Sede - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Sede

Toda vez que Cleonice precisa ir ao quintal, o medo esfaqueiam seu coração. As mãos tremem, os olhos lacrimejam e a boca fica seca como o deserto. Nesse exato instante ela está bem ali, de pé na cozinha. Carrega na mão direita um balde de alumínio e a outra mão repousa sobre o pescoço; de vez em quando as pontas dos dedos medem o compasso do coração.

Os olhos vidrados atravessam a rótula da janela e perfuram a escuridão da madrugada. Buscam o inimigo que habita os fundos da casa.

Os pulmões arquejam o ar quente da cozinha e o forno com o bolo de cenoura, adocica o ambiente amargo.

Cleonice suspira e a testa gorgoleja suor.

Alcança a maçaneta. Gira. Abre a porta com cuidado, como se do outro lado um animal faminto a espreitasse. A brisa da noite atinge o rosto de forma suave, mas tão fria quanto a carne de um cadáver.

A tensão consome a viúva há dias.

Lá no fundo do terreno as folhas das árvores balançam numa cadência sutil. Alguns pirilampos permeiam a escuridão, os cavalos relincham nas cocheiras e alguns suínos perambulam no chiqueiro.

O que atrai o olhar aflito da cozinheira permanece oculto num vulto fantasmagórico. As pedras cobertas por musgo, a roldana enferrujada pairando sobre ele e a audácia de ainda existir ali a faz entrar em desespero.

O poço.

Cleonice quase sufocou quando o viu depois do que aconteceu com o marido. Teve a leve impressão de vê-lo se mover, chegar mais próximo da casa com o passar dos dias. Surgindo sempre à noite. Mais largo, mais… Vivo.

Cleonice solta uma gargalhada. Um sorriso histérico, sem sabor.

A mulher respira fundo. Contempla o forno; o bolo de cenoura assando, quase pronto. Olha para a pia e vê a torneira quebrada, o filtro de barro sem água. A sede se fazendo presente, se juntando ao pavor.

A torneira no quintal vomitando o líquido incolor tão precioso, a mangueira furada molhando a plantação de alface. Se premeditasse essa situação teria ido à casa de Dona Alcides, mas agora percorrer três quilômetros até a casa da Mãe de Santo não parecia boa ideia. Ainda mais a noite.

Ao longe o brilho afogueado das estrelas lhe deu alguma segurança perante as trevas que banhavam parte do quintal. Ou talvez o fato de a sede evoluir para dores estomacais com o ardor insuportável na garganta a tenha convencido. O fato é que Cleonice armou-se com um rosário, atravessou a varanda e desceu os degraus até o quintal. O balde mantido rente à perna e a mão sufocando a alça de plástico.

O retorno do poço é algo inconcebível para Cleonice. A existência dele fere o que conhece como a vida real, já que dias depois da morte de Donato o havia destruído. As paredes foram demolidas com uma das dinamites que o esposo costumava usar no garimpo.

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Wan Moura
Sede

Toda vez que Cleonice precisa ir ao quintal, o medo esfaqueiam seu coração. As mãos tremem, os olhos lacrimejam e a boca fica seca como o deserto. Nesse exato instante ela está bem ali, de pé na cozinha. Carrega na mão direita um balde de alumínio e a outra mão repousa sobre o pescoço; de vez em quando as pontas dos dedos medem o compasso do coração.

Os olhos vidrados atravessam a rótula da janela e perfuram a escuridão da madrugada. Buscam o inimigo que habita os fundos da casa.

Os pulmões arquejam o ar quente da cozinha e o forno com o bolo de cenoura, adocica o ambiente amargo.

Cleonice suspira e a testa gorgoleja suor.

Alcança a maçaneta. Gira. Abre a porta com cuidado, como se do outro lado um animal faminto a espreitasse. A brisa da noite atinge o rosto de forma suave, mas tão fria quanto a carne de um cadáver.

A tensão consome a viúva há dias.

Lá no fundo do terreno as folhas das árvores balançam numa cadência sutil. Alguns pirilampos permeiam a escuridão, os cavalos relincham nas cocheiras e alguns suínos perambulam no chiqueiro.

O que atrai o olhar aflito da cozinheira permanece oculto num vulto fantasmagórico. As pedras cobertas por musgo, a roldana enferrujada pairando sobre ele e a audácia de ainda existir ali a faz entrar em desespero.

O poço.

Cleonice quase sufocou quando o viu depois do que aconteceu com o marido. Teve a leve impressão de vê-lo se mover, chegar mais próximo da casa com o passar dos dias. Surgindo sempre à noite. Mais largo, mais… Vivo.

Cleonice solta uma gargalhada. Um sorriso histérico, sem sabor.

A mulher respira fundo. Contempla o forno; o bolo de cenoura assando, quase pronto. Olha para a pia e vê a torneira quebrada, o filtro de barro sem água. A sede se fazendo presente, se juntando ao pavor.

A torneira no quintal vomitando o líquido incolor tão precioso, a mangueira furada molhando a plantação de alface. Se premeditasse essa situação teria ido à casa de Dona Alcides, mas agora percorrer três quilômetros até a casa da Mãe de Santo não parecia boa ideia. Ainda mais a noite.

Ao longe o brilho afogueado das estrelas lhe deu alguma segurança perante as trevas que banhavam parte do quintal. Ou talvez o fato de a sede evoluir para dores estomacais com o ardor insuportável na garganta a tenha convencido. O fato é que Cleonice armou-se com um rosário, atravessou a varanda e desceu os degraus até o quintal. O balde mantido rente à perna e a mão sufocando a alça de plástico.

O retorno do poço é algo inconcebível para Cleonice. A existência dele fere o que conhece como a vida real, já que dias depois da morte de Donato o havia destruído. As paredes foram demolidas com uma das dinamites que o esposo costumava usar no garimpo.

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