Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Emboscada

A parte ruim, e constrangedora, da crucificação é aparecer nu diante de todos. As pessoas vão para perto da cruz e ficam ali, bem embaixo dela. Elas fazem piadinhas sobre seus murchos colhões. Dá uma vergonha danada. Mas, ainda assim, pensando no lance do arrependimento, é a melhor morte. Dói pra burro quando seus órgãos começam a paralisar, isso é verdade, mas dá tempo de pelo menos garantir um lugarzinho celestial e bacana.
Muitas pessoas morreram nessas condições — gente importante; outras nem tão importantes assim. Algumas se tornaram famosas pelo tipo de morte, outras pelas últimas palavras. O mais engraçado é que nesse tipo de história sempre houve um traidor. Corrompido por moedas, para o cumprimento de uma profecia ou pelo amor de
uma mulher. Feito verme se locomovendo em um intestino, como uma erva daninha em meio às hortaliças. Ele estava lá!
O traidor é uma espécie de covarde corajoso: para esse tipo de covardia é preciso de muita coragem; para esse tipo de coragem é preciso de muita covardia.
Aqui não foi diferente. Aquele camarada magro segurando o chapéu, vê? Ali, bem ali! Ao lado do policial que está limpando a metralhadora. Isso! Esse cabra, aí! Ele é o nosso homem.
— Cadê Virgulinu? — o coronel diz. — Queru eli vivu, vivim da sirva.
— Coroné! — o guarda diz. — U hômi tá mortu!
O coronel se aproxima do corpo.
— Maldição — ele diz em meio a um suspiro.
— Lampião quiria morrê di morti matada, não — o outro guarda diz. — Eli rezava pá morrê di morti morrida. Mi alembro dais palavras deli naquela peleja: ―Si fô pá morrê de morti matada, queru morrê a bala não, sinhô. Queru morrê igual a nossu salvadô, hômi santo, Jesuis Cristu. I incontra minha mâinha qui tá cum Nossa Sinhora e nossu Padim Ciço‖.
— Coroné! — o guarda diz.
— U qui é hômi? Disimbuxa, pari de enrolação.
— O sinhô falô qui tinha 11 cabra aqui.
— Disso eu sei, diacho…
— Intônce… Mai aqui só tem déiz, num sabi?

Páginas: 1 2 3 4

Aislan Coulter
Emboscada

A parte ruim, e constrangedora, da crucificação é aparecer nu diante de todos. As pessoas vão para perto da cruz e ficam ali, bem embaixo dela. Elas fazem piadinhas sobre seus murchos colhões. Dá uma vergonha danada. Mas, ainda assim, pensando no lance do arrependimento, é a melhor morte. Dói pra burro quando seus órgãos começam a paralisar, isso é verdade, mas dá tempo de pelo menos garantir um lugarzinho celestial e bacana.
Muitas pessoas morreram nessas condições — gente importante; outras nem tão importantes assim. Algumas se tornaram famosas pelo tipo de morte, outras pelas últimas palavras. O mais engraçado é que nesse tipo de história sempre houve um traidor. Corrompido por moedas, para o cumprimento de uma profecia ou pelo amor de
uma mulher. Feito verme se locomovendo em um intestino, como uma erva daninha em meio às hortaliças. Ele estava lá!
O traidor é uma espécie de covarde corajoso: para esse tipo de covardia é preciso de muita coragem; para esse tipo de coragem é preciso de muita covardia.
Aqui não foi diferente. Aquele camarada magro segurando o chapéu, vê? Ali, bem ali! Ao lado do policial que está limpando a metralhadora. Isso! Esse cabra, aí! Ele é o nosso homem.
— Cadê Virgulinu? — o coronel diz. — Queru eli vivu, vivim da sirva.
— Coroné! — o guarda diz. — U hômi tá mortu!
O coronel se aproxima do corpo.
— Maldição — ele diz em meio a um suspiro.
— Lampião quiria morrê di morti matada, não — o outro guarda diz. — Eli rezava pá morrê di morti morrida. Mi alembro dais palavras deli naquela peleja: ―Si fô pá morrê de morti matada, queru morrê a bala não, sinhô. Queru morrê igual a nossu salvadô, hômi santo, Jesuis Cristu. I incontra minha mâinha qui tá cum Nossa Sinhora e nossu Padim Ciço‖.
— Coroné! — o guarda diz.
— U qui é hômi? Disimbuxa, pari de enrolação.
— O sinhô falô qui tinha 11 cabra aqui.
— Disso eu sei, diacho…
— Intônce… Mai aqui só tem déiz, num sabi?

Páginas: 1 2 3 4