Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Hóspede

— Que papo é esse? Cozinhar sapo?

— Vai me dizer que nunca fez essa experiência no colégio? Nunca colocou a porcaria de um sapo numa panela?

A médium esticou o dedo indicador e levou-o à frente dos lábios:

— Shiiii!!!

Todos entenderam e reforçaram o círculo.

A lâmpada foi a primeira a se despedir. Os últimos raios de sol daquele crepúsculo repartiam a sala em quatro partes desiguais. As partículas de poeira dançavam numa posição atômica. O silêncio voltou rasante e se estendeu por alguns minutos. A tempestade de areia diminuiu e o que se ouvia eram patas de insetos por toda a parede; os gafanhotos agitavam-se. As nuvens se aproximavam. Os insetos se lançavam contra o prédio.

Onofre, Janete, Milton, Dora e Dennis tinham vidas normais. O acaso havia se encarregado de colocá-los dentro daquela espelunca. A tempestade de areia e o cogumelo atômico — estendido por todo o crepúsculo — mantinham-nos aprisionados naquele cubículo. A necromante cigana havia se perdido e permanecera com eles. Ela conseguira convencê-los de que podia tirá-los dali em troca, é claro, de algumas moedas.

Dora duvidava dos dotes sobrenaturais da médium e tentou convencê-los do charlatanismo. Mas antes que amadurecessem o pensamento e o transformassem em palavras, o inesperado aconteceu: o copo se moveu.
E se moveu rápido. Deslizou arrastando a borda de uma ponta a outra. Depois se movimentou lentamente, deixando vidro na madeira cavoucada e então parou. Permaneceu imóvel, como se estivesse enterrado na placa maciça de madeira.

A sala era uma orquestra de respirações ofegantes e batimentos cardíacos acelerados. Os olhos disparavam de um lado para o outro, as mãos repousavam trêmulas sobre a mesa.

O copo se desprendeu e foi arremessado contra a parede. A sala ficou gelada. O madeiramento e a mobília estalaram. A porta do banheiro cedeu, a dobradiça produziu um ruído áspero. Um som gutural se estendeu por todo o cômodo, uma respiração ofegante e pesada. O hálito da médium tornou-se fétido. Denso. Era de sacudir o estômago.

Diante de um incontrolável pavor, eles viram a cigana com os olhos arregalados e a face envolvida numa horripilante máscara sobrenatural — os músculos contraíram-se, espremendo com força o nariz; os lábios repuxados em direções opostas. A língua serpenteava para fora da boca.

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Aislan Coulter
Hóspede

— Que papo é esse? Cozinhar sapo?

— Vai me dizer que nunca fez essa experiência no colégio? Nunca colocou a porcaria de um sapo numa panela?

A médium esticou o dedo indicador e levou-o à frente dos lábios:

— Shiiii!!!

Todos entenderam e reforçaram o círculo.

A lâmpada foi a primeira a se despedir. Os últimos raios de sol daquele crepúsculo repartiam a sala em quatro partes desiguais. As partículas de poeira dançavam numa posição atômica. O silêncio voltou rasante e se estendeu por alguns minutos. A tempestade de areia diminuiu e o que se ouvia eram patas de insetos por toda a parede; os gafanhotos agitavam-se. As nuvens se aproximavam. Os insetos se lançavam contra o prédio.

Onofre, Janete, Milton, Dora e Dennis tinham vidas normais. O acaso havia se encarregado de colocá-los dentro daquela espelunca. A tempestade de areia e o cogumelo atômico — estendido por todo o crepúsculo — mantinham-nos aprisionados naquele cubículo. A necromante cigana havia se perdido e permanecera com eles. Ela conseguira convencê-los de que podia tirá-los dali em troca, é claro, de algumas moedas.

Dora duvidava dos dotes sobrenaturais da médium e tentou convencê-los do charlatanismo. Mas antes que amadurecessem o pensamento e o transformassem em palavras, o inesperado aconteceu: o copo se moveu.
E se moveu rápido. Deslizou arrastando a borda de uma ponta a outra. Depois se movimentou lentamente, deixando vidro na madeira cavoucada e então parou. Permaneceu imóvel, como se estivesse enterrado na placa maciça de madeira.

A sala era uma orquestra de respirações ofegantes e batimentos cardíacos acelerados. Os olhos disparavam de um lado para o outro, as mãos repousavam trêmulas sobre a mesa.

O copo se desprendeu e foi arremessado contra a parede. A sala ficou gelada. O madeiramento e a mobília estalaram. A porta do banheiro cedeu, a dobradiça produziu um ruído áspero. Um som gutural se estendeu por todo o cômodo, uma respiração ofegante e pesada. O hálito da médium tornou-se fétido. Denso. Era de sacudir o estômago.

Diante de um incontrolável pavor, eles viram a cigana com os olhos arregalados e a face envolvida numa horripilante máscara sobrenatural — os músculos contraíram-se, espremendo com força o nariz; os lábios repuxados em direções opostas. A língua serpenteava para fora da boca.

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