Voyeurismo Barkeriano - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.





Voyeurismo Barkeriano

Uma veia salta no meio de sua testa e o pomo de Adão sobe e desce acompanhando a saliva que lubrifica o esôfago. O dedo indicador dele encontra o olho dela e o pressiona… o dedo escorrega para os cantos e aperta com mais força. Ela choraminga algo e Jhonny espreme o olho novamente, desta vez usando a ponta da unha. O globo ocular começa a ser tensionado para fora. Márcia se debate, chora… Sente a merda abandonar seu intestino quando seu olho é extraído. Não demora muito para que a bexiga dela se esvazie e seus fluidos corporais dancem numa só mistura. Jhonny aproveita o êxtase que o consome e também lança sobre a cama seus fluidos. Sua urina possui uma coloração diferente, somada a um odor que me remete à época em que meu avô perecia sob os efeitos de um câncer de próstata. É o mesmo fedor de morte.

As pernas da décima quarta vítima do Assassino das Boates ― uma lenda urbana cuja veracidade eu ignorei ― se debatem, chutam o ar em tentativas inúteis de impedir o inevitável. Jhonny engatilha o revólver e, antes de disparar, sussurra a mesma frase que até hoje ecoa em meus tímpanos estourados:

“Pais ausentes, perigo presente!” Sim, ele é um aborto da natureza. Algo que foge à compreensão humana. Assim como os seres que nos aguardam do outro lado.

“O tempo urge… venham para o lugar da diversão eterna!… vamos violar vocês até o Inferno congelar… venham!”

“Is This Love”, do Whitesnake agora é quem ricocheteia nas paredes da suíte de Jhonny. Continuo observando o desenrolar dos acontecimentos, à espreita da oportunidade de me vingar. No colchão vejo fezes, urina, esperma e sangue. Muito sangue. O olho de Márcia que sobrou, irá vislumbrar as trevas do outro lado. Com o passar do tempo, ela se sentirá em um cinema, sorrindo dos que chegam quando a sessão já começou e sentem dificuldade em encontrar suas poltronas. Levará um tempo até que se acostume com a escuridão e a oscilação de temperatura. Entretanto, quando finalmente isso acontecer, ela desejará ter continuado cega e confusa. Vejo quando Jhonny levanta da cama. Ele apanha a calcinha de Márcia e limpa o revólver enquanto me aproximo e beijo sua nuca. Ele sente um arrepio subir na sua espinha, mas o ignora. Está imerso em seus próprios pensamentos. Olho para sua obra de arte e vejo a grande massa vermelha sob a cabeça estourada de Márcia. A boca se tornou uma piscina de sangue e um fedor de pólvora se espalha no ar. Os cabelos estão sujos com massa encefálica e o corpo sem vida à espera da decomposição. Olho para o lado e vejo nosso assassino guardar o revólver na gaveta. Ele se move para lá e para cá, dançando nu como se ensaiasse novos passos. Talvez imaginando que terá tempo e vida para conquistar a décima quinta vítima. Contudo, não haverá uma próxima vez. Não se depender de mim.

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Wan Moura
Voyeurismo Barkeriano

Uma veia salta no meio de sua testa e o pomo de Adão sobe e desce acompanhando a saliva que lubrifica o esôfago. O dedo indicador dele encontra o olho dela e o pressiona… o dedo escorrega para os cantos e aperta com mais força. Ela choraminga algo e Jhonny espreme o olho novamente, desta vez usando a ponta da unha. O globo ocular começa a ser tensionado para fora. Márcia se debate, chora… Sente a merda abandonar seu intestino quando seu olho é extraído. Não demora muito para que a bexiga dela se esvazie e seus fluidos corporais dancem numa só mistura. Jhonny aproveita o êxtase que o consome e também lança sobre a cama seus fluidos. Sua urina possui uma coloração diferente, somada a um odor que me remete à época em que meu avô perecia sob os efeitos de um câncer de próstata. É o mesmo fedor de morte.

As pernas da décima quarta vítima do Assassino das Boates ― uma lenda urbana cuja veracidade eu ignorei ― se debatem, chutam o ar em tentativas inúteis de impedir o inevitável. Jhonny engatilha o revólver e, antes de disparar, sussurra a mesma frase que até hoje ecoa em meus tímpanos estourados:

“Pais ausentes, perigo presente!” Sim, ele é um aborto da natureza. Algo que foge à compreensão humana. Assim como os seres que nos aguardam do outro lado.

“O tempo urge… venham para o lugar da diversão eterna!… vamos violar vocês até o Inferno congelar… venham!”

“Is This Love”, do Whitesnake agora é quem ricocheteia nas paredes da suíte de Jhonny. Continuo observando o desenrolar dos acontecimentos, à espreita da oportunidade de me vingar. No colchão vejo fezes, urina, esperma e sangue. Muito sangue. O olho de Márcia que sobrou, irá vislumbrar as trevas do outro lado. Com o passar do tempo, ela se sentirá em um cinema, sorrindo dos que chegam quando a sessão já começou e sentem dificuldade em encontrar suas poltronas. Levará um tempo até que se acostume com a escuridão e a oscilação de temperatura. Entretanto, quando finalmente isso acontecer, ela desejará ter continuado cega e confusa. Vejo quando Jhonny levanta da cama. Ele apanha a calcinha de Márcia e limpa o revólver enquanto me aproximo e beijo sua nuca. Ele sente um arrepio subir na sua espinha, mas o ignora. Está imerso em seus próprios pensamentos. Olho para sua obra de arte e vejo a grande massa vermelha sob a cabeça estourada de Márcia. A boca se tornou uma piscina de sangue e um fedor de pólvora se espalha no ar. Os cabelos estão sujos com massa encefálica e o corpo sem vida à espera da decomposição. Olho para o lado e vejo nosso assassino guardar o revólver na gaveta. Ele se move para lá e para cá, dançando nu como se ensaiasse novos passos. Talvez imaginando que terá tempo e vida para conquistar a décima quinta vítima. Contudo, não haverá uma próxima vez. Não se depender de mim.

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