Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Devaneias

A lua sangrenta se estendia ao leste, e as estrelas avançavam contra ela. Ventania e o cavalo formavam uma silhueta mutante que se estendia a partir do casco do animal. As estrelas disputavam com a lua por uma ondulada imagem refletida no litro.
Ventania atravessou a entrada principal do vilarejo. Uma procissão serpenteava a ruela. Ele puxava o animal — que mais parecia um lagarto; o bicho estava exausto.
No fim da rua havia um coxo. Água na cara, na nuca; as mãos limpas. O cavalo permanecia com a fuça afundada. Ventania olhou para dentro do barril e viu um vulto próximo à lua refletida.
— Seu animar careci di cuidadus.
O cangaceiro tirou os olhos da lua balançante e encarou o homem curvado de estranha feição.
— Tá cum sedi — disse batendo no lombo do animal. — I cum fomi. Qualé tua graça? É du bandu di Corisco ou du capitão Lampião?
— Meu nomi é Madurana, mais tudu mundu mi cunhieci pur Ventania.
—Ventania das morti — o homem sorriu. — Eu mi alembru, tu andava cum capitão Virgulinu.
— Andava. Hoji andu cum nossu sinhô i salvadô Jisuis Cristo. Mió cum Eli du qui cum outro cabra qualqué.
— Si achegui mais, seu Madurana. Vamu lá pru meu istabilicimentu, tenhu bebida. Venha! Traga u bicho! Tenhu um cadim di grama cortada tumbém.
O cangaceiro encarou o sujeito e sorriu. Lá estava a alma que o livraria da maldição.
Entre um copo e outro, Madurana se deu conta de que havia passado dos limites. O homem à sua frente havia triplicado: uma figura central e dois espectros — um para a direita e o outro para a esquerda. Olhou pela janela, e a procissão das velas havia desaparecido. Correu até a porta: a cidade estava deserta, uma neblina fina descia.
Então o cangaceiro se voltou para o homem no balcão e um cabrito negro e barbudo o saudou: Béééééé. Com os punhos cerrados, ele esfregou os olhos e olhou e era o cabrito que estava lá.
Um barulho atrás do balcão chamou-lhe a atenção. O cangaceiro se aproximou, o cabrito saltou: bééééé bééééé bééééé. Madurana se debruçou contra a pedra e viu: uma criatura cinzenta com as asas sujas de sangue aguardava para o ataque.

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Aislan Coulter
Devaneias

A lua sangrenta se estendia ao leste, e as estrelas avançavam contra ela. Ventania e o cavalo formavam uma silhueta mutante que se estendia a partir do casco do animal. As estrelas disputavam com a lua por uma ondulada imagem refletida no litro.
Ventania atravessou a entrada principal do vilarejo. Uma procissão serpenteava a ruela. Ele puxava o animal — que mais parecia um lagarto; o bicho estava exausto.
No fim da rua havia um coxo. Água na cara, na nuca; as mãos limpas. O cavalo permanecia com a fuça afundada. Ventania olhou para dentro do barril e viu um vulto próximo à lua refletida.
— Seu animar careci di cuidadus.
O cangaceiro tirou os olhos da lua balançante e encarou o homem curvado de estranha feição.
— Tá cum sedi — disse batendo no lombo do animal. — I cum fomi. Qualé tua graça? É du bandu di Corisco ou du capitão Lampião?
— Meu nomi é Madurana, mais tudu mundu mi cunhieci pur Ventania.
—Ventania das morti — o homem sorriu. — Eu mi alembru, tu andava cum capitão Virgulinu.
— Andava. Hoji andu cum nossu sinhô i salvadô Jisuis Cristo. Mió cum Eli du qui cum outro cabra qualqué.
— Si achegui mais, seu Madurana. Vamu lá pru meu istabilicimentu, tenhu bebida. Venha! Traga u bicho! Tenhu um cadim di grama cortada tumbém.
O cangaceiro encarou o sujeito e sorriu. Lá estava a alma que o livraria da maldição.
Entre um copo e outro, Madurana se deu conta de que havia passado dos limites. O homem à sua frente havia triplicado: uma figura central e dois espectros — um para a direita e o outro para a esquerda. Olhou pela janela, e a procissão das velas havia desaparecido. Correu até a porta: a cidade estava deserta, uma neblina fina descia.
Então o cangaceiro se voltou para o homem no balcão e um cabrito negro e barbudo o saudou: Béééééé. Com os punhos cerrados, ele esfregou os olhos e olhou e era o cabrito que estava lá.
Um barulho atrás do balcão chamou-lhe a atenção. O cangaceiro se aproximou, o cabrito saltou: bééééé bééééé bééééé. Madurana se debruçou contra a pedra e viu: uma criatura cinzenta com as asas sujas de sangue aguardava para o ataque.

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