Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





A Garota do Site

Marcos nunca foi do tipo que se envolve em aventuras, principalmente amorosas, por isso, deu uma bronca em seus amigos por eles terem criado uma conta com todos os seus dados num site de encontros, sem ele saber. Mas ao perceber que algumas garotas do site estavam demonstrando interesse em seu perfil, decidiu entrar no jogo e ver o que acontecia.

“Na melhor das hipóteses posso conseguir uma boa transa e na pior, boas risadas!” – pensou.

Após algumas horas e muitos perfis de mulheres maravilhosas e perfeitas (fakes), alguém chamou sua atenção: uma garota de 23 anos, bonitinha, estudante de sociologia, que não inventava demais e exibia uma foto de perfil que não parecia ser photoshopada.

Por um momento, Marcos achou seu rosto conhecido, mas não conseguiu se lembrar de onde. Conversaram no privado por um tempo e marcaram um encontro para a sexta-feira, num barzinho que ela frequentava, onde haveria uma festa do Dia de Los Muertos. O rapaz, de família católica, inicialmente não gostou muito da ideia de um primeiro encontro no dia 2 de novembro, Dia de Finados e muito menos de comemorar este dia à moda mexicana, bebendo e festejando os mortos. Mas com medo de perder a oportunidade de ficar com a única garota com quem se identificou em muito tempo, resolveu aceitar sem questionar.

Para evitar a gozação, Marcos decidiu não contar nada aos amigos sobre o encontro e muito menos onde seria.

Depois de uma semana interminável, lá estava Marcos pontualmente no local combinado, tentando disfarçar um nervosismo adolescente, quando avistou sua acompanhante, a garota do site e ela era exatamente igual à foto: uma moça comum, loira, sardenta, bonitinha, mas sem exagero. Marcos sorriu ao ver que ela estava vestida a caráter: seu vestido era longo e rodado, de cor verde e estampado com flores, borboletas e caveiras coloridas; nos cabelos, ela trazia uma tiara feita com cravos-de-defunto, ou cempasuchi, amarelos, a flor oficial do Dia de Los Muertos – ele viu isso num

documentário. Cumprimentaram-se com um beijo tímido no rosto e seguiram para o bar; um lugar simples, com a fachada de tijolos tão cheia de fitas coloridas, coroas de flores e caveiras de chapéu, que até escondiam a porta azul da entrada; lá dentro estava escuro, somente as velas presentes nos altares cheios de frutas, pães e caveiras de açúcar, iluminavam o enorme salão. Era quase impossível divisar com exatidão os rostos das pessoas que lotavam o local; Marcos somente conseguia ver uma profusão de sombras e vultos com tiaras e chapéus.

Procuraram por uma mesa vaga e só encontraram uma, no fundo do bar, próxima da parede e numa quase total escuridão, se acomodaram; apesar de a música alta incomodar um pouco, o aroma delicioso que vinha da cozinha era irresistível e ambos pediram tacos de frango com e chilli, duas cervejas e duas doses de tequila.

Após mais algumas bebidas, os dois já estavam trocando carícias e beijos ardentes, um desejo incontrolável tomava conta do jovem casal e então, decidiram sair do bar para namorar em um local mais silencioso e reservado. Um pouco “alto” pela bebida, Marcos não conseguia resistir aos encantos daquela garota meiga e sensual pela qual ele estava se apaixonando e sem pensar, simplesmente a seguiu para fora do bar em direção a um beco alguns metros a frente. Lá chegando, eles ficaram grudados, olhos nos olhos, se beijando loucamente.

Quando de repente, Marcos sente como se estivesse perdendo os sentidos, ele fecha os olhos por alguns instantes para se recompor e quando os abre, vê que está apertando o pescoço de sua acompanhante, querendo sufocá-la. Tenta parar, mas percebe que aquelas mãos não são suas. Apavorado, ele faz de tudo para se desvencilhar, mas seu corpo não responde porque não é mais seu: ele está vendo a cena pelos olhos de outra pessoa, de um maníaco.

