Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





Sem Retorno

Fragmento do Diário Pessoal do Soldado Pierre Chevalier

 

O que escrevo neste caderno amarelado, meu diário improvisado, nunca tive coragem de contar a ninguém.

Fui soldado na Grande Guerra… A guerra para acabar com todas as guerras. Isso era incessantemente repetido em todos os lugares naquela época e nós, tolos estudantes, acreditávamos que era a nossa missão lutar e vencer aquela guerra definitiva, que traria a paz “eterna” para o mundo.

Saí de Louhans, na Borgonha, onde nasci, aos 17 anos, direto para a frente de batalha, carregando uma mochila com roupas e livros que nunca folheei… Nossa partida foi festejada com fogos e muita alegria por nossos familiares e amigos… Se eles soubessem que dos 153 soldados que embarcaram

no trem naquele dia de verão em 1914, somente 23 voltariam vivos no final da guerra, tenho certeza de que não teriam perdido tempo comemorando.

A vida nas trincheiras era bem diferente das histórias românticas que os jornais publicavam para acalmar as famílias e garantir o alistamento de novos recrutas, tudo era penoso, confuso, desorganizado e mortal. Nas cidades, a população enfrentava calada a escassez de alimentos e remédios, acreditando que se sacrificavam para garantir o abastecimento das tropas, pois os soldados que lutavam pela nação precisavam estar bem alimentados e saudáveis.

Coitados, se soubessem o que enfrentávamos… Presos nas trincheiras na companhia dos ratos e dos mortos apodrecendo… Passávamos fome e sede, era muito difícil conseguir que nos trouxessem alimento sob o fogo cerrado do inimigo… Ficávamos felizes quando conseguiam nos jogar um pão mofado ou uma linguiça mordiscada por ratos e suja de terra. Seria impossível reconhecer naqueles jovens cobertos de lama, magros e com diarreia, os estudantes educados e sonhadores que havíamos sido…

Sobrevivi, não sei como, por quase um ano vendo meus amigos morrerem de ferimentos e doenças, avançando e recuando com nossas baionetas, de cidade em cidade, de trincheira em trincheira. Em meio à mórbida monotonia e desnutridos, não pensávamos com clareza, a fome e a morte já faziam parte da nossa rotina diária e parecia que nada poderia mudar aquele cenário… Até aquele dia inesquecível: 22 de abril de 1915…

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Ana Rosenrot
Sem Retorno

Fragmento do Diário Pessoal do Soldado Pierre Chevalier

 

O que escrevo neste caderno amarelado, meu diário improvisado, nunca tive coragem de contar a ninguém.

Fui soldado na Grande Guerra… A guerra para acabar com todas as guerras. Isso era incessantemente repetido em todos os lugares naquela época e nós, tolos estudantes, acreditávamos que era a nossa missão lutar e vencer aquela guerra definitiva, que traria a paz “eterna” para o mundo.

Saí de Louhans, na Borgonha, onde nasci, aos 17 anos, direto para a frente de batalha, carregando uma mochila com roupas e livros que nunca folheei… Nossa partida foi festejada com fogos e muita alegria por nossos familiares e amigos… Se eles soubessem que dos 153 soldados que embarcaram

no trem naquele dia de verão em 1914, somente 23 voltariam vivos no final da guerra, tenho certeza de que não teriam perdido tempo comemorando.

A vida nas trincheiras era bem diferente das histórias românticas que os jornais publicavam para acalmar as famílias e garantir o alistamento de novos recrutas, tudo era penoso, confuso, desorganizado e mortal. Nas cidades, a população enfrentava calada a escassez de alimentos e remédios, acreditando que se sacrificavam para garantir o abastecimento das tropas, pois os soldados que lutavam pela nação precisavam estar bem alimentados e saudáveis.

Coitados, se soubessem o que enfrentávamos… Presos nas trincheiras na companhia dos ratos e dos mortos apodrecendo… Passávamos fome e sede, era muito difícil conseguir que nos trouxessem alimento sob o fogo cerrado do inimigo… Ficávamos felizes quando conseguiam nos jogar um pão mofado ou uma linguiça mordiscada por ratos e suja de terra. Seria impossível reconhecer naqueles jovens cobertos de lama, magros e com diarreia, os estudantes educados e sonhadores que havíamos sido…

Sobrevivi, não sei como, por quase um ano vendo meus amigos morrerem de ferimentos e doenças, avançando e recuando com nossas baionetas, de cidade em cidade, de trincheira em trincheira. Em meio à mórbida monotonia e desnutridos, não pensávamos com clareza, a fome e a morte já faziam parte da nossa rotina diária e parecia que nada poderia mudar aquele cenário… Até aquele dia inesquecível: 22 de abril de 1915…

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