Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





A Mosca e o Cangaceiro

Você acha que a história está chegando ao fim, quando, de repente, buumm, você está ouvindo pela nona vez o começo da prosa. Elas têm uma péssima memória, nem se lembram da última refeição. Você pergunta para a infeliz:
— Que diabos você comeu hoje? Teve que vomitar para facilitar a digestão? Foi um tremendo croquetão humano com grãos em alto-relevo?
A desgraçada — ainda em cima do croquete, degustando o feijão mal digerido — é capaz de responder:
— Ah, então, não sei. Tive um dia ferrado. Sabe como é…
E o pior — o que me deixa mais aporrinhada — é o barulho que elas fazem para respirar durante as pausas em uma conversa. Prus diabos, é de uma chatice sem igual. Mesmo assim, elas querem falar. Vasculham a memória, são umas tremendas de umas filhas da mãe. Você quer sair dali, aí elas começam e não param. É um troço sem pé nem cabeça. Na verdade, uma maneira cíclica de não dizer nada dizendo muito.
Bom, enfim, você é um cara de sorte, eu sou uma varejeira. Toda essa lengalenga de descrever cada maldito acontecimento nos mínimos detalhes, relatando até o cheiro ou aspecto geográfico, é uma baita de uma chatice. Não tenho muito tempo e mesmo que tivesse sou um bocado ansiosa e tudo mais.
Eles chegaram cedo. Eu não estava a entender muita coisa. Tinha acabado de vomitar um pedaço de gordura para degustá-lo novamente. Estava numa luta incansável — eu e a comida — e dei de cara com esse bando de malucos atirando contra os cangaceiros. A única coisa que entendi foi que o tal Lampião e seus camaradas tinham botado pra quebrar. Esses caras não eram de brincadeira. Tinham azucrinado muita gente por aqui.
O que se formou foi uma grande poça de sangue — pensa num sangue grosso e escuro. Não sobrou um filho da mãe pra contar história. Os macacos foram logo metendo o facão.
Lampião estendeu os braços e movimentou as mãos. Abaixou a cabeça e viu o peitoral e a barriga. Seu corpo era uma espécie de neblina que se dissolvia. Possuía características humanas, mas balançava com o vento.
A condição de espectro o deixou assustado. Sentiu o medo alcançar o intestino que respondeu em seu cadáver, desmontado no chão. Tentou gritar, mas o grito não saiu.
As cabeças eram cortadas, e as almas lançadas para fora.

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Aislan Coulter
A Mosca e o Cangaceiro

Você acha que a história está chegando ao fim, quando, de repente, buumm, você está ouvindo pela nona vez o começo da prosa. Elas têm uma péssima memória, nem se lembram da última refeição. Você pergunta para a infeliz:
— Que diabos você comeu hoje? Teve que vomitar para facilitar a digestão? Foi um tremendo croquetão humano com grãos em alto-relevo?
A desgraçada — ainda em cima do croquete, degustando o feijão mal digerido — é capaz de responder:
— Ah, então, não sei. Tive um dia ferrado. Sabe como é…
E o pior — o que me deixa mais aporrinhada — é o barulho que elas fazem para respirar durante as pausas em uma conversa. Prus diabos, é de uma chatice sem igual. Mesmo assim, elas querem falar. Vasculham a memória, são umas tremendas de umas filhas da mãe. Você quer sair dali, aí elas começam e não param. É um troço sem pé nem cabeça. Na verdade, uma maneira cíclica de não dizer nada dizendo muito.
Bom, enfim, você é um cara de sorte, eu sou uma varejeira. Toda essa lengalenga de descrever cada maldito acontecimento nos mínimos detalhes, relatando até o cheiro ou aspecto geográfico, é uma baita de uma chatice. Não tenho muito tempo e mesmo que tivesse sou um bocado ansiosa e tudo mais.
Eles chegaram cedo. Eu não estava a entender muita coisa. Tinha acabado de vomitar um pedaço de gordura para degustá-lo novamente. Estava numa luta incansável — eu e a comida — e dei de cara com esse bando de malucos atirando contra os cangaceiros. A única coisa que entendi foi que o tal Lampião e seus camaradas tinham botado pra quebrar. Esses caras não eram de brincadeira. Tinham azucrinado muita gente por aqui.
O que se formou foi uma grande poça de sangue — pensa num sangue grosso e escuro. Não sobrou um filho da mãe pra contar história. Os macacos foram logo metendo o facão.
Lampião estendeu os braços e movimentou as mãos. Abaixou a cabeça e viu o peitoral e a barriga. Seu corpo era uma espécie de neblina que se dissolvia. Possuía características humanas, mas balançava com o vento.
A condição de espectro o deixou assustado. Sentiu o medo alcançar o intestino que respondeu em seu cadáver, desmontado no chão. Tentou gritar, mas o grito não saiu.
As cabeças eram cortadas, e as almas lançadas para fora.

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