Páginas: 1 2

Ana Rosenrot
A Garota do Site

Marcos nunca foi do tipo que se envolve em aventuras, principalmente amorosas, por isso, deu uma bronca em seus amigos por eles terem criado uma conta com todos os seus dados num site de encontros, sem ele saber. Mas ao perceber que algumas garotas do site estavam demonstrando interesse em seu perfil, decidiu entrar no jogo e ver o que acontecia.

“Na melhor das hipóteses posso conseguir uma boa transa e na pior, boas risadas!” – pensou.

Após algumas horas e muitos perfis de mulheres maravilhosas e perfeitas (fakes), alguém chamou sua atenção: uma garota de 23 anos, bonitinha, estudante de sociologia, que não inventava demais e exibia uma foto de perfil que não parecia ser photoshopada.

Por um momento, Marcos achou seu rosto conhecido, mas não conseguiu se lembrar de onde. Conversaram no privado por um tempo e marcaram um encontro para a sexta-feira, num barzinho que ela frequentava, onde haveria uma festa do Dia de Los Muertos. O rapaz, de família católica, inicialmente não gostou muito da ideia de um primeiro encontro no dia 2 de novembro, Dia de Finados e muito menos de comemorar este dia à moda mexicana, bebendo e festejando os mortos. Mas com medo de perder a oportunidade de ficar com a única garota com quem se identificou em muito tempo, resolveu aceitar sem questionar.

Para evitar a gozação, Marcos decidiu não contar nada aos amigos sobre o encontro e muito menos onde seria.

Depois de uma semana interminável, lá estava Marcos pontualmente no local combinado, tentando disfarçar um nervosismo adolescente, quando avistou sua acompanhante, a garota do site e ela era exatamente igual à foto: uma moça comum, loira, sardenta, bonitinha, mas sem exagero. Marcos sorriu ao ver que ela estava vestida a caráter: seu vestido era longo e rodado, de cor verde e estampado com flores, borboletas e caveiras coloridas; nos cabelos, ela trazia uma tiara feita com cravos-de-defunto, ou cempasuchi, amarelos, a flor oficial do Dia de Los Muertos – ele viu isso num

documentário. Cumprimentaram-se com um beijo tímido no rosto e seguiram para o bar; um lugar simples, com a fachada de tijolos tão cheia de fitas coloridas, coroas de flores e caveiras de chapéu, que até escondiam a porta azul da entrada; lá dentro estava escuro, somente as velas presentes nos altares cheios de frutas, pães e caveiras de açúcar, iluminavam o enorme salão. Era quase impossível divisar com exatidão os rostos das pessoas que lotavam o local; Marcos somente conseguia ver uma profusão de sombras e vultos com tiaras e chapéus.

Procuraram por uma mesa vaga e só encontraram uma, no fundo do bar, próxima da parede e numa quase total escuridão, se acomodaram; apesar de a música alta incomodar um pouco, o aroma delicioso que vinha da cozinha era irresistível e ambos pediram tacos de frango com e chilli, duas cervejas e duas doses de tequila.

Após mais algumas bebidas, os dois já estavam trocando carícias e beijos ardentes, um desejo incontrolável tomava conta do jovem casal e então, decidiram sair do bar para namorar em um local mais silencioso e reservado. Um pouco “alto” pela bebida, Marcos não conseguia resistir aos encantos daquela garota meiga e sensual pela qual ele estava se apaixonando e sem pensar, simplesmente a seguiu para fora do bar em direção a um beco alguns metros a frente. Lá chegando, eles ficaram grudados, olhos nos olhos, se beijando loucamente.

Quando de repente, Marcos sente como se estivesse perdendo os sentidos, ele fecha os olhos por alguns instantes para se recompor e quando os abre, vê que está apertando o pescoço de sua acompanhante, querendo sufocá-la. Tenta parar, mas percebe que aquelas mãos não são suas. Apavorado, ele faz de tudo para se desvencilhar, mas seu corpo não responde porque não é mais seu: ele está vendo a cena pelos olhos de outra pessoa, de um maníaco.

Páginas: 1 2