Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Aislan Coulter
Escritor de horror, mistério e ficção-científica. É contra o preconceito linguístico, acredita que a mosca sobrevoou as cabeças dos cangaceiros, que Hitler enganou Stalin e que Nero incendiou Roma. Adepto e defensor do teste de empatia Voight-Kampff Principais influências: Stephen King, Clive Barker, William Hjortsberg, Bram Stocker, Anne Rice, Peter Straub, William Peter Blatty, Jason Dark, Jack Woods, Philip K. Dick, Chuck Palahniuk, Irvine Welsh, Jon Ronson, William Golding, Joseph Conrad…





A Mosca e o Cangaceiro

Algo mais atrativo me tirou da praça: o chiqueiro do coronel Eufrásio. Juro que pensei em morrer naquele paraíso. Os gritos, o estrume pisoteado, a lavagem: dia de matança!
Estava preparada e seria embaixo de uma porca branca.
―Tomara que após a minha morte essa leitoa solte as costas sobre meu corpo‖, eu pensei. Havia pensado em mergulhar em alguma poça, mas meu corpo boiaria. Pensei em uma fogueira ou o ânus de um defunto. Eu só queria desencarnar e não me deparar com o meu corpo.
Pois bem, ajeitei-me embaixo da leitoa.
―Só uma questão de tempo‖, pensei em meio ao que eu pensava ser o meu último suspiro.
Os capangas invadiram a pocilga. Eu havia escolhido a porca errada. A danada se levantou, tentou fugir, mas a receberam com uma martelada na fronte. Sangraram a pobre ali mesmo.
Tentei encontrar um lugar descente para fechar os olhos, foi quando um alvoroço me despertou. A gritaria vinha da praça.
E foi isso. Quando cheguei aqui já estava essa bagunça, como agora. Gritos e mais gritos. E desde que eu comecei a contar essa história, eles não pararam um só minuto.
Um forte nevoeiro sela as minhas palavras. A temperatura aumentou, o clima tá estranho pra burro. Parece até que a terra parou de girar. Minhas patas paralisaram, minhas asas pesam sobre as minhas costas. Não consigo me mexer. Tem uma dorzinha no abdômen — é essa filha da mãe que vai acabar comigo — tirando o meu sossego. Ela vai aumentar…
Ah, e foi sorte encontrar este grande croquete aqui. Uma sorte daquelas.
Preciso encontrar uma posição…
Puxa… As cabeças… Elas…Elas… Sumiram.
Espere um pouco…
Que diabo é isso?
É Lampião! Lampião e seu bando… Cada um… Cada um… Segurando a própria cabeça… Os olhos rolaram para dentro das órbitas… Os corpos ensanguentados — pálidos e verdes.
Eles se aproximam!
É o apocalipse…
O apocalipse zumbi…

 

 

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Aislan Coulter
A Mosca e o Cangaceiro

Algo mais atrativo me tirou da praça: o chiqueiro do coronel Eufrásio. Juro que pensei em morrer naquele paraíso. Os gritos, o estrume pisoteado, a lavagem: dia de matança!
Estava preparada e seria embaixo de uma porca branca.
―Tomara que após a minha morte essa leitoa solte as costas sobre meu corpo‖, eu pensei. Havia pensado em mergulhar em alguma poça, mas meu corpo boiaria. Pensei em uma fogueira ou o ânus de um defunto. Eu só queria desencarnar e não me deparar com o meu corpo.
Pois bem, ajeitei-me embaixo da leitoa.
―Só uma questão de tempo‖, pensei em meio ao que eu pensava ser o meu último suspiro.
Os capangas invadiram a pocilga. Eu havia escolhido a porca errada. A danada se levantou, tentou fugir, mas a receberam com uma martelada na fronte. Sangraram a pobre ali mesmo.
Tentei encontrar um lugar descente para fechar os olhos, foi quando um alvoroço me despertou. A gritaria vinha da praça.
E foi isso. Quando cheguei aqui já estava essa bagunça, como agora. Gritos e mais gritos. E desde que eu comecei a contar essa história, eles não pararam um só minuto.
Um forte nevoeiro sela as minhas palavras. A temperatura aumentou, o clima tá estranho pra burro. Parece até que a terra parou de girar. Minhas patas paralisaram, minhas asas pesam sobre as minhas costas. Não consigo me mexer. Tem uma dorzinha no abdômen — é essa filha da mãe que vai acabar comigo — tirando o meu sossego. Ela vai aumentar…
Ah, e foi sorte encontrar este grande croquete aqui. Uma sorte daquelas.
Preciso encontrar uma posição…
Puxa… As cabeças… Elas…Elas… Sumiram.
Espere um pouco…
Que diabo é isso?
É Lampião! Lampião e seu bando… Cada um… Cada um… Segurando a própria cabeça… Os olhos rolaram para dentro das órbitas… Os corpos ensanguentados — pálidos e verdes.
Eles se aproximam!
É o apocalipse…
O apocalipse zumbi…

 

 

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