Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O Evangelista de Sodoma 3

          -Porra Ezequiel, qual dos “eus”, fora os teus mesmos, que poderia estar aqui e saber a tua senha, a não ser… EU…?

          -Psssss! Não mostre que sabes o meu nome seu bostinha, eu tenho que fazer de conta que estou cumprindo a minha obrigação, pelo bem de todos e a felicidade geral das religiões. Digitou rápido o código de acesso no cadeado eletrônico que se abriu tocando alguns acordes de um hino religioso qualquer, lembrando-nos que mesmo ali, último reduto da sabedoria e cultura geral, os dogmas e mandamentos da religião oficial estavam presentes.

          -Entre logo bostinha! Falou sorrindo -Seja bem-vindo de volta a ilha, a minha pequena ilha isolada, perdida e desabitada, cheia de prazeres, ditos proibidos! -fazendo uma mesura exagerada como era de seu costume.

          Entramos apressados, Ezequiel, “Monge” como eu o apelidara,foi logo acionando as luzes dos longos corredores do comprido prédio de dois andares e que mais se assemelhava a um depósito. E o era. Guardados em prateleiras largas e etiquetadas eletronicamente, estavam livros, periódicos, revistas, discos, rótulos, fotografias, brinquedos, máscaras de teatro, antigas máquinas de escrever, de fotografar, filmar e gravar sons, papéis, muitos papéis, peças de teatro, roteiros de filmes, cartazes, poesias, histórias em quadrinhos, cópias de obras de arte popular, negativos, material iconográfico e documento. Todo este acervo era de material considerado pagão ou ateu. Ou subversivo, anarquista, libertário, pornográfico ou simplesmente considerado desinteressante para o Estado-Igreja. Por razões desconhecidas estes milhares de itens não haviam sido destruídos nem desapareceram misteriosamente. Foram arquivados neste “museu” e estavam teoricamente à disposição de quem quisesse consultar. Mas como Monge bem sabia em todos os anos que fora o zelador do local, muito poucas pessoas tinham cruzado oficialmente suas portas. Aliado ao profundo desprezo dos deístas e da população em geral à cultura, havia um complexo entrave burocrático que desanimava quem tivesse o interesse ou alguma curiosidade. Além disto, desconfiava-se que o edifício e seus tesouros eram na verdade uma enorme armadilha para se descobrir potenciais, “ateus-subversivos”. Afinal, tudo que havia oficialmente liberado para se ler, ver ou ouvir estava disponível nos templo, igrejas e é claro na R.E.S.A. e no S.B.T. Monge era o zelador permanente e morava ali mesmo em meio de tantas maravilhas culturais.

          Fui seguindo-o pelos corredores já conhecidos enquanto ele falava sem parar. Parou em frente a sala de vídeos e digitou o segredo para abri-la.

          -Esteja a vontade como sempre seu bostinha, vou te mostrar uma “coisa legal” como se dizia no meu tempo!

          Sentei na primeira poltrona e Ezequiel logo atrás. Logo acionou o enorme telão e desligou as luzes. A sala se encheu com imagens borradas, truncadas de uma cópia antiga e mal conservada… ”Allen Klein Productions”, um cenário irreal, uma espécie de religioso com roupas pretas, música tribal, um cadáver coberto de moscas, dezenas de crianças nuas, um aleijado sem pernas e braços, um arremedo de cristo crucificado, um circo de sapos… Uma avalanche de imagens poderosas, uma mistura de circo e teatro (duas artes praticamente mortas nestes dias de TV-Dimensional); Pássaros saindo das entranhas de mortos, uma loja com milhares de imagens idênticas de crucifixos…

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Coffin Souza
O Evangelista de Sodoma 3

          -Porra Ezequiel, qual dos “eus”, fora os teus mesmos, que poderia estar aqui e saber a tua senha, a não ser… EU…?

          -Psssss! Não mostre que sabes o meu nome seu bostinha, eu tenho que fazer de conta que estou cumprindo a minha obrigação, pelo bem de todos e a felicidade geral das religiões. Digitou rápido o código de acesso no cadeado eletrônico que se abriu tocando alguns acordes de um hino religioso qualquer, lembrando-nos que mesmo ali, último reduto da sabedoria e cultura geral, os dogmas e mandamentos da religião oficial estavam presentes.

          -Entre logo bostinha! Falou sorrindo -Seja bem-vindo de volta a ilha, a minha pequena ilha isolada, perdida e desabitada, cheia de prazeres, ditos proibidos! -fazendo uma mesura exagerada como era de seu costume.

          Entramos apressados, Ezequiel, “Monge” como eu o apelidara,foi logo acionando as luzes dos longos corredores do comprido prédio de dois andares e que mais se assemelhava a um depósito. E o era. Guardados em prateleiras largas e etiquetadas eletronicamente, estavam livros, periódicos, revistas, discos, rótulos, fotografias, brinquedos, máscaras de teatro, antigas máquinas de escrever, de fotografar, filmar e gravar sons, papéis, muitos papéis, peças de teatro, roteiros de filmes, cartazes, poesias, histórias em quadrinhos, cópias de obras de arte popular, negativos, material iconográfico e documento. Todo este acervo era de material considerado pagão ou ateu. Ou subversivo, anarquista, libertário, pornográfico ou simplesmente considerado desinteressante para o Estado-Igreja. Por razões desconhecidas estes milhares de itens não haviam sido destruídos nem desapareceram misteriosamente. Foram arquivados neste “museu” e estavam teoricamente à disposição de quem quisesse consultar. Mas como Monge bem sabia em todos os anos que fora o zelador do local, muito poucas pessoas tinham cruzado oficialmente suas portas. Aliado ao profundo desprezo dos deístas e da população em geral à cultura, havia um complexo entrave burocrático que desanimava quem tivesse o interesse ou alguma curiosidade. Além disto, desconfiava-se que o edifício e seus tesouros eram na verdade uma enorme armadilha para se descobrir potenciais, “ateus-subversivos”. Afinal, tudo que havia oficialmente liberado para se ler, ver ou ouvir estava disponível nos templo, igrejas e é claro na R.E.S.A. e no S.B.T. Monge era o zelador permanente e morava ali mesmo em meio de tantas maravilhas culturais.

          Fui seguindo-o pelos corredores já conhecidos enquanto ele falava sem parar. Parou em frente a sala de vídeos e digitou o segredo para abri-la.

          -Esteja a vontade como sempre seu bostinha, vou te mostrar uma “coisa legal” como se dizia no meu tempo!

          Sentei na primeira poltrona e Ezequiel logo atrás. Logo acionou o enorme telão e desligou as luzes. A sala se encheu com imagens borradas, truncadas de uma cópia antiga e mal conservada… ”Allen Klein Productions”, um cenário irreal, uma espécie de religioso com roupas pretas, música tribal, um cadáver coberto de moscas, dezenas de crianças nuas, um aleijado sem pernas e braços, um arremedo de cristo crucificado, um circo de sapos… Uma avalanche de imagens poderosas, uma mistura de circo e teatro (duas artes praticamente mortas nestes dias de TV-Dimensional); Pássaros saindo das entranhas de mortos, uma loja com milhares de imagens idênticas de crucifixos…

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