Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alan Cassol
Uma vez levei um tapão na boca porque comi terra. Hoje, fico dando coice nas perninhas que fofocam pensamentos binários. Não afugento nada quando escrevo, mas divido farelinhos de vergonha na cara com quem quiser de um que não. Concordo com o Stieg Larsson





Estacadas sulfúricas contra um coração de vidro

Uma vela sobre a mesa ilumina aquele rosto que não teme a morte.
Todos naquela sala estão a ponto de golpear as costas dele com dardos tranquilizantes.

Mesmo quando ele andava pelas sinuosas e escorregadias estradas da infância, nenhuma corrente disfarçada de obediência conseguiu serpentear o seu corpo para mostrar que o lado de cá é mais seguro e livre de flexíveis pensamentos articulados. Também nunca deixou as pegajosas línguas das tementes do pecado lamberem o seu cabelo e, com um tapinha na bunda, o mandarem para a varanda com uma colher na boca para observar o movimento.
Naquela sala estavam presentes todos os carrascos e sanguessugas que insistem em descer num rio seco, um rio de certidões carimbadas, paletós de casamento e vestidos de noiva manchados de embuste. Serial Killers de escopos.
Mantido em uma sala escura, ele não consegue ver a face dos poetas de poças de lama, não tem o apoio dos escritores não subjugados pelos grandes porcos comedores de fecundidade. Mas, sim, ele os sente, ele respira a presença de todos os que foram empurrados pelas mãos mecânicas da justiça para dentro de um latão cheio de purificação barrenta, obrigados a encarar a cara sorridente da moral usurpadora até os sinais vitais terrenos não existirem mais.
A vida realmente não tem sido fácil para ele, não porque ele teme alguma punição pelas suas ações desprendidas de todos as leis — não é porque está na lei, que é ético e moral — , mas porque ele não consegue entender tanta gente grudada feito moscas em um papel pega-moscas na imensa massa pegajosa da opinião prática e imediatista: os seres que veem as minorias como ovos embrulhados em um papel de pão, e os jogam no caminho de uma manada de asnos fugitivos de um pastor cego e vegetariano.
Ele vê esses ataques como um monte de robozinhos enfileirados segurando seringas de vidro para introduzi-las na “grande bunda branca” e carregá-las com ácido sulfúrico. Os robozinhos então saem por aí aplicando a esmo nos corações dos desprevenidos.

Ele é imune

Assim como o ácido sulfúrico não reage contra o vidro, o coração dele também não é terreno para as estacadas da obediência, resignação, sujeição, vassalagem, subalternidade, cedência, dominação e jugo. O coração dele sempre está aberto para os que andam descalços sobre um gramado molhado, pois não há perigo ao cair. O coração dele não está disponível para os que usam calçados de 1 000 000 de pesporrências e tornozeleiras de ouro banhado à sangue de benevolentes.

Assim como o “mal’ é “bom”, possuir um coração de vidro é indispensável para os que cantam as belezas das coisas, aos que têm irmãos dentro da tinta de caneta.

 

 

Alan Cassol
Estacadas sulfúricas contra um coração de vidro

Uma vela sobre a mesa ilumina aquele rosto que não teme a morte.
Todos naquela sala estão a ponto de golpear as costas dele com dardos tranquilizantes.

Mesmo quando ele andava pelas sinuosas e escorregadias estradas da infância, nenhuma corrente disfarçada de obediência conseguiu serpentear o seu corpo para mostrar que o lado de cá é mais seguro e livre de flexíveis pensamentos articulados. Também nunca deixou as pegajosas línguas das tementes do pecado lamberem o seu cabelo e, com um tapinha na bunda, o mandarem para a varanda com uma colher na boca para observar o movimento.
Naquela sala estavam presentes todos os carrascos e sanguessugas que insistem em descer num rio seco, um rio de certidões carimbadas, paletós de casamento e vestidos de noiva manchados de embuste. Serial Killers de escopos.
Mantido em uma sala escura, ele não consegue ver a face dos poetas de poças de lama, não tem o apoio dos escritores não subjugados pelos grandes porcos comedores de fecundidade. Mas, sim, ele os sente, ele respira a presença de todos os que foram empurrados pelas mãos mecânicas da justiça para dentro de um latão cheio de purificação barrenta, obrigados a encarar a cara sorridente da moral usurpadora até os sinais vitais terrenos não existirem mais.
A vida realmente não tem sido fácil para ele, não porque ele teme alguma punição pelas suas ações desprendidas de todos as leis — não é porque está na lei, que é ético e moral — , mas porque ele não consegue entender tanta gente grudada feito moscas em um papel pega-moscas na imensa massa pegajosa da opinião prática e imediatista: os seres que veem as minorias como ovos embrulhados em um papel de pão, e os jogam no caminho de uma manada de asnos fugitivos de um pastor cego e vegetariano.
Ele vê esses ataques como um monte de robozinhos enfileirados segurando seringas de vidro para introduzi-las na “grande bunda branca” e carregá-las com ácido sulfúrico. Os robozinhos então saem por aí aplicando a esmo nos corações dos desprevenidos.

Ele é imune

Assim como o ácido sulfúrico não reage contra o vidro, o coração dele também não é terreno para as estacadas da obediência, resignação, sujeição, vassalagem, subalternidade, cedência, dominação e jugo. O coração dele sempre está aberto para os que andam descalços sobre um gramado molhado, pois não há perigo ao cair. O coração dele não está disponível para os que usam calçados de 1 000 000 de pesporrências e tornozeleiras de ouro banhado à sangue de benevolentes.

Assim como o “mal’ é “bom”, possuir um coração de vidro é indispensável para os que cantam as belezas das coisas, aos que têm irmãos dentro da tinta de caneta.