de ter encontrado a porta já aberta. Tudo se reúne em um plano de coincidências como se fosse uma… “armadilha?”
Édipo tenta afastar sua paranoia e, mesmo com a aflição roubando o controle, disse em alto e bom som:
— Acho que vou voltar outra hora, afinal é 31 de Dezembro e não vamos querer passar o rev…
Um baque surdo no balcão sobrepujou a voz de Édipo e “Would” do Alice in Chains devolveu a trilha sonora ao estúdio. A luva da mão direita do homicida rasgou ao meio e ele grunhiu como um animal selvagem. Édipo virou-se para abrir a porta, uma mão trepando na outra, a angústia se apossando de cada milímetro de seu corpo e o arrependimento transbordando de sua alma. Antes que fugisse, sentiu um forte aperto em seu ombro esquerdo, seguido por um soco que se espatifou no centro de sua espinha. Ouviu um estalo acompanhado por um frio que começou nos dedos dos pés e terminou em seu quadril. Não desejou urinar em si mesmo, mas percebeu  a umidade descer por sua virilha e percorrer toda a extensão das suas pernas. Édipo ficou zonzo enquanto o rock continuava a explodir, levando-o na estrada que percorreu pela adolescência. Agora tocava “Beautiful People” do Marilyn Manson e, antes de Édipo se aprofundar em suas lembranças, viu o mundo girar de cabeça para baixo. Estava agora sobre o ombro direito do gordo careca, sentindo o odor de sangue levemente camuflado por um desodorante barato de Lavanda. Ouviu sob os gritos do refrão da música quando o homem passou a chave na porta, selando seu destino para sempre. Justo ele, a quem o Destino nunca foi um bom amigo. Sempre sozinho, sem nada e nem ninguém. O mundo se tornou uma espiral de sons e imagens. Édipo ergueu um pouco a cabeça, pra escapar da pancada no balcão, mas foi inevitável. Sangue saiu de seu nariz ao quebrá-lo no encontro com a estrutura do balcão. E escondido nas entranhas ocas do balcão, Édipo viu um cadáver. Ele ligou os fatos e logo supôs se tratar da recepcionista. O gordo pegou o cadáver de Rita por uma das mãos e a arrastou até os fundos do estúdio, ainda com Édipo em seu ombro. O infeliz assistindo a tudo com sua visão embaçada pelo sangue que escorria do nariz fraturado.

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Édipo pensou um pouco, a frase que havia decidido já não lhe parecia uma ideia agradável. Dos alto falantes, agora era o AC/DC que explodia com seu rock vibrante na música “Highway to Hell”. Édipo assim como a jovem Rita, a quem não conheceu pessoalmente, também foi ensinado pelos avós a interpretar os sinais. Foi assim que notou o cheiro estranho misturado ao de Lavanda; o som alto demais, mesmo para um local onde várias tribos frequentam; a ausência da recepcionista desaforada; as persianas baixas, apesar de ter encontrado a porta já aberta. Tudo se reúne em um plano de coincidências como se fosse uma… “armadilha?”
Édipo tenta afastar sua paranoia e, mesmo com a aflição roubando o controle, disse em alto e bom som:
— Acho que vou voltar outra hora, afinal é 31 de Dezembro e não vamos querer passar o rev…
Um baque surdo no balcão sobrepujou a voz de Édipo e “Would” do Alice in Chains devolveu a trilha sonora ao estúdio. A luva da mão direita do homicida rasgou ao meio e ele grunhiu como um animal selvagem. Édipo virou-se para abrir a porta, uma mão trepando na outra, a angústia se apossando de cada milímetro de seu corpo e o arrependimento transbordando de sua alma. Antes que fugisse, sentiu um forte aperto em seu ombro esquerdo, seguido por um soco que se espatifou no centro de sua espinha. Ouviu um estalo acompanhado por um frio que começou nos dedos dos pés e terminou em seu quadril. Não desejou urinar em si mesmo, mas percebeu  a umidade descer por sua virilha e percorrer toda a extensão das suas pernas. Édipo ficou zonzo enquanto o rock continuava a explodir, levando-o na estrada que percorreu pela adolescência. Agora tocava “Beautiful People” do Marilyn Manson e, antes de Édipo se aprofundar em suas lembranças, viu o mundo girar de cabeça para baixo. Estava agora sobre o ombro direito do gordo careca, sentindo o odor de sangue levemente camuflado por um desodorante barato de Lavanda. Ouviu sob os gritos do refrão da música quando o homem passou a chave na porta, selando seu destino para sempre. Justo ele, a quem o Destino nunca foi um bom amigo. Sempre sozinho, sem nada e nem ninguém. O mundo se tornou uma espiral de sons e imagens. Édipo ergueu um pouco a cabeça, pra escapar da pancada no balcão, mas foi inevitável. Sangue saiu de seu nariz ao quebrá-lo no encontro com a estrutura do balcão. E escondido nas entranhas ocas do balcão, Édipo viu um cadáver. Ele ligou os fatos e logo supôs se tratar da recepcionista. O gordo pegou o cadáver de Rita por uma das mãos e a arrastou até os fundos do estúdio, ainda com Édipo em seu ombro. O infeliz assistindo a tudo com sua visão embaçada pelo sangue que escorria do nariz fraturado.

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