Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Ana Rosenrot
Ana Rosenrot, de Jacareí – SP, é escritora, editora, cineasta trash e pesquisadora de cinema, integrou antologias nacionais e internacionais e participou de várias edições do projeto "A Arte do Terror". Assina a "Coluna CULTíssimo", especializada em cinema e universo cult. No cinema, trabalha com produções independentes, longas e curtas-metragens, quase sempre voltados para o terror e o trash. Recebeu também 7 estatuetas do Prêmio "Corvo de Gesso" (2013-14-15-17), conhecido como "O Oscar do Cinema Trash" e foi curadora das duas edições da “Monstro – Mostra de Cinema Fantástico de Jacareí”(2015-16).
É criadora e editora da Revista LiteraLivre, uma publicação bimestral que uni escritores independentes e autora do livro "Cinema e Cult – vol. 1", lançado em 2018.
http://cultissimo.wixsite.com/anarosenrot/
https://www.facebook.com/AnaRosenrott/
Instagram: @anarosenrot





Sem Retorno

Meu batalhão estava entrincheirado na planície de Ypres, na fronteira entre a Bélgica e a França. Eram quase cinco horas da tarde quando percebemos uma estranha movimentação na frente de batalha alemã: uma tropa especial tomava a dianteira, um pequeno batalhão com no máximo uns 40 homens, trajando uniforme militar e estranhas máscaras. Notamos que eles não portavam nenhuma arma e estavam lá parados, apenas observando, enquanto outros soldados arrastavam dezenas de enormes cilindros, colocando-os em fileiras.

Como não recebemos nenhuma ordem para atacar, simplesmente ficamos ali, sem sequer imaginar o horror que estávamos prestes a testemunhar.

De repente, o vento começou a mudar de direção, soprando para o nosso lado, e foi então que o inferno começou: os alemães abriram as válvulas dos cilindros e uma nuvem amarelada voou para as nossas trincheiras… Conforme a fumaça amarelada nos envolvia, o pânico e o horror se instalaram… Alguns correram, apavorados e tombaram atingidos pela artilharia inimiga, outros ficaram parados, sem saber o que fazer, enquanto o gás venenoso (Gás Cloro) os queimava por dentro e por fora, matando-os da forma mais cruel.

Na confusão, eu me arrastava desorientado e via meus companheiros gritando que estavam cegos e alguns apertavam a garganta com as mãos, enquanto sufocavam até a morte… Eles sangravam pelo nariz, boca e olhos…

Sem saber o que fazer, continuei me arrastando… Minha cabeça doía tanto que parecia que ia explodir, eu mal conseguia enxergar e meus pulmões ardiam… Mas continuei seguindo, escorregando nos ratos que também tentavam fugir. Fui agarrado várias vezes por meus companheiros em desespero, quase afundados na lama, e tive que me desvencilhar com chutes, eu só queria sair daquele inferno… Até que finalmente cheguei à borda da trincheira e com muito esforço, lancei meu corpo para fora… A última coisa da qual me lembro antes de perder os sentidos é de pedir a Deus que um tiro me acertasse e pusesse fim àquela agonia!

Três dias depois, acordei no hospital da Cruz Vermelha em Trois Quartiers, na França; meus olhos estavam cobertos com ataduras e eu não conseguia me mexer… Só podia ouvir tosses, gritos e gemidos. Temendo estar cego ou mutilado, gritei o mais alto que pude, apesar da dor na garganta e

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Ana Rosenrot
Sem Retorno

Meu batalhão estava entrincheirado na planície de Ypres, na fronteira entre a Bélgica e a França. Eram quase cinco horas da tarde quando percebemos uma estranha movimentação na frente de batalha alemã: uma tropa especial tomava a dianteira, um pequeno batalhão com no máximo uns 40 homens, trajando uniforme militar e estranhas máscaras. Notamos que eles não portavam nenhuma arma e estavam lá parados, apenas observando, enquanto outros soldados arrastavam dezenas de enormes cilindros, colocando-os em fileiras.

Como não recebemos nenhuma ordem para atacar, simplesmente ficamos ali, sem sequer imaginar o horror que estávamos prestes a testemunhar.

De repente, o vento começou a mudar de direção, soprando para o nosso lado, e foi então que o inferno começou: os alemães abriram as válvulas dos cilindros e uma nuvem amarelada voou para as nossas trincheiras… Conforme a fumaça amarelada nos envolvia, o pânico e o horror se instalaram… Alguns correram, apavorados e tombaram atingidos pela artilharia inimiga, outros ficaram parados, sem saber o que fazer, enquanto o gás venenoso (Gás Cloro) os queimava por dentro e por fora, matando-os da forma mais cruel.

Na confusão, eu me arrastava desorientado e via meus companheiros gritando que estavam cegos e alguns apertavam a garganta com as mãos, enquanto sufocavam até a morte… Eles sangravam pelo nariz, boca e olhos…

Sem saber o que fazer, continuei me arrastando… Minha cabeça doía tanto que parecia que ia explodir, eu mal conseguia enxergar e meus pulmões ardiam… Mas continuei seguindo, escorregando nos ratos que também tentavam fugir. Fui agarrado várias vezes por meus companheiros em desespero, quase afundados na lama, e tive que me desvencilhar com chutes, eu só queria sair daquele inferno… Até que finalmente cheguei à borda da trincheira e com muito esforço, lancei meu corpo para fora… A última coisa da qual me lembro antes de perder os sentidos é de pedir a Deus que um tiro me acertasse e pusesse fim àquela agonia!

Três dias depois, acordei no hospital da Cruz Vermelha em Trois Quartiers, na França; meus olhos estavam cobertos com ataduras e eu não conseguia me mexer… Só podia ouvir tosses, gritos e gemidos. Temendo estar cego ou mutilado, gritei o mais alto que pude, apesar da dor na garganta e

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