Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O Evangelista de Sodoma 3

          -Putaqueopariu! Que filme do caralho! Isto é o que tinha que passar no S.B.T.

          -Sabia que tu ia gostar, bostinha. Foi realizado per um artista da antiga América do Sul, a mais de cem anos. Mesmo em sua época foi polêmico e revolucionário. Hoje em dia seria inconcebível e potencialmente criminoso.

          Monge continuou dissertando sobre a obra e passando-me as informações que conseguira reunir em antigos arquivos sobre outras obras transgressivas de uma época em que política e religião corriam juntas, mas as pessoas ainda tinham vontades próprias e o livre pensar. Não eram muito incentivadas a isto, mas também não eram consideradas criminosos insanos.

          Não havia muito mais do que quarenta minutos de fragmentos do filme preservados, por isto fiz com que Ezequiel voltasse a gravação várias vezes durante a noite, enquanto nos entupimos de café preto forte. Monge era abstêmio, como para provar que ninguém é mesmo perfeito. Discutimos, filosofamos e blasfemamos até o amanhecer. Saí de lá quando senti que meu velho amigo já estava muito cansado e fui para meu apartamento a pé, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Quanto mais firmeza sentia em minhas convicções, mais perdido me sentia em um mundo que definitivamente não era o meu. Como eu gostaria de ter a criatividade e capacidade para poder externar  meus pensamentos e de outros em uma obra que pudesse ser lida, vista ou ouvida por meus pais, por meus companheiros de bar ou por Lurdes. Imaginei até um título pomposo “O Evangelista de Nova Sodoma”, ou algo parecido…

 

O EVANGELISTA DE SODOMA- Interlúdio Cultural

          Região montanhosa da Baixa Gauchudéia, cerca de 850 D.C… Pobres agricultores e criadores de cabritos albinos anões viviam sob o julgo do monarