Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
C.B. Kaihatsu
C. B. Kaihatsu é escritora, poetisa, engenheira de controle e automação, bailarina clássica e de jazz e colunista cultural do Jornal Tribuna de Paulínia, da revista Amazing e do site CultEcléticos.
Coautora do livro “Retalhos: Almas em Versos” (Editora Empíreo), vencedor do Prêmio Brasil Entre Palavras na categoria Melhor Livro de Poesia de 2016, também participou das antologias: Mais Amor, Por Favor (Editora Coerência), Arquivos do Mal (Editora Coerência), A Arte do Terror – Cartas (Elemental Editoração). É organizadora da antologia de contos de terror e suspense “A Sociedade dos Corvos” publicada este ano pela Editora Coerência. O Mestre do Horror, R. F. Lucchetti, participa como prefaciador e autor convidado.
Ainda em 2017, possui participação nas antologias: Vampiro: Um Livro Colaborativo (Editora Empíreo) , Playlist – Contos Musicais (Editora Rouxinol) e Noite Natalina (Editora Skull).
Fã de Fórmula 1, já colaborou com artigos para o blog F1 – Fórmula 1.

E-mail: c.b.kaihatsu@gmail.com
Fanpage: facebook.com/C.B.Kaihatsu
Wattpad: CBKaihatsu






Freak Show

Para delírio dos espectadores, um homem alto, com o rosto e todo o corpo coberto de pelos uivava e rastejava pelo picadeiro como se fosse uma fera. “Pobre homem” pensou Eva, ao ver o homem acometido por hipertricose, uma rara doença que causava excesso de pelos, perdendo sua dignidade para satisfazer caprichos repulsivos. Algumas crianças e adolescentes, estimulados pelos pais, atiravam pipocas em Dimitri.

— E agora, diretamente do País das Maravilhas, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum.

Dois rapazes de quinze anos, baixinhos e gordinhos tomaram os seus postos. Tweedledde tinha que contar uma piada a Tweedledum, mas não conseguia chegar até o final, enquanto este mal conseguia formar uma frase. Gargalhadas estridentes, os meninos ficaram agitados, corriam e caiam. “Malditos! Rindo-se de duas crianças com microcefalia”, era o pensamento que fervilhava na cabeça de Lilith.

Ao socorro dos rapazes entrou Brigitte, a mulher barbada. Ela retirou os meninos do picadeiro e depois desfilou pelo palco, tal quais as modelos faziam em passarelas. Recebera esse nome da mãe em homenagem a bela atriz francesa Brigitte Bardot, mas a mulher não poderia imaginar que, bem diferente da atriz sexy symbol a época em que Brigitte nasceu; a filha nasceria com hirsutismo. Em relação a ela, as irmãs não tiveram nenhum pensamento de comiseração. Se havia alguém que sabia se defender sozinha, essa pessoa era Brigitte, uma mulher alta e corpulenta com uma barba de dar inveja a muitos homens.

Um belo jovem da primeira fila que aparentava ter não mais de trinta anos, atirou um copo de refrigerante em Brigitte e proferiu-lhe uma indecência. A mulher não pensou duas vezes e acertou-lhe um soco no nariz:

— Essa vadia quebrou o meu nariz! — gritou o rapaz, urrando de dor, mas para seu desespero a plateia aplaudiu; ninguém deu atenção ao seu nariz quebrado.

“Justiça fora feita”, pensaram as irmãs. Mas a próxima atração sempre lhes cortava o coração.

Esther, a mulher mais feia do mundo. A mulher sofria de uma rara doença chamada acromegalia que causava um gigantismo progressivo e distorção óssea facial. Diferente de Brigitte, Esther possuía baixa auto-estima e, na maioria das vezes, chorava durante a apresentação, gerando mais escárnio e impropérios do público. “Alguém vai pagar hoje, Esther!”, Lilith disse baixinho, secando com as costas da mão uma lágrima que escorria pelo canto do olho:

— Engana-se quem pensa que o Cirque du Freak não tem palhaços. E que entre os albinos van Dorsten.

Entrou o casal Rutger e Antje com o filho de 10 anos, Tiemon. Usavam roupas espalhafatosas, nenhuma maquiagem, no rosto apenas um nariz vermelho. O número consistia em esquetes à la comédias pastelão dos anos 30. “Quem em pleno 2018, ainda acha graça do albinismo?”, pensou Eva.

— E agora… O momento mais esperado da noite! Um corpo, duas mulheres, duas cabeças. As duas esposas de Adão. As gêmeas siamesas, Lilith e Eva!

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C.B. Kaihatsu
Freak Show

Para delírio dos espectadores, um homem alto, com o rosto e todo o corpo coberto de pelos uivava e rastejava pelo picadeiro como se fosse uma fera. “Pobre homem” pensou Eva, ao ver o homem acometido por hipertricose, uma rara doença que causava excesso de pelos, perdendo sua dignidade para satisfazer caprichos repulsivos. Algumas crianças e adolescentes, estimulados pelos pais, atiravam pipocas em Dimitri.

— E agora, diretamente do País das Maravilhas, os gêmeos Tweedledee e Tweedledum.

Dois rapazes de quinze anos, baixinhos e gordinhos tomaram os seus postos. Tweedledde tinha que contar uma piada a Tweedledum, mas não conseguia chegar até o final, enquanto este mal conseguia formar uma frase. Gargalhadas estridentes, os meninos ficaram agitados, corriam e caiam. “Malditos! Rindo-se de duas crianças com microcefalia”, era o pensamento que fervilhava na cabeça de Lilith.

Ao socorro dos rapazes entrou Brigitte, a mulher barbada. Ela retirou os meninos do picadeiro e depois desfilou pelo palco, tal quais as modelos faziam em passarelas. Recebera esse nome da mãe em homenagem a bela atriz francesa Brigitte Bardot, mas a mulher não poderia imaginar que, bem diferente da atriz sexy symbol a época em que Brigitte nasceu; a filha nasceria com hirsutismo. Em relação a ela, as irmãs não tiveram nenhum pensamento de comiseração. Se havia alguém que sabia se defender sozinha, essa pessoa era Brigitte, uma mulher alta e corpulenta com uma barba de dar inveja a muitos homens.

Um belo jovem da primeira fila que aparentava ter não mais de trinta anos, atirou um copo de refrigerante em Brigitte e proferiu-lhe uma indecência. A mulher não pensou duas vezes e acertou-lhe um soco no nariz:

— Essa vadia quebrou o meu nariz! — gritou o rapaz, urrando de dor, mas para seu desespero a plateia aplaudiu; ninguém deu atenção ao seu nariz quebrado.

“Justiça fora feita”, pensaram as irmãs. Mas a próxima atração sempre lhes cortava o coração.

Esther, a mulher mais feia do mundo. A mulher sofria de uma rara doença chamada acromegalia que causava um gigantismo progressivo e distorção óssea facial. Diferente de Brigitte, Esther possuía baixa auto-estima e, na maioria das vezes, chorava durante a apresentação, gerando mais escárnio e impropérios do público. “Alguém vai pagar hoje, Esther!”, Lilith disse baixinho, secando com as costas da mão uma lágrima que escorria pelo canto do olho:

— Engana-se quem pensa que o Cirque du Freak não tem palhaços. E que entre os albinos van Dorsten.

Entrou o casal Rutger e Antje com o filho de 10 anos, Tiemon. Usavam roupas espalhafatosas, nenhuma maquiagem, no rosto apenas um nariz vermelho. O número consistia em esquetes à la comédias pastelão dos anos 30. “Quem em pleno 2018, ainda acha graça do albinismo?”, pensou Eva.

— E agora… O momento mais esperado da noite! Um corpo, duas mulheres, duas cabeças. As duas esposas de Adão. As gêmeas siamesas, Lilith e Eva!

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