Voyeurismo Barkeriano - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.





Voyeurismo Barkeriano

Jhonny colocou o CD para tocar e como um passe de mágica me senti novamente em nosso primeiro encontro. O roçar de nossos corpos, nossas línguas se encontrando e contorcendo-se como serpentes acasalando, o suor desprendendo o cheiro de sexo e inundando toda a suíte; o sangue, as dores… Aquelas sensações se misturam a outras e neste momento cedo, minha atenção à garota que acompanha meu homem. Os seios dela apontam para o teto e seus quadris deslizam sob a colcha da cama king size. Ela deseja o prazer prometido pelo estranho que conheceu a algumas horas numa boate a doze quilômetros do Hotel Fazenda onde estamos. Foi lá que tempos atrás meu destino foi selado. Volto a me concentrar na música que escapa do rádio, a minha preferida, da banda Roxette: “Spend my time”. Uma das canções que Jhonny sempre coloca antes de realizar seu fetiche. A música parece regar seus atos, estimular seu orgasmo e inflar sua crueldade.

Às vezes me sinto confusa e já não sei há quanto tempo estou por aqui. Demorei em entender o que acontecia até notar que os cabelos de Jhonny já abandonavam seu couro cabeludo e em seu rosto, rugas surgiam. Foi tudo tão rápido e quando me dei conta, estava em uma escuridão onde o silêncio reinava. Andei por um tempo em todas as direções possíveis. Não havia ninguém lá. Além é claro daqueles… Preciso me concentrar. O tempo é meu inimigo e esta é minha última oportunidade. Agora a música que toca é “Don’t Speak” do No Doubt. Outra das canções que alimentam Jhonny, “O conquistador”. Na verdade ele é um caçador que escolhe suas presas a dedo. Sempre as adolescentes, as carentes de atenção. “Pais ausentes, perigo presente!” foi o que ele sussurrou enquanto ejaculava dentro de mim. Da mesma forma que faz agora, com sua escolhida. Mesmo método, mesmas escolhas. Sento-me e o aguardo entrar em ação pela décima quarta vez. Ele a beija. Entrelaça sua mão esquerda à dela e juntos sussurram juras de amor. O movimento de vai e vem quase já não existe, mas ele permanece dentro dela. A garota se deixa levar pelo romantismo do Romeu e fecha os olhos; não percebeu a mão direita dele rastejando para baixo do travesseiro. Já devia ter me habituado com todo esse processo, mas confesso que hoje é impossível não me compadecer.

Ouço a garota murmurar algo e me aproximo de ambos a tempo de ouvi-la dizer: “Te amo!”. Este é o sinal que ele sempre espera. Foi o que eu disse naquela noite depois da Boate. É o que todas nós dizemos a ele; é o gatilho para sua ignição. Jhonny a beija e assim que termina a troca de saliva, enfia o revólver na boca de Márcia. Sim, esse é o nome da acompanhante. Em breve ela conhecerá o outro lado. Dois dentes são arrancados com a entrada daquele cilindro em sua boca. Vejo lágrimas escorrerem pelo rosto de Márcia, seu coração está desalinhado e sua respiração chia como uma panela de pressão entremeada a soluços e engasgos. O Romeu, por outro lado, permanece da mesma forma de sempre: Olhos sem cor e sobrancelhas arqueadas, formando sulcos entre elas. Os dentes guilhotinam o ar e secreções são expelidas por suas narinas.

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Wan Moura
Voyeurismo Barkeriano

Jhonny colocou o CD para tocar e como um passe de mágica me senti novamente em nosso primeiro encontro. O roçar de nossos corpos, nossas línguas se encontrando e contorcendo-se como serpentes acasalando, o suor desprendendo o cheiro de sexo e inundando toda a suíte; o sangue, as dores… Aquelas sensações se misturam a outras e neste momento cedo, minha atenção à garota que acompanha meu homem. Os seios dela apontam para o teto e seus quadris deslizam sob a colcha da cama king size. Ela deseja o prazer prometido pelo estranho que conheceu a algumas horas numa boate a doze quilômetros do Hotel Fazenda onde estamos. Foi lá que tempos atrás meu destino foi selado. Volto a me concentrar na música que escapa do rádio, a minha preferida, da banda Roxette: “Spend my time”. Uma das canções que Jhonny sempre coloca antes de realizar seu fetiche. A música parece regar seus atos, estimular seu orgasmo e inflar sua crueldade.

Às vezes me sinto confusa e já não sei há quanto tempo estou por aqui. Demorei em entender o que acontecia até notar que os cabelos de Jhonny já abandonavam seu couro cabeludo e em seu rosto, rugas surgiam. Foi tudo tão rápido e quando me dei conta, estava em uma escuridão onde o silêncio reinava. Andei por um tempo em todas as direções possíveis. Não havia ninguém lá. Além é claro daqueles… Preciso me concentrar. O tempo é meu inimigo e esta é minha última oportunidade. Agora a música que toca é “Don’t Speak” do No Doubt. Outra das canções que alimentam Jhonny, “O conquistador”. Na verdade ele é um caçador que escolhe suas presas a dedo. Sempre as adolescentes, as carentes de atenção. “Pais ausentes, perigo presente!” foi o que ele sussurrou enquanto ejaculava dentro de mim. Da mesma forma que faz agora, com sua escolhida. Mesmo método, mesmas escolhas. Sento-me e o aguardo entrar em ação pela décima quarta vez. Ele a beija. Entrelaça sua mão esquerda à dela e juntos sussurram juras de amor. O movimento de vai e vem quase já não existe, mas ele permanece dentro dela. A garota se deixa levar pelo romantismo do Romeu e fecha os olhos; não percebeu a mão direita dele rastejando para baixo do travesseiro. Já devia ter me habituado com todo esse processo, mas confesso que hoje é impossível não me compadecer.

Ouço a garota murmurar algo e me aproximo de ambos a tempo de ouvi-la dizer: “Te amo!”. Este é o sinal que ele sempre espera. Foi o que eu disse naquela noite depois da Boate. É o que todas nós dizemos a ele; é o gatilho para sua ignição. Jhonny a beija e assim que termina a troca de saliva, enfia o revólver na boca de Márcia. Sim, esse é o nome da acompanhante. Em breve ela conhecerá o outro lado. Dois dentes são arrancados com a entrada daquele cilindro em sua boca. Vejo lágrimas escorrerem pelo rosto de Márcia, seu coração está desalinhado e sua respiração chia como uma panela de pressão entremeada a soluços e engasgos. O Romeu, por outro lado, permanece da mesma forma de sempre: Olhos sem cor e sobrancelhas arqueadas, formando sulcos entre elas. Os dentes guilhotinam o ar e secreções são expelidas por suas narinas.

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