Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.
E-mail: wandersonwmoura@gmail.com
Wattpad: WanMoura






Sede

Ela sabe que a explosão foi real. A poeira que inalou depois do estrondo, as pedras que voaram por todos os lados, inclusive matando o vira-latas do casal. O cheiro da água lodosa lambida pelo fogo e o buraco no telhado feito quando o balde ainda em chamas caiu sobre ele.

Como explicar tudo aquilo então? O que dizer da sensação angustiante de que o maldito rasteja em direção a casa ainda inteiro, com aquele fedor horrível escapando das entranhas?

Cleonice se moveu na diagonal desde que abandonou a segurança da varanda. O poço a observou durante todo o percurso, mas não a impediu de chegar à torneira. A viúva passou pela plantação de alfaces e colocou o balde sob a fluidez do líquido.

O vulto maldito estava lá, mas o que poderia fazer de tão maligno? “Enraizado ficará, como o fantasma que é!”, pensou.
A água transbordou e Cleonice agachou-se sem tirar os olhos do inimigo de pedra. Tateou em busca da alça do recipiente e empapou a mão em algo viscoso. Naquele instante um gatilho ativou o reflexo de levar a mão diante dos olhos e o que nasceu depois foi o grito mais úmido e áspero que poderia produzir.

Cleonice recuou em desespero, segurando o rosário contra o peito. A mulher só se deu conta do que fazia quando sentiu o fedor de lodo invadindo as narinas; sentiu o gosto de peixe molhar a língua e a umidade lamber o quadril sob o vestido. As pernas esbarraram no musgo e com o cotovelo sentiu a rugosidade das pedras roçando na pele.

A mão ensanguentada apalpou a borda do poço e só então a viúva ousou virar-se.

Lá estava ele, o poço. Gélido como a morte e tão real quanto a água ensebada dentro dele.

Cleonice tentou mover-se, recuar para longe do inimigo mortal, mas antes que o fizesse ouviu uma palavra ser içada pelo hálito quente e nauseante do poço.

Os pelos do corpo arrepiaram, o coração suspendeu os batimentos por míseros segundos e a onda de pavor inundou o ar.

Cleonice tentou afastar as várias possibilidades que surgiam, mas a curiosidade venceu.

A mulher se aproximou da borda, tocou a frieza das pedras e olhou dentro do abismo.

A viúva prendeu a respiração e aguardou.

Pôde ouvir o pulsar do coração em alto e bom som. Sentir o sangue escorrendo pelas veias. O pouco de saliva que restava deixou descer estuprando a glote.

O rosário apertado contra a palma da mão agia como se algum tipo de extrato da salvação pudesse socorrê-la. Os olhos mirando a solidez da escuridão lá dentro, não viram sequer o reflexo das estrelas na água.

Cleonice virou o rosto na direção do balde e viu o sangue sendo expulso em torrentes infindáveis da torneira. Olhou para a varanda e sentiu saudades da vida que tinha.

Arrependimentos também lhe afogaram a mente. Mas o horror, esse se fez presente quando mais uma vez ouviu a voz subir por aquelas paredes de limo.

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Wan Moura
Sede

Ela sabe que a explosão foi real. A poeira que inalou depois do estrondo, as pedras que voaram por todos os lados, inclusive matando o vira-latas do casal. O cheiro da água lodosa lambida pelo fogo e o buraco no telhado feito quando o balde ainda em chamas caiu sobre ele.

Como explicar tudo aquilo então? O que dizer da sensação angustiante de que o maldito rasteja em direção a casa ainda inteiro, com aquele fedor horrível escapando das entranhas?

Cleonice se moveu na diagonal desde que abandonou a segurança da varanda. O poço a observou durante todo o percurso, mas não a impediu de chegar à torneira. A viúva passou pela plantação de alfaces e colocou o balde sob a fluidez do líquido.

O vulto maldito estava lá, mas o que poderia fazer de tão maligno? “Enraizado ficará, como o fantasma que é!”, pensou.
A água transbordou e Cleonice agachou-se sem tirar os olhos do inimigo de pedra. Tateou em busca da alça do recipiente e empapou a mão em algo viscoso. Naquele instante um gatilho ativou o reflexo de levar a mão diante dos olhos e o que nasceu depois foi o grito mais úmido e áspero que poderia produzir.

Cleonice recuou em desespero, segurando o rosário contra o peito. A mulher só se deu conta do que fazia quando sentiu o fedor de lodo invadindo as narinas; sentiu o gosto de peixe molhar a língua e a umidade lamber o quadril sob o vestido. As pernas esbarraram no musgo e com o cotovelo sentiu a rugosidade das pedras roçando na pele.

A mão ensanguentada apalpou a borda do poço e só então a viúva ousou virar-se.

Lá estava ele, o poço. Gélido como a morte e tão real quanto a água ensebada dentro dele.

Cleonice tentou mover-se, recuar para longe do inimigo mortal, mas antes que o fizesse ouviu uma palavra ser içada pelo hálito quente e nauseante do poço.

Os pelos do corpo arrepiaram, o coração suspendeu os batimentos por míseros segundos e a onda de pavor inundou o ar.

Cleonice tentou afastar as várias possibilidades que surgiam, mas a curiosidade venceu.

A mulher se aproximou da borda, tocou a frieza das pedras e olhou dentro do abismo.

A viúva prendeu a respiração e aguardou.

Pôde ouvir o pulsar do coração em alto e bom som. Sentir o sangue escorrendo pelas veias. O pouco de saliva que restava deixou descer estuprando a glote.

O rosário apertado contra a palma da mão agia como se algum tipo de extrato da salvação pudesse socorrê-la. Os olhos mirando a solidez da escuridão lá dentro, não viram sequer o reflexo das estrelas na água.

Cleonice virou o rosto na direção do balde e viu o sangue sendo expulso em torrentes infindáveis da torneira. Olhou para a varanda e sentiu saudades da vida que tinha.

Arrependimentos também lhe afogaram a mente. Mas o horror, esse se fez presente quando mais uma vez ouviu a voz subir por aquelas paredes de limo.

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