Voyeurismo Barkeriano - Wan Moura
Wan Moura
Sou uma alma fragmentada que geralmente caminha beirando o precipício. Já acordei nas Montanhas da Loucura e já passei pelo Desfiladeiro do Medo. Peguei carona com o dono do Buick 8 e já fui mordido por um cão, Cujo dono era O Iluminado. Eu durmo em criptas e tento colaborar com O Corvo que, dia após dia, consome meu Coração Satânico. Enfim, esse sou eu! Canceriano, negro de cor e coração nefasto, viciado num bom e velho Rock, um tatuado nascido sob o segundo dia de um Julho de 1989, eletricista como ganha pão e que escreve com o nobre intuito de espalhar um amargo veneno cáustico no ar, apenas para admirar o caos de camarote. Um ser bizarro, praticante da Lei de Talião e apaixonado pelo que é macabro e obscuro. Wan Moura é uma centelha mefistofélica vivendo clandestinamente na capital maranhense. Sou tudo isso e nenhuma molécula a mais.





Voyeurismo Barkeriano

“Amazing” do Aerosmith começa e meu homem derruba o cadáver de Márcia no chão. Ela cai de bruços e consigo ver o buraco sangrento em sua nuca. Igual a mim, igual a todas que pereceram sob os encantos de um Romeu sem virtudes. Jhonny arrasta o cadáver para o banheiro e depois vai em direção ao rádio. Ele se move como Mick Jagger na canção “Satisfaction” e ainda gingando troca o CD. O silêncio é rompido apenas quando a música “Eye of The Tiger” do Survivor, começa a ribombar como trovões. Essa era a trilha sonora de um filme que meu pai adorava. Talvez por isso seja uma das poucas lembranças que a bala em meu cérebro não se encarregou de apagar. Jhonny tem sangue manchando seu rosto e o peitoral. Vejo pedaços de merda se desprenderem de sua barriga e manchar o chão enquanto ele volta para o banheiro, cantarolando. Ele entra e deixa a porta aberta. Com certa dificuldade, coloca o corpo de Márcia dentro da banheira e pega o galão que comprou na Magazine Luíza. Daqui a pouco o corpo de Márcia vai liberar vapores originados do encontro com o ácido sulfúrico. Ela não irá sentir nada. Bom, ao menos não neste Mundo. Lá do outro lado do espelho as trevas sussurram, as dores são constantes e a eternidade é um sofrimento. Naquele lugar, unhas são arrancadas à base de marretadas. Almas são perfuradas com ferro e escalpos são subtraídos por mãos invisíveis, que se inserem em nossos orifícios como carrapatos num vira-latas. Sim, a morte não é o fim. As sensações permanecem, como o começo de uma história sem nexo. Não consigo suportar a ideia de voltar para aquele poço de imundícies e ser forçada a beber e comer excrementos originados por seres alados e viciados em sexo. Não quero voltar. Por isso estou aqui. Aproveitando a barganha feita por mim com um dos Mestres do Mundo Inferior. Digamos que tenha recebido um Habeas Corpus. O CD muda a faixa e agora “In a Darked Room” começa. Adoro Skid Row, eles estavam no auge quando Jhonny enfiou uma arma na minha boca.

Observo os gases subirem assim que Jhonny derrama o líquido do garrafão laranja na banheira. Um chiado insiste em abafar a música, além dos sons das bolhas de água e sangue estourando sobre a carne de Márcia. Mas não faz mal, é chegada a hora de agir. Testemunho meu assassino despejar a última gota do ácido na banheira e se mover em direção à porta, com a boca aberta e suor banhando seu corpo. Ele já alcançava a maçaneta quando empurro a porta e a tranco. Sim, posso fazer isso. Foi preciso dedicação e uma boa dose de paciência. Treinei enquanto via as vítimas do Romeu assassino se multiplicarem. Estou cara a cara com ele, mas seu olhar apenas me atravessa. O velho não vislumbra a fumaça que escapa por entre meus dentes a todo o momento; nem ao menos vê a cratera em minha nuca, por onde meu cérebro escorrega como uma pasta de amendoim. Passo por dentro dele e flutuo para o box. Ligo o chuveiro e depois a torneira da pia. Jhonny entra em desespero. Recua até sentir as costas tocarem a porta; suas mãos alcançam a maçaneta e a puxa em movimentos que não o levarão a lugar nenhum. Os lábios dele racham e eu os umedeço com minha língua. Seus olhos despejam lágrimas e ficam rubros como o sangue que escorre em filetes de seu nariz. Talvez seja a amônia que carrego em minha boca ou os gases dilacerando seu sistema respiratório que o forçam a tossir como um tubérculo. Jhonny põe as mãos à frente da boca e as tinge de vermelho ao tossir. Aproveito a situação e o abraço, sussurrando obscenidades em seu ouvido. Ele me ouve e se desespera.

