Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Acadea
Acadea (pseudônimo) é formanda em Licenciatura de Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul - da qual é embaixadora - é moradora da serra gaúcha e vem participando de Antologias desde 2019. Esposa, mãe e escritora do estilo terror/horror, bem como de artigos e críticas na área socio/filosófica.
Insta: @a.ca.de.a






O Encontro

Em mais um dia comum, de uma cidade comum, todos correm contra o tempo, distraídos e cegados por ganância e vaidade, ou quase todos. Baixa e magra, de cabelos longos e castanhos, desarrumados pelo novo penteado que fez para esconder as novas marcas do marido, ela também caminha apressada, de ombros curvados e olheiras fundas contornando os olhos castanhos, costurando a multidão, mas ela não está cega, ela está cansada.

Ela baixa os olhos e se concentra em ouvir o caos. Pessoas falando alto, carros buzinando, caminhões e ônibus barulhentos junto das sirenes policiais e de ambulâncias. Era o limite para sua sanidade.

Segurando as lágrimas ela corre para o primeiro lugar vazio que vê, um beco feito por prédios mal estruturados que serve somente para acumular entulho e lixo. Ela entra correndo, pisando sem se importar nas possas d’água criadas pela chuva calma que cai incessante durante dias. Ela chega ao fundo escuro e desaba, caída de joelhos no chão molhado e chora com desespero, ela não quer mais viver, ela não consegue mais, consumida pela dor deixa sair de sua garganta um grito preso à anos, a cidade estava ocupada demais para ouvi-la.

Mas alguém a ouviu, e sua voz a fez congelar de surpresa e medo.

– Espero que não se importe de compartilhar este local comigo.

A voz vinha de um canto ainda mais escuro, uma sombra alta e magra escorada em uma das paredes úmidas. Sem ação e sem força alguma ela continuou ali.

– Pode levar minhas coisas, só me deixe aqui quieta.

A sombra se moveu com uma risada baixa e doce, quase angelical. Ele se aproximou suave e se abaixou para ficar frente a frente com ela.

– Não vim assaltá-la, não se preocupe.

Sua aparência era estranha e encantadora, e de alguma forma, errada. Os cabelos negros e compridos até o queixo emolduravam um rosto fino e longo, os olhos grandes e azul escuros pareciam refletir o fundo enigmático do oceano, tão encantadores que quase ofuscavam o desenho fino e comprido de seu nariz. Na pele pálida mal se podia distinguir as gotas de chuva e as cicatrizes esbranquiçadas, nos lábios finos e perfeitamente desenhados permanecia um leve sorriso, calmo e ingênuo, como o de uma criança.

O choro que havia parado com o susto agora se intensifica de maneira tão profunda que ela mal consegue respirar, foi como se ver aquela imagem em sua frente a fizesse explodir. E ele continuou ali, sem qualquer questionamento.

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Acadea
O Encontro

Em mais um dia comum, de uma cidade comum, todos correm contra o tempo, distraídos e cegados por ganância e vaidade, ou quase todos. Baixa e magra, de cabelos longos e castanhos, desarrumados pelo novo penteado que fez para esconder as novas marcas do marido, ela também caminha apressada, de ombros curvados e olheiras fundas contornando os olhos castanhos, costurando a multidão, mas ela não está cega, ela está cansada.

Ela baixa os olhos e se concentra em ouvir o caos. Pessoas falando alto, carros buzinando, caminhões e ônibus barulhentos junto das sirenes policiais e de ambulâncias. Era o limite para sua sanidade.

Segurando as lágrimas ela corre para o primeiro lugar vazio que vê, um beco feito por prédios mal estruturados que serve somente para acumular entulho e lixo. Ela entra correndo, pisando sem se importar nas possas d’água criadas pela chuva calma que cai incessante durante dias. Ela chega ao fundo escuro e desaba, caída de joelhos no chão molhado e chora com desespero, ela não quer mais viver, ela não consegue mais, consumida pela dor deixa sair de sua garganta um grito preso à anos, a cidade estava ocupada demais para ouvi-la.

Mas alguém a ouviu, e sua voz a fez congelar de surpresa e medo.

– Espero que não se importe de compartilhar este local comigo.

A voz vinha de um canto ainda mais escuro, uma sombra alta e magra escorada em uma das paredes úmidas. Sem ação e sem força alguma ela continuou ali.

– Pode levar minhas coisas, só me deixe aqui quieta.

A sombra se moveu com uma risada baixa e doce, quase angelical. Ele se aproximou suave e se abaixou para ficar frente a frente com ela.

– Não vim assaltá-la, não se preocupe.

Sua aparência era estranha e encantadora, e de alguma forma, errada. Os cabelos negros e compridos até o queixo emolduravam um rosto fino e longo, os olhos grandes e azul escuros pareciam refletir o fundo enigmático do oceano, tão encantadores que quase ofuscavam o desenho fino e comprido de seu nariz. Na pele pálida mal se podia distinguir as gotas de chuva e as cicatrizes esbranquiçadas, nos lábios finos e perfeitamente desenhados permanecia um leve sorriso, calmo e ingênuo, como o de uma criança.

O choro que havia parado com o susto agora se intensifica de maneira tão profunda que ela mal consegue respirar, foi como se ver aquela imagem em sua frente a fizesse explodir. E ele continuou ali, sem qualquer questionamento.

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