Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alexander Ribeiro
Natural do Rio de Janeiro. É servidor público municipal. Apesar de ser formado em cinema, foi na literatura que encontrou o meio ideal para expressar sua imaginação. Desde criança é fascinado pelo gênero fantástico, em especial, o horror. Artistas de diferentes mídias o influenciaram como Stephen King, H.P. Lovecraft, Neil Gaiman, Alan Moore, Grant Morrison, John Carpenter, Lucio Fulci, Dario Argento e Guilhermo del Toro.







A Coisa da Velha Mansão

Ele pensava: “Eu deveria ter escutado. Deveria ter ouvido os avisos, as lendas sobre o velho mausoléu.” Sentado ao chão, com a barriga aberta e tentando conter as tripas dentro dela com as suas mãos, ele se lembrava das histórias macabras sobre a casa que comprou…histórias sobre barulhos horrendos e indescritíveis na madrugada, de rituais satânicos praticados pelo antigo dono e seus amigos, onde se faziam sacrifícios de moças virgens e se invocavam criaturas, inomináveis … histórias sobre pessoas que enlouqueciam ao entrar na casa já vazia após a morte do antigo proprietário…além de outras pessoas que sumiam para sempre…como que sugadas pelas trevas infinitas do soturno mausoléu. “Eu deveria ter ouvido” era a frase que se se repetia como um mantra na sua mente, enquanto ficava cada vez mais difícil pensar, conforme o sangue deixava o seu corpo, e memórias da sua vida bombardeavam seu cérebro como um turbilhão.

Ele havia tido uma vida boa… superou a infância pobre numa favela no Rio de Janeiro, com muito esforço e estudo. Se formou em direito numa faculdade federal, para a qual passou em primeiro lugar no vestibular, e teve uma carreira de incontáveis vitórias no tribunal, que o tornaram um homem bem sucedido e cada vez mais ambicioso e menos escrupuloso. Passou a defender políticos corruptos e até playboys estupradores, desde que fosse bem pago para isso. Nas horas vagas, vivia como um bon vivant… rodeado por belas mulheres, frequentando restaurantes caros e viajando para destinos exóticos… sempre buscando todos os prazeres que o dinheiro propiciasse.

Porém, algo mexeu com ele e o tirou de sua zona de conforto… um acontecimento que o faria questionar a sua vida por inteiro : ele defendeu o filho de um político de uma acusação de agressão a sua namorada. Ao fim do processo, o rapaz saiu livre …mais uma vitória rotineira numa vida de êxitos. Porém, dois dias depois, o advogado acordou e ligou seu notebook. Como já era de praxe, entrou num site de notícias pois gostava de se manter informado. E eis que o que leu fez com que sentisse um frio subir pela sua espinha: “Rapaz mata namorada a facadas”. O rapaz em questão era o seu ex-cliente.

Apesar de já ter defendido réus acusados de crimes sexuais, nunca havia acontecido, de nenhum deles ter reincidido nos crimes antes, muito menos ter chegado ao extremo de assassinar alguém. Apesar de nunca ter sentido remorso antes, agora ele não conseguia deixar de pensar que a culpa era dele, que se não tivesse defendido o jovem, o que levou o juiz a inocentá-lo, nada disso teria acontecido. No mês que se seguiu, ele procurou tirar férias, arejar a cabeça e tentar se recuperar do baque, mas não conseguiu. Ele tinha pesadelos onde a garota aparecia em sua frente, com um vestido branco cheio de sangue e de seus ferimentos de faca saiam vermes , e ela olhava pra ele chorando e o chamava de assassino. Ele tentou fazer terapia, parar de defender clientes corruptos, mas nada tirava aquele peso da sua consciência, e ele passou a sentir vergonha da pessoa que se tornou. A solução que encontrou foi largar a prática do direito, e se afastar de todo mundo que conhecia. Então, decidiu sair do Brasil e recomeçar a vida no interior da Inglaterra, país pelo qual era fascinado desde a faculdade, quando leu ,na biblioteca, um exemplar de Oliver Twist, de Charles Dickens. A partir dai seu encantamento pela cultura inglesa só fez crescer nos anos seguintes.

Escolheu então ir para Layer’s Pit, uma pequena cidade a 20 Km da industrial e sombria Birmingham. A pequena cidade, era caracterizada por uma população que ainda vivia de pecuária e plantações. Só havia um mercado e uma fábrica de sabão… deixando a forte impressão que a cidade estava parada no tempo. Ao chegar na cidade, ele pretendia viver em alguma casa modesta, mas ao caminhar pelo lugar numa manhã enevoada e fria, deu de cara com o velho Mausoléu do falecido.

