Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alan Cassol
Uma vez levei um tapão na boca porque comi terra. Hoje, fico dando coice nas perninhas que fofocam pensamentos binários. Não afugento nada quando escrevo, mas divido farelinhos de vergonha na cara com quem quiser de um que não. Concordo com o Stieg Larsson





O dedo, a quina e a morte

– Mas eu insisto na pergunta: pode alguém negar 100% essa existência e não questionar essa possibilidade quando está sozinho?

– Não acho relevante. Nem necessário é. Penso que duvidar e devotar são limitações parecidas. Acreditar que tudo é possível incluí a possibilidade de não ser. A imaginação não pode ser açoitada. Penso em tudo o que pinta por aqui. Acho que, no meu caso, se existir “os três de Dante” e qualquer outra “passagem alternativa”, vou de boas em todas ou não vou em nenhuma, se não existir nenhuma. Em todo caso, imagino que estarei no lucro. É como não alimentar expectativas porque está bom aqui.

– O que acontece é que a vida pode parecer inconsequente para quem não se apega em algo. Não parece à deriva?

– E quem se agarra tão forte em algo e se desprende de todas as outras possibilidades? Não parece que se afogou por não ter aceitado o bote?

– Acho que vou dormir.

– E se não acordar mais?

– E por que não acordaria?

– Nunca se sabe.

– Devo me sentir ameaçado?

– Deve se sentir como quiser.

– Acha que temo a possibilidade do escuro? Pois saiba que não. Também não quero passar a impressão de que estou desistindo dessa conversa, bom, estou, mas é porque você é fraco, não vale a pena. Boa noite.

– Boa noite.

– Ah, não desliga a luz da cozinha quando for deitar.

– Tá certo.

– Ah, fecha a porta do seu quarto, você fala alto enquanto dorme.

– Tudo bem.

– Trancou a porta da sala?

– Ainda não. Mas vou sair um pouco, não pretendo voltar antes da luz.

– Certo. Vê se não morre por aí.

– Vê se não vive demais. Até os paraísos acabam em cinzas.

– Já saiu? Vai, vai… não esquece da porta.

– Não esquece de a próxima vez não terminar uma conversa. Fique. Quem termina fica brabo e acusa o outro de incompetência.

– Já saiu? Não?

– Acho que vou ficar. Na verdade, vou falar sozinho na cozinha.

– Então eu vou aí continuar essa conversa.

– Não venha, já estou saindo. Eu acredito que você se conformou, mas não sabe admitir que pode estar errado.

– Então vai se foder.

– Eu vou, mas você não vai.

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Alan Cassol
O dedo, a quina e a morte

– Mas eu insisto na pergunta: pode alguém negar 100% essa existência e não questionar essa possibilidade quando está sozinho?

– Não acho relevante. Nem necessário é. Penso que duvidar e devotar são limitações parecidas. Acreditar que tudo é possível incluí a possibilidade de não ser. A imaginação não pode ser açoitada. Penso em tudo o que pinta por aqui. Acho que, no meu caso, se existir “os três de Dante” e qualquer outra “passagem alternativa”, vou de boas em todas ou não vou em nenhuma, se não existir nenhuma. Em todo caso, imagino que estarei no lucro. É como não alimentar expectativas porque está bom aqui.

– O que acontece é que a vida pode parecer inconsequente para quem não se apega em algo. Não parece à deriva?

– E quem se agarra tão forte em algo e se desprende de todas as outras possibilidades? Não parece que se afogou por não ter aceitado o bote?

– Acho que vou dormir.

– E se não acordar mais?

– E por que não acordaria?

– Nunca se sabe.

– Devo me sentir ameaçado?

– Deve se sentir como quiser.

– Acha que temo a possibilidade do escuro? Pois saiba que não. Também não quero passar a impressão de que estou desistindo dessa conversa, bom, estou, mas é porque você é fraco, não vale a pena. Boa noite.

– Boa noite.

– Ah, não desliga a luz da cozinha quando for deitar.

– Tá certo.

– Ah, fecha a porta do seu quarto, você fala alto enquanto dorme.

– Tudo bem.

– Trancou a porta da sala?

– Ainda não. Mas vou sair um pouco, não pretendo voltar antes da luz.

– Certo. Vê se não morre por aí.

– Vê se não vive demais. Até os paraísos acabam em cinzas.

– Já saiu? Vai, vai… não esquece da porta.

– Não esquece de a próxima vez não terminar uma conversa. Fique. Quem termina fica brabo e acusa o outro de incompetência.

– Já saiu? Não?

– Acho que vou ficar. Na verdade, vou falar sozinho na cozinha.

– Então eu vou aí continuar essa conversa.

– Não venha, já estou saindo. Eu acredito que você se conformou, mas não sabe admitir que pode estar errado.

– Então vai se foder.

– Eu vou, mas você não vai.

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