Rodovia 724 - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Rodovia 724

Os faróis do Mustang estraçalham a escuridão da Rodovia 724 com sua luz amarela. Os pneus flutuam sobre a estrada e o motor rosna faminto por mais combustão. Atrás do volante temos Sid Kapersbaki; o pé afunda o acelerador, os olhos trafegam entre os retrovisores e o horizonte. O rosto é uma coleção de arranhões. Do canto da boca escorre um filete de sangue, resultado do encontro com Jennifer e seu salto quinze.

Ele pragueja, esmurra o painel. Olha para os retrovisores.

A sequidão na garganta já começa incomodar.

A mão direita salta do volante para a bolsa sobre o banco do carona. Ele a vasculha. Retira o conteúdo.

Encontra um comprimido qualquer. Coloca na boca, lubrifica com cuspe. Guia para a garganta com a língua. A glote convulsiona e a aspereza a domina. O nó desce amargo pelo esôfago.

Agora é só esperar os efeitos. Sejam eles quais forem.

Sid olha para os retrovisores, depois para o milharal que cerca a Rodovia: uma imensidão verde engolida pelas trevas, assim como o velho Mustang.

Outra olhadela nos retrovisores.

O celular toca. Sid o apanha.

“Amor Meu” oscila na tela sobre uma foto de casal. Sid rejeita a chamada e lança o aparelho pela janela. Xinga.

Olha pelo retrovisor outra vez, pensa ter ouvido sirenes.

Lá atrás, dentro do porta-malas, ouve gritos que se tornam sussurros ao disputar com o vento. Kapersbaki olha para os retrovisores, depois para o rádio.

Liga o aparelho.

Vagueia entre estações até ouvir o refrão de “Hells Bells” do AC/DC. Gira o botão do volume ao máximo.

A música ressoa furiosa e abafa os outros sons. Embala a viagem pela Rodovia, chicoteia o interior do Mustang. Sid assobia no ritmo da canção, cantarola, alisa o volante, grita. Mantém os olhos na estrada e nos retrovisores.

O locutor anuncia “Highway to Hell” e chiados interrompem sua voz.

O áudio sai entrecortado.

Sid fixa os olhos nas frequências das estações e tenta sintonizá-las.

O zunido se intensifica.

Páginas: 1 2 3

Wan Moura
Rodovia 724

Os faróis do Mustang estraçalham a escuridão da Rodovia 724 com sua luz amarela. Os pneus flutuam sobre a estrada e o motor rosna faminto por mais combustão. Atrás do volante temos Sid Kapersbaki; o pé afunda o acelerador, os olhos trafegam entre os retrovisores e o horizonte. O rosto é uma coleção de arranhões. Do canto da boca escorre um filete de sangue, resultado do encontro com Jennifer e seu salto quinze.

Ele pragueja, esmurra o painel. Olha para os retrovisores.

A sequidão na garganta já começa incomodar.

A mão direita salta do volante para a bolsa sobre o banco do carona. Ele a vasculha. Retira o conteúdo.

Encontra um comprimido qualquer. Coloca na boca, lubrifica com cuspe. Guia para a garganta com a língua. A glote convulsiona e a aspereza a domina. O nó desce amargo pelo esôfago.

Agora é só esperar os efeitos. Sejam eles quais forem.

Sid olha para os retrovisores, depois para o milharal que cerca a Rodovia: uma imensidão verde engolida pelas trevas, assim como o velho Mustang.

Outra olhadela nos retrovisores.

O celular toca. Sid o apanha.

“Amor Meu” oscila na tela sobre uma foto de casal. Sid rejeita a chamada e lança o aparelho pela janela. Xinga.

Olha pelo retrovisor outra vez, pensa ter ouvido sirenes.

Lá atrás, dentro do porta-malas, ouve gritos que se tornam sussurros ao disputar com o vento. Kapersbaki olha para os retrovisores, depois para o rádio.

Liga o aparelho.

Vagueia entre estações até ouvir o refrão de “Hells Bells” do AC/DC. Gira o botão do volume ao máximo.

A música ressoa furiosa e abafa os outros sons. Embala a viagem pela Rodovia, chicoteia o interior do Mustang. Sid assobia no ritmo da canção, cantarola, alisa o volante, grita. Mantém os olhos na estrada e nos retrovisores.

O locutor anuncia “Highway to Hell” e chiados interrompem sua voz.

O áudio sai entrecortado.

Sid fixa os olhos nas frequências das estações e tenta sintonizá-las.

O zunido se intensifica.

Páginas: 1 2 3