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Alexander Ribeiro
A Coisa da Velha Mansão

Ele pensava: “Eu deveria ter escutado. Deveria ter ouvido os avisos, as lendas sobre o velho mausoléu.” Sentado ao chão, com a barriga aberta e tentando conter as tripas dentro dela com as suas mãos, ele se lembrava das histórias macabras sobre a casa que comprou…histórias sobre barulhos horrendos e indescritíveis na madrugada, de rituais satânicos praticados pelo antigo dono e seus amigos, onde se faziam sacrifícios de moças virgens e se invocavam criaturas, inomináveis … histórias sobre pessoas que enlouqueciam ao entrar na casa já vazia após a morte do antigo proprietário…além de outras pessoas que sumiam para sempre…como que sugadas pelas trevas infinitas do soturno mausoléu. “Eu deveria ter ouvido” era a frase que se se repetia como um mantra na sua mente, enquanto ficava cada vez mais difícil pensar, conforme o sangue deixava o seu corpo, e memórias da sua vida bombardeavam seu cérebro como um turbilhão.

Ele havia tido uma vida boa… superou a infância pobre numa favela no Rio de Janeiro, com muito esforço e estudo. Se formou em direito numa faculdade federal, para a qual passou em primeiro lugar no vestibular, e teve uma carreira de incontáveis vitórias no tribunal, que o tornaram um homem bem sucedido e cada vez mais ambicioso e menos escrupuloso. Passou a defender políticos corruptos e até playboys estupradores, desde que fosse bem pago para isso. Nas horas vagas, vivia como um bon vivant… rodeado por belas mulheres, frequentando restaurantes caros e viajando para destinos exóticos… sempre buscando todos os prazeres que o dinheiro propiciasse.

Porém, algo mexeu com ele e o tirou de sua zona de conforto… um acontecimento que o faria questionar a sua vida por inteiro : ele defendeu o filho de um político de uma acusação de agressão a sua namorada. Ao fim do processo, o rapaz saiu livre …mais uma vitória rotineira numa vida de êxitos. Porém, dois dias depois, o advogado acordou e ligou seu notebook. Como já era de praxe, entrou num site de notícias pois gostava de se manter informado. E eis que o que leu fez com que sentisse um frio subir pela sua espinha: “Rapaz mata namorada a facadas”. O rapaz em questão era o seu ex-cliente.

Apesar de já ter defendido réus acusados de crimes sexuais, nunca havia acontecido, de nenhum deles ter reincidido nos crimes antes, muito menos ter chegado ao extremo de assassinar alguém. Apesar de nunca ter sentido remorso antes, agora ele não conseguia deixar de pensar que a culpa era dele, que se não tivesse defendido o jovem, o que levou o juiz a inocentá-lo, nada disso teria acontecido. No mês que se seguiu, ele procurou tirar férias, arejar a cabeça e tentar se recuperar do baque, mas não conseguiu. Ele tinha pesadelos onde a garota aparecia em sua frente, com um vestido branco cheio de sangue e de seus ferimentos de faca saiam vermes , e ela olhava pra ele chorando e o chamava de assassino. Ele tentou fazer terapia, parar de defender clientes corruptos, mas nada tirava aquele peso da sua consciência, e ele passou a sentir vergonha da pessoa que se tornou. A solução que encontrou foi largar a prática do direito, e se afastar de todo mundo que conhecia. Então, decidiu sair do Brasil e recomeçar a vida no interior da Inglaterra, país pelo qual era fascinado desde a faculdade, quando leu ,na biblioteca, um exemplar de Oliver Twist, de Charles Dickens. A partir dai seu encantamento pela cultura inglesa só fez crescer nos anos seguintes.

Escolheu então ir para Layer’s Pit, uma pequena cidade a 20 Km da industrial e sombria Birmingham. A pequena cidade, era caracterizada por uma população que ainda vivia de pecuária e plantações. Só havia um mercado e uma fábrica de sabão… deixando a forte impressão que a cidade estava parada no tempo. Ao chegar na cidade, ele pretendia viver em alguma casa modesta, mas ao caminhar pelo lugar numa manhã enevoada e fria, deu de cara com o velho Mausoléu do falecido.

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