A gota - Alan Cassol
Alan Cassol
Contemporâneo de McQuade, o Lobo solitário, nasci para dar voadora nos dogmas do pensamento binário.
Escrevo para não afugentar os fantasmas incríveis que sobrevoam e espantam as ruínas de uma lasca da minha mente que ainda é adubada com farelinhos de vergonha na cara.
Viajei durante anos nos vagões empoeirados dos beatniks, cortei lenha com Tolstói e Dostoiévski, bebi pinga com Cervantes, fui chofer do Henry Miller, fiz cócegas nos pés da Brontë, e batizei a água do Kafka.
Hoje observo o movimento e saio por aí com um cesto de palha cheio de medalhas para condecorar os responsavéis pelas minhas inspirações.





A gota

A sirene avisando para o condenado voltar à sua respectiva cela soou como um último suplício para Marcelo. A sensação de estar entrando pela última vez àquele cubículo cinzento e úmido fez a mente do condenado de 37 anos entrar em colapso, afinal, o desejo de mergulhar para uma dolorosa e agoniante morte não pode ser mais profundo do que o alívio de se livrar dos tormentos “dela”.

Marcelo estava trancafiado na cela F, quase no final do corredor de 30 metros de comprimento por 2,35 de largura. Do lado oposto das grades, apenas uma grossa parede de concreto servia de limite para o olhar taciturno do dono de cada gaiola. Alguns usavam a melancólica parede para criar pinturas invisíveis sobre liberdade. Outros pincelavam com os fios da esperança um túnel infinito, um lugar para andar por milhas e milhas sem ter para onde ir, mas não querer olhar para trás. Marcelo só enxergava “ela” se apresentando cada vez mais grande e iminente.

Há 5 noites teve início uma estranha onda de fatos macabros naquele corredor. O prisioneiro idoso que era conhecido pelo apelido de Bafo de Leão estava na cela A. Ele foi encontrado com o corpo inteiro cheio de mordidas dilacerantes.

Bafo de Leão tinha o hábito de dormir de boca aberta devido a problemas respiratórios causados por sabe-se lá quantos anos de abuso do cigarro e da cachaça. Não poderia ser diferente.

Na laje da cela,surgiu uma umidade na direção certeira para com a boca aberta do prisioneiro idoso. Bafo de Leão sentiu que algo caiu sobre sua língua e desceu até a garganta. Ele abriu os olhos e apertou o pescoço com as duas mãos, mas não conseguiu aliviar a terrível dor que foi crescendo até o ponto de impedir que ele gritasse por ajuda. Sentiu algo rastejar sob a pele do antebraço esquerdo chegando até o dorso da mão. De imediato, a mão de Bafo de Leão começou a queimar e borbulhar feito polenta no tacho. O desespero por não conseguir ajuda foi tão grande, que ele encontrou uma única alternativa: arrancar com os dentes aquele estranho ser que despertou a dor mais gritante que ele sentiu na vida. Bafo de Leão cravou os dentes sobre o dorso da mão. Dos seus olhos, lágrimas escorriam a dor da agonia sobre o piso de concreto. A boca velha de Bafo de Leão não conseguiu capturar o estranho ser. Logo as terríveis dores se localizaram nas mais diversas partes do corpo do prisioneiro. Bafo de Leão arrancou pedaços dos pés, dos joelhos e, por fim, do pulso direito, dando de cara com a inconsciência e com a cabeça no chão frio.

Na manhã seguinte, Álvaro, o carcereiro, se deparou com o corpo ensanguentado no chão da cela.

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Alan Cassol
A gota

A sirene avisando para o condenado voltar à sua respectiva cela soou como um último suplício para Marcelo. A sensação de estar entrando pela última vez àquele cubículo cinzento e úmido fez a mente do condenado de 37 anos entrar em colapso, afinal, o desejo de mergulhar para uma dolorosa e agoniante morte não pode ser mais profundo do que o alívio de se livrar dos tormentos “dela”.

Marcelo estava trancafiado na cela F, quase no final do corredor de 30 metros de comprimento por 2,35 de largura. Do lado oposto das grades, apenas uma grossa parede de concreto servia de limite para o olhar taciturno do dono de cada gaiola. Alguns usavam a melancólica parede para criar pinturas invisíveis sobre liberdade. Outros pincelavam com os fios da esperança um túnel infinito, um lugar para andar por milhas e milhas sem ter para onde ir, mas não querer olhar para trás. Marcelo só enxergava “ela” se apresentando cada vez mais grande e iminente.

Há 5 noites teve início uma estranha onda de fatos macabros naquele corredor. O prisioneiro idoso que era conhecido pelo apelido de Bafo de Leão estava na cela A. Ele foi encontrado com o corpo inteiro cheio de mordidas dilacerantes.

Bafo de Leão tinha o hábito de dormir de boca aberta devido a problemas respiratórios causados por sabe-se lá quantos anos de abuso do cigarro e da cachaça. Não poderia ser diferente.

Na laje da cela,surgiu uma umidade na direção certeira para com a boca aberta do prisioneiro idoso. Bafo de Leão sentiu que algo caiu sobre sua língua e desceu até a garganta. Ele abriu os olhos e apertou o pescoço com as duas mãos, mas não conseguiu aliviar a terrível dor que foi crescendo até o ponto de impedir que ele gritasse por ajuda. Sentiu algo rastejar sob a pele do antebraço esquerdo chegando até o dorso da mão. De imediato, a mão de Bafo de Leão começou a queimar e borbulhar feito polenta no tacho. O desespero por não conseguir ajuda foi tão grande, que ele encontrou uma única alternativa: arrancar com os dentes aquele estranho ser que despertou a dor mais gritante que ele sentiu na vida. Bafo de Leão cravou os dentes sobre o dorso da mão. Dos seus olhos, lágrimas escorriam a dor da agonia sobre o piso de concreto. A boca velha de Bafo de Leão não conseguiu capturar o estranho ser. Logo as terríveis dores se localizaram nas mais diversas partes do corpo do prisioneiro. Bafo de Leão arrancou pedaços dos pés, dos joelhos e, por fim, do pulso direito, dando de cara com a inconsciência e com a cabeça no chão frio.

Na manhã seguinte, Álvaro, o carcereiro, se deparou com o corpo ensanguentado no chão da cela.

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