Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alan Cassol
Uma vez levei um tapão na boca porque comi terra. Hoje, fico dando coice nas perninhas que fofocam pensamentos binários. Não afugento nada quando escrevo, mas divido farelinhos de vergonha na cara com quem quiser de um que não. Concordo com o Stieg Larsson





A gota

− Puta merda! Que ótimo final de turno. – Álvaro sorriu de apavorado.

A morte de Bafo de Leão foi tratada como suicídio, um peculiar jeito de acabar com a própria existência, mas, suicídio. Depois de executadas as providências cabíveis, o faxineiro foi chamado para “limpar a sujeira” da cela A. O carcereiro aproveitou para pedir ao faxineiro que ajeitasse as acomodações das celas B e C, já que na semana seguinte elas acomodariam dois novos “hospedes”.

Dois dias após o “suicídio” de Bafo de Leão, Marcelo ouviu Álvaro e um guarda comentando sobre a forma como o corpo do faxineiro foi encontrado em casa.

− Soube do rapaz da faxina, Roberto? – murmurou o guarda para Álvaro. –O padrasto dele o encontrou essa manhã deitado na cama com os olhos e boca vertendo sangue feito o chafariz do quintal do Drácula.

− Coitado! – Álvaro engoliu a saliva. – Com certeza isso justifica a falta dele no serviço.

− E não foi essa a parte mais estranha – continuou o guarda – O legista disse que a característica da morte foi idêntica à de um afogamento. Parece que o corpo estava todo inchado e flácido.

− Nossa senhora!

− O mais estranho nem foi isso. O pessoal ali de fora falou que, ao abrir a barriga do defunto, o legista levou um banho de sangue na cara, e o chão e as paredes do IML ficaram lavadas de sangue.

− Isso não pode acontecer. O rapaz devia ter uns 75kg, ele não poderia ter mais que 5 litros de sangue no corpo, certo?

− Confere – respondeu o guarda assentindo com a cabeça – O legista ficou chocado, pois a quantidade parecia ser de mais de 15 litros.

Marcelo estava na página 173 do Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, quando o cassetete de Álvaro estalou nas grades da cela.

− A madame pode fechar o livrinho porque é hora de dormir – disse o carcereiro já de costas e se afastando. – Ah, cuidado com o fantasma do Bafo de Leão.

O carcereiro sorriu enquanto apagava a última luz do corredor.

Com o braço esquerdo Marcelo colocou o livro no chão e se concentrou em tentar dormir para afastar os fantasmas dos estranhos acontecimentos. O fantasma do velho Leão também estava nos planos.

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Alan Cassol
A gota

− Puta merda! Que ótimo final de turno. – Álvaro sorriu de apavorado.

A morte de Bafo de Leão foi tratada como suicídio, um peculiar jeito de acabar com a própria existência, mas, suicídio. Depois de executadas as providências cabíveis, o faxineiro foi chamado para “limpar a sujeira” da cela A. O carcereiro aproveitou para pedir ao faxineiro que ajeitasse as acomodações das celas B e C, já que na semana seguinte elas acomodariam dois novos “hospedes”.

Dois dias após o “suicídio” de Bafo de Leão, Marcelo ouviu Álvaro e um guarda comentando sobre a forma como o corpo do faxineiro foi encontrado em casa.

− Soube do rapaz da faxina, Roberto? – murmurou o guarda para Álvaro. –O padrasto dele o encontrou essa manhã deitado na cama com os olhos e boca vertendo sangue feito o chafariz do quintal do Drácula.

− Coitado! – Álvaro engoliu a saliva. – Com certeza isso justifica a falta dele no serviço.

− E não foi essa a parte mais estranha – continuou o guarda – O legista disse que a característica da morte foi idêntica à de um afogamento. Parece que o corpo estava todo inchado e flácido.

− Nossa senhora!

− O mais estranho nem foi isso. O pessoal ali de fora falou que, ao abrir a barriga do defunto, o legista levou um banho de sangue na cara, e o chão e as paredes do IML ficaram lavadas de sangue.

− Isso não pode acontecer. O rapaz devia ter uns 75kg, ele não poderia ter mais que 5 litros de sangue no corpo, certo?

− Confere – respondeu o guarda assentindo com a cabeça – O legista ficou chocado, pois a quantidade parecia ser de mais de 15 litros.

Marcelo estava na página 173 do Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, quando o cassetete de Álvaro estalou nas grades da cela.

− A madame pode fechar o livrinho porque é hora de dormir – disse o carcereiro já de costas e se afastando. – Ah, cuidado com o fantasma do Bafo de Leão.

O carcereiro sorriu enquanto apagava a última luz do corredor.

Com o braço esquerdo Marcelo colocou o livro no chão e se concentrou em tentar dormir para afastar os fantasmas dos estranhos acontecimentos. O fantasma do velho Leão também estava nos planos.

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