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Wan Moura
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“Amazing” do Aerosmith começa e meu homem derruba o cadáver de Márcia no chão. Ela cai de bruços e consigo ver o buraco sangrento em sua nuca. Igual a mim, igual a todas que pereceram sob os encantos de um Romeu sem virtudes. Jhonny arrasta o cadáver para o banheiro e depois vai em direção ao rádio. Ele se move como Mick Jagger na canção “Satisfaction” e ainda gingando troca o CD. O silêncio é rompido apenas quando a música “Eye of The Tiger” do Survivor, começa a ribombar como trovões. Essa era a trilha sonora de um filme que meu pai adorava. Talvez por isso seja uma das poucas lembranças que a bala em meu cérebro não se encarregou de apagar. Jhonny tem sangue manchando seu rosto e o peitoral. Vejo pedaços de merda se desprenderem de sua barriga e manchar o chão enquanto ele volta para o banheiro, cantarolando. Ele entra e deixa a porta aberta. Com certa dificuldade, coloca o corpo de Márcia dentro da banheira e pega o galão que comprou na Magazine Luíza. Daqui a pouco o corpo de Márcia vai liberar vapores originados do encontro com o ácido sulfúrico. Ela não irá sentir nada. Bom, ao menos não neste Mundo. Lá do outro lado do espelho as trevas sussurram, as dores são constantes e a eternidade é um sofrimento. Naquele lugar, unhas são arrancadas à base de marretadas. Almas são perfuradas com ferro e escalpos são subtraídos por mãos invisíveis, que se inserem em nossos orifícios como carrapatos num vira-latas. Sim, a morte não é o fim. As sensações permanecem, como o começo de uma história sem nexo. Não consigo suportar a ideia de voltar para aquele poço de imundícies e ser forçada a beber e comer excrementos originados por seres alados e viciados em sexo. Não quero voltar. Por isso estou aqui. Aproveitando a barganha feita por mim com um dos Mestres do Mundo Inferior. Digamos que tenha recebido um Habeas Corpus. O CD muda a faixa e agora “In a Darked Room” começa. Adoro Skid Row, eles estavam no auge quando Jhonny enfiou uma arma na minha boca.

Observo os gases subirem assim que Jhonny derrama o líquido do garrafão laranja na banheira. Um chiado insiste em abafar a música, além dos sons das bolhas de água e sangue estourando sobre a carne de Márcia. Mas não faz mal, é chegada a hora de agir. Testemunho meu assassino despejar a última gota do ácido na banheira e se mover em direção à porta, com a boca aberta e suor banhando seu corpo. Ele já alcançava a maçaneta quando empurro a porta e a tranco. Sim, posso fazer isso. Foi preciso dedicação e uma boa dose de paciência. Treinei enquanto via as vítimas do Romeu assassino se multiplicarem. Estou cara a cara com ele, mas seu olhar apenas me atravessa. O velho não vislumbra a fumaça que escapa por entre meus dentes a todo o momento; nem ao menos vê a cratera em minha nuca, por onde meu cérebro escorrega como uma pasta de amendoim. Passo por dentro dele e flutuo para o box. Ligo o chuveiro e depois a torneira da pia. Jhonny entra em desespero. Recua até sentir as costas tocarem a porta; suas mãos alcançam a maçaneta e a puxa em movimentos que não o levarão a lugar nenhum. Os lábios dele racham e eu os umedeço com minha língua. Seus olhos despejam lágrimas e ficam rubros como o sangue que escorre em filetes de seu nariz. Talvez seja a amônia que carrego em minha boca ou os gases dilacerando seu sistema respiratório que o forçam a tossir como um tubérculo. Jhonny põe as mãos à frente da boca e as tinge de vermelho ao tossir. Aproveito a situação e o abraço, sussurrando obscenidades em seu ouvido. Ele me ouve e se desespera.

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