Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Alexandre Carlomagno
Esclerosado desde 2014, jornalista desde 2008. Pós-graduado, em Linguagens Midiáticas, em 2012, desvirginado em 2004. Cinéfilo desde sempre, escritor desde 2004, quando eu perdi a virgindade e percebi que o mundo tinha mais a oferecer. Rato de locadora, literalmente: eu me arrastava entre as prateleiras da Cosmus Vídeo, locadora de filme que minha mãe teve entre 1990 e 2009. Diretor de cinema - mais ou menos: dirigi e roteirizei "Patrícia" (2014), sobre um prostituta de rua, e "Entre Umas e Outras" (2015), sobre "butequeiros", ambos documentários. Dirigi o curta "O Sino do Natal", com roteiro de Rubens F. Lucchetti, uma das minhas grandes influências literárias ao lado de Raymond Chandler. Também sou crítico de cinema desde 2005. Já passei por várias mídias e veículos (R7, UOL, revistas e jornais), mas, hoje, mantenho o blogue Condenado pelo Vício. Fui curador em alguns eventos, palestrantes em outros, mas, apesar de tudo isso, continuo esclerosado, jornalista e desvirginado diariamente: tanto por mulheres quanto pela cinefilia - mulheres é algo mais anual, digamos assim.
E-mail: alexyubari@yahoo.com.br
Site: cosmusvideo.wordpress.com






A Balconista – Parte I: a casa

– Qual seção? – A moça mostra-se muito curiosa.

Com o braço esquerdo, Samanta aponta para um enorme salão atrás dela e, com a mão direita, agora colocando o seu corpo em pé, acende a luz daquele enorme cômodo tomado por fileiras e mais fileiras de capaz e ilustrações que levariam uma vida para serem decifradas:

– A seção dos catálogos.

A curiosidade da moça é tomada por desapontamento.

– Mas isso também pode ser encontrado na internet.

– Eu te garanto que não é nada fácil.

– É… Mas dá pra encontrar.

– Deixa eu te mostrar uma coisa. – Samanta sai do balcão e a moça a segue pela enorme sala dos catálogos. Samanta caminha até o final do salão, passando por uma pitoresca paisagem cinematográfica física, até chegar à seção de horror asiático. Sem procurar muito, já que seus filmes estão em ordem alfabética, ela pega um estojo e entrega à moça.

– Aúzu? – A moça tenta ler o título na capa, onde está escrito Hausu.

– Se pronuncia Rauzu – Ao dizer o nome do filme, Samanta faz um voz grave, pesada, típica das narrações asiáticas. – É um filme asiático de 1977 dirigido por Nobuhiko Ôbayashi…

– Quem?

Samanta pega a capa da mão da moça e ri.

– Realmente, ele não é um diretor conhecido. Mas ele é meio que conhecido por ter feito esta preciosidade do horror, um filme impossível de ser definido em poucas palavras – ou mesmo em muitas -, com um tom muito particular. É como uma alma em forma de cinema. E esse tipo de alma você não encontra vagando pela internet.

– É… Mas deve ser possível de ser encontrado.

– Mesmo que você encontre – Samanta começa a perder a paciência ao perceber que a moça não compreende a beleza apresentada ali -, duvido muito que venha com qualidade, áudio original e legenda. Fora isso, qual é a graça? Olha aqui – Samanta mostra a capa para a moça -, sério: tem ilustrações, sinopse, informações… Isso aqui é algo vivo. Filme na internet é efêmero.

– Efêmero?

– Morre logo, não tem peso ou importância; é descartável, não tem vida, entende?

– Ainda assim, dando pra assistir na internet…

Antes que pudesse completar o discurso, a moça começa a engasgar. Fica difícil falar quando alguém está apertando o seu pescoço com as duas mãos. Ainda que tente se livrar, a força de Samanta vem do ódio. Nada pode interromper um ódio inesperado.

A moça enfim para de respirar. Samanta deixa o seu corpo cair. Quando o corpo jovem bate no chão, vem à cabeça de Samanta o refrão da música-tema de Hausu: porque cerejas foram feitas para serem comidas.

Antes de pular o corpo da moça para trancar a locadora e poder se livrar do corpo, que será picotado e semeará algum terreno baldio, Samanta passa as mãos no cabelo, olha para a moça morta e faz a pose perfeita para ser enquadrada pela câmera na sua frase de efeito:

– Quem vai carregar a sua bateria agora, vadia?

 

Continua…

 

 

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Alexandre Carlomagno
A Balconista – Parte I: a casa

– Qual seção? – A moça mostra-se muito curiosa.

Com o braço esquerdo, Samanta aponta para um enorme salão atrás dela e, com a mão direita, agora colocando o seu corpo em pé, acende a luz daquele enorme cômodo tomado por fileiras e mais fileiras de capaz e ilustrações que levariam uma vida para serem decifradas:

– A seção dos catálogos.

A curiosidade da moça é tomada por desapontamento.

– Mas isso também pode ser encontrado na internet.

– Eu te garanto que não é nada fácil.

– É… Mas dá pra encontrar.

– Deixa eu te mostrar uma coisa. – Samanta sai do balcão e a moça a segue pela enorme sala dos catálogos. Samanta caminha até o final do salão, passando por uma pitoresca paisagem cinematográfica física, até chegar à seção de horror asiático. Sem procurar muito, já que seus filmes estão em ordem alfabética, ela pega um estojo e entrega à moça.

– Aúzu? – A moça tenta ler o título na capa, onde está escrito Hausu.

– Se pronuncia Rauzu – Ao dizer o nome do filme, Samanta faz um voz grave, pesada, típica das narrações asiáticas. – É um filme asiático de 1977 dirigido por Nobuhiko Ôbayashi…

– Quem?

Samanta pega a capa da mão da moça e ri.

– Realmente, ele não é um diretor conhecido. Mas ele é meio que conhecido por ter feito esta preciosidade do horror, um filme impossível de ser definido em poucas palavras – ou mesmo em muitas -, com um tom muito particular. É como uma alma em forma de cinema. E esse tipo de alma você não encontra vagando pela internet.

– É… Mas deve ser possível de ser encontrado.

– Mesmo que você encontre – Samanta começa a perder a paciência ao perceber que a moça não compreende a beleza apresentada ali -, duvido muito que venha com qualidade, áudio original e legenda. Fora isso, qual é a graça? Olha aqui – Samanta mostra a capa para a moça -, sério: tem ilustrações, sinopse, informações… Isso aqui é algo vivo. Filme na internet é efêmero.

– Efêmero?

– Morre logo, não tem peso ou importância; é descartável, não tem vida, entende?

– Ainda assim, dando pra assistir na internet…

Antes que pudesse completar o discurso, a moça começa a engasgar. Fica difícil falar quando alguém está apertando o seu pescoço com as duas mãos. Ainda que tente se livrar, a força de Samanta vem do ódio. Nada pode interromper um ódio inesperado.

A moça enfim para de respirar. Samanta deixa o seu corpo cair. Quando o corpo jovem bate no chão, vem à cabeça de Samanta o refrão da música-tema de Hausu: porque cerejas foram feitas para serem comidas.

Antes de pular o corpo da moça para trancar a locadora e poder se livrar do corpo, que será picotado e semeará algum terreno baldio, Samanta passa as mãos no cabelo, olha para a moça morta e faz a pose perfeita para ser enquadrada pela câmera na sua frase de efeito:

– Quem vai carregar a sua bateria agora, vadia?

 

Continua…

 

 

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