Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





Hóspede

A criatura se irritou. Rosnou. Esticou o pescoço — dava para ouvir a carne e os nervos cedendo; os ossos estralando.

— Seu cabra da peste! Fí di rapariga! Foi tu i teus amigus qui mi acordáru — a língua do demônio serpenteou próxima ao rosto de Dennis. — Eu qui li preguntu! U qui é qui tu qué?

— Sair daqui! — Dennis respondeu, desviando o olhar.

— Si é assim. Mutio fácil, num sabi?

A necromante se levantou, abriu a gaveta da pia e jogou o punhal na mesa.

— Apenas um sai cum vida.

Esmurrou a janela, a parte esquerda se desprendeu, os gafanhotos entraram e a cobriram. Um corpo escuro coberto por asas suculentas andava lentamente em círculo. Os insetos abandonaram a médium. As vísceras estavam expostas, a pele arrebentada. Sem lábios, exibia um sorriso medonho. As cavidades oculares estavam largas. A mandíbula podre.

Dora gritou. Sangue brotava das suas bochechas. A pele ficou purulenta e começou a descascar.

Gemeu e se molhou — teve uma espécie de orgasmo. Um gosto de ferrugem invadiu a boca.

―Pareci qui tem iscorpião picanu meu braçu‖, balbuciou.

O espírito estava nela.

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Os primeiros raios de sol renderam a madrugada. Uma bela manhã se formava. Não havia vestígios de destruição, só a doce brisa que varria a pastagem. Janete abriu a porta do hotel e saiu. Estava coberta de sangue. Tirou a franja dos olhos — o cabelo estava emplastado. Abaixou-se e com um canivete cortou as bordas de vísceras em volta do tênis. Olhou para a nascente e aspirou o ar puro com vestígios de neblina. Sacou do bolso a chave, o chaveiro revelava, não hesitou: o Chevette 86. Acelerou. Pelo retrovisor, o hotel ficava cada vez mais distante. Ligou o rádio:

―Vivemos o tempo do fim, meus irmãos. Não sabemos o dia, não sabemos a hora, mas o reinado da besta está próximo…

Janete sentiu uma agitação dentro da alma. O braço desfaleceu. Um gosto de ferrugem invadiu a boca.

―Pareci qui tem iscorpião picanu meu braçu‖, pensou.

 

 

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Aislan Coulter
Hóspede

A criatura se irritou. Rosnou. Esticou o pescoço — dava para ouvir a carne e os nervos cedendo; os ossos estralando.

— Seu cabra da peste! Fí di rapariga! Foi tu i teus amigus qui mi acordáru — a língua do demônio serpenteou próxima ao rosto de Dennis. — Eu qui li preguntu! U qui é qui tu qué?

— Sair daqui! — Dennis respondeu, desviando o olhar.

— Si é assim. Mutio fácil, num sabi?

A necromante se levantou, abriu a gaveta da pia e jogou o punhal na mesa.

— Apenas um sai cum vida.

Esmurrou a janela, a parte esquerda se desprendeu, os gafanhotos entraram e a cobriram. Um corpo escuro coberto por asas suculentas andava lentamente em círculo. Os insetos abandonaram a médium. As vísceras estavam expostas, a pele arrebentada. Sem lábios, exibia um sorriso medonho. As cavidades oculares estavam largas. A mandíbula podre.

Dora gritou. Sangue brotava das suas bochechas. A pele ficou purulenta e começou a descascar.

Gemeu e se molhou — teve uma espécie de orgasmo. Um gosto de ferrugem invadiu a boca.

―Pareci qui tem iscorpião picanu meu braçu‖, balbuciou.

O espírito estava nela.

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Os primeiros raios de sol renderam a madrugada. Uma bela manhã se formava. Não havia vestígios de destruição, só a doce brisa que varria a pastagem. Janete abriu a porta do hotel e saiu. Estava coberta de sangue. Tirou a franja dos olhos — o cabelo estava emplastado. Abaixou-se e com um canivete cortou as bordas de vísceras em volta do tênis. Olhou para a nascente e aspirou o ar puro com vestígios de neblina. Sacou do bolso a chave, o chaveiro revelava, não hesitou: o Chevette 86. Acelerou. Pelo retrovisor, o hotel ficava cada vez mais distante. Ligou o rádio:

―Vivemos o tempo do fim, meus irmãos. Não sabemos o dia, não sabemos a hora, mas o reinado da besta está próximo…

Janete sentiu uma agitação dentro da alma. O braço desfaleceu. Um gosto de ferrugem invadiu a boca.

―Pareci qui tem iscorpião picanu meu braçu‖, pensou.

 

 

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