Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Cannubis
Cannubis é natural de São Luís Ma mas agora vive perdida entre as vielas fétidas de sua mente sequelada. Odeia finais felizes e por isso vive embriagada de terror e de seus subgêneros, vomita na cara dos padrões impostos pela sociedade enquanto da vida a CANNUBiS seu filho, irmão e amante. Dirige pela periferia de São luis um Opala preto e tem como companhia o top five dos mais procurados do submundo, coleciona as capsulas de balas que mataram gente como kennedy, Jhon Lennon e Tupac... Foi depois de tomar um shot de bournon que ela emprestou suas mãos a um cão infernal para escrever “DEIXAI TODA ESPERANÇA, Ó VÓS QUE ENTRAIS!" no umbral dos portões infernais da comedia de Dante Alighieri. Quer um conselho? Não leiam com carinho pois aqui não se prega a paz. Como morbitvs vividvs diz: "Uma bandeira branca é como o pus de um ser putrefato".
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Eucaristia

O paladar permanece estranhamente fixo ao perfume que o corpo ainda quente exala.

A sequência de notas olfativas é absorvida não só por um sentido bruto como o olfato mas pelos anseios mais íntimos de uma mulher devastada.

Nao da pra imaginar o saber empírico que cabe na mente de uma pessoa traumatizada, alguém que conviveu tempo de mais com a fome carrega um universo sombrio de possibilidades.

E nesse momento há uma guerra em sua mente, valores cristãos, sua fé, brigando como o animal selvagem que existe dentro das várias camadas de evolução como a última peça de uma boneca russa.

O corpo estremece e assim como tudo no fim dos tempos, a carne vence então os joelhos dobram.

Toda sua fé transmuta-se em algo nefasto e violento.

“E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.”

Dalia enterra os dentes curtos na garota, o ruído viscoso de carne sendo mastigada reverbera pelas paredes do supermercado enquanto a fome consome toda a sua dignidade.

Escrava do cristianismo outrora, agora escrava da vida real, come pois, ou morre.

Esperando pelo trivial Dalia não sabe se portar diante do incomensurável; o sabor da carne humana se expressa em sua própria linguagem, faz com que todas as formas de discurso sejam menos válidas.

Ela dilacera a carne com facilidade como se toda a sua vida não passasse de um ensaio para esse momento, arranca com mordidas a pele da carne. Separa a carne dos ossos.

Alguns nacos de carne se movem em sua boca como tentáculos de polvo, provocando erupções de endorfina em seu corpo.

O céu da boca do inferno em festa. “

… em seguida tomou o cálice, deu graças e o entregou aos seus discípulos, proclamando: ‘bebei dele todos vós. Pois este é o meu sangue.”

Ela enche as mãos com tripas e pedacinhos de carne triturada do buraco que se formou na barriga da jovem, levando tudo a boca, lambendo o sangue, sugando tudo o quanto pode entre gemidos de satisfação.

Os olhos de Dalia projetam-se para frente, a beira das órbitas como que preparados para saltar no lago de sangue e vísceras a sua frente.

A Santa Eucaristia ao pé da letra. Redimindo o pecado de viver sob o domínio de superstições.

Aos poucos, a excitação dissolve-se ou melhor, transmuta-se em algo menos urgente, menos volátil.

Ela levanta ainda tonta deixando os ossos que sobraram de sua refeição ecambaleia em direção à saída. Sente um cheiro familiar, nostálgico.

Incenso.

Mas não cheira mais aos domingos na igreja, agora a imagem do padre defumando o altar com incenso tornara-se sensual de mais, lascivo de mais.

Essa luxúria a domina e sacode seu corpo para fora do supermercado.

No horizonte o sol se despede daquele lado do hemisfério, deixando para trás uma mancha avermelhada que lembra um rastro de sangue.

Um sorriso lateral surge em sua boca quando ela percebe que as cores do velho mundo mostram-se diferentes agora, tudo remetendo ao novo sagrado. Mas velhos hábitos nunca morrem e a sede pós refeição pede uma cerveja…

A ideia se dissipa em sua mente. Não restou nada. Ela limpa as mãos sujas de sangue no jeans puído e continua a caminhada.

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Cannubis
Eucaristia

O paladar permanece estranhamente fixo ao perfume que o corpo ainda quente exala.

A sequência de notas olfativas é absorvida não só por um sentido bruto como o olfato mas pelos anseios mais íntimos de uma mulher devastada.

Nao da pra imaginar o saber empírico que cabe na mente de uma pessoa traumatizada, alguém que conviveu tempo de mais com a fome carrega um universo sombrio de possibilidades.

E nesse momento há uma guerra em sua mente, valores cristãos, sua fé, brigando como o animal selvagem que existe dentro das várias camadas de evolução como a última peça de uma boneca russa.

O corpo estremece e assim como tudo no fim dos tempos, a carne vence então os joelhos dobram.

Toda sua fé transmuta-se em algo nefasto e violento.

“E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.”

Dalia enterra os dentes curtos na garota, o ruído viscoso de carne sendo mastigada reverbera pelas paredes do supermercado enquanto a fome consome toda a sua dignidade.

Escrava do cristianismo outrora, agora escrava da vida real, come pois, ou morre.

Esperando pelo trivial Dalia não sabe se portar diante do incomensurável; o sabor da carne humana se expressa em sua própria linguagem, faz com que todas as formas de discurso sejam menos válidas.

Ela dilacera a carne com facilidade como se toda a sua vida não passasse de um ensaio para esse momento, arranca com mordidas a pele da carne. Separa a carne dos ossos.

Alguns nacos de carne se movem em sua boca como tentáculos de polvo, provocando erupções de endorfina em seu corpo.

O céu da boca do inferno em festa. “

… em seguida tomou o cálice, deu graças e o entregou aos seus discípulos, proclamando: ‘bebei dele todos vós. Pois este é o meu sangue.”

Ela enche as mãos com tripas e pedacinhos de carne triturada do buraco que se formou na barriga da jovem, levando tudo a boca, lambendo o sangue, sugando tudo o quanto pode entre gemidos de satisfação.

Os olhos de Dalia projetam-se para frente, a beira das órbitas como que preparados para saltar no lago de sangue e vísceras a sua frente.

A Santa Eucaristia ao pé da letra. Redimindo o pecado de viver sob o domínio de superstições.

Aos poucos, a excitação dissolve-se ou melhor, transmuta-se em algo menos urgente, menos volátil.

Ela levanta ainda tonta deixando os ossos que sobraram de sua refeição ecambaleia em direção à saída. Sente um cheiro familiar, nostálgico.

Incenso.

Mas não cheira mais aos domingos na igreja, agora a imagem do padre defumando o altar com incenso tornara-se sensual de mais, lascivo de mais.

Essa luxúria a domina e sacode seu corpo para fora do supermercado.

No horizonte o sol se despede daquele lado do hemisfério, deixando para trás uma mancha avermelhada que lembra um rastro de sangue.

Um sorriso lateral surge em sua boca quando ela percebe que as cores do velho mundo mostram-se diferentes agora, tudo remetendo ao novo sagrado. Mas velhos hábitos nunca morrem e a sede pós refeição pede uma cerveja…

A ideia se dissipa em sua mente. Não restou nada. Ela limpa as mãos sujas de sangue no jeans puído e continua a caminhada.

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