Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Acadea
Acadea (pseudônimo) é formanda em Licenciatura de Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul - da qual é embaixadora - é moradora da serra gaúcha e vem participando de Antologias desde 2019. Esposa, mãe e escritora do estilo terror/horror, bem como de artigos e críticas na área socio/filosófica.
Insta: @a.ca.de.a






O Encontro

– Porque?

Ela pergunta baixinho.

– Jamais deixaria alguém sozinho com tamanho sofrimento nas costas.

Sua voz continuava no mesmo tom, como se a conhecesse a anos, como se ele soubesse o que ela sentia, sua voz era confortante e estranhamente familiar.

– Você pode pedir ajuda se quiser.

Ele continuou, como se estivesse ali apenas por ela.

Ela levantou a cabeça furiosa, com raiva pela forma como ele era calmo, estava mesmo calmo ou estava apenas sendo sarcástico.

– Você não me conhece, como pode me ajudar, como pode dizer essas coisas como se conhecesse o mundo, você não sabe de nada!

Ela podia sentir a fúria do próprio olhar, o ardor da raiva se espalhando por sua face e a dor que consumia seu coração parecia corroê-la como ácido de dentro para fora.

Ainda de semblante calmo ele se levantou e olhou para o céu.

– Todos são iguais, todos já sentiram a dor que você sente agora, eu já senti. A dor de não ser o que realmente é, de não ser livre, de não viver a verdadeira vida, todos sentem o mesmo que você, a diferença é que eles escolhem afogar esse sentimento, eles escolhem não sentir nada.

Ele baixa o olhar para ir de encontro ao dela e estende a mão.

– Apenas as pessoas verdadeiramente fortes não suprimem a alma para se adaptar ao anormal. Venha, quero lhe mostrar uma coisa.

Ela ficou confusa, esperava que ele fosse embora ou se aborrecesse, mas ele apenas a confortou mais uma vez. Por instinto ela pega em sua mão e levanta. Sua pele era tão macia que parecia estar pegando algodão, ainda que fosse firme o suficiente para erguê-la sem esforço.

Colocando as mãos em seus ombros ele a posicionou em sua frente, com os dedos longos embaixo de seu queixo ele ergue seu rosto para o céu nublado.

– Quero que você feche os olhos e esqueça de tudo, nada tem mais importância que este momento.

Por um breve momento ela chorou, mas aos poucos tudo pareceu mudar. Os barulhos da cidade foram desaparecendo como se alguém houvesse abaixado o volume de um rádio, ela passou a ouvir apenas os batimentos de seu próprio coração, descompassados e baixos como uma melodia triste. Sentiu seu corpo relaxar e o molhado da chuva em sua roupa, confortável, depois leve, e então passou a sentir cada gota de chuva cair em sua pele produzindo pequenas ondas de cor e sentimento. Era como se ela pudesse ver-se de longe, era como se a chuva lavasse o mundo, e de repente tudo era cor e sentimentos, um caos de sentimentos que poderia ser eterno.

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Acadea
O Encontro

– Porque?

Ela pergunta baixinho.

– Jamais deixaria alguém sozinho com tamanho sofrimento nas costas.

Sua voz continuava no mesmo tom, como se a conhecesse a anos, como se ele soubesse o que ela sentia, sua voz era confortante e estranhamente familiar.

– Você pode pedir ajuda se quiser.

Ele continuou, como se estivesse ali apenas por ela.

Ela levantou a cabeça furiosa, com raiva pela forma como ele era calmo, estava mesmo calmo ou estava apenas sendo sarcástico.

– Você não me conhece, como pode me ajudar, como pode dizer essas coisas como se conhecesse o mundo, você não sabe de nada!

Ela podia sentir a fúria do próprio olhar, o ardor da raiva se espalhando por sua face e a dor que consumia seu coração parecia corroê-la como ácido de dentro para fora.

Ainda de semblante calmo ele se levantou e olhou para o céu.

– Todos são iguais, todos já sentiram a dor que você sente agora, eu já senti. A dor de não ser o que realmente é, de não ser livre, de não viver a verdadeira vida, todos sentem o mesmo que você, a diferença é que eles escolhem afogar esse sentimento, eles escolhem não sentir nada.

Ele baixa o olhar para ir de encontro ao dela e estende a mão.

– Apenas as pessoas verdadeiramente fortes não suprimem a alma para se adaptar ao anormal. Venha, quero lhe mostrar uma coisa.

Ela ficou confusa, esperava que ele fosse embora ou se aborrecesse, mas ele apenas a confortou mais uma vez. Por instinto ela pega em sua mão e levanta. Sua pele era tão macia que parecia estar pegando algodão, ainda que fosse firme o suficiente para erguê-la sem esforço.

Colocando as mãos em seus ombros ele a posicionou em sua frente, com os dedos longos embaixo de seu queixo ele ergue seu rosto para o céu nublado.

– Quero que você feche os olhos e esqueça de tudo, nada tem mais importância que este momento.

Por um breve momento ela chorou, mas aos poucos tudo pareceu mudar. Os barulhos da cidade foram desaparecendo como se alguém houvesse abaixado o volume de um rádio, ela passou a ouvir apenas os batimentos de seu próprio coração, descompassados e baixos como uma melodia triste. Sentiu seu corpo relaxar e o molhado da chuva em sua roupa, confortável, depois leve, e então passou a sentir cada gota de chuva cair em sua pele produzindo pequenas ondas de cor e sentimento. Era como se ela pudesse ver-se de longe, era como se a chuva lavasse o mundo, e de repente tudo era cor e sentimentos, um caos de sentimentos que poderia ser eterno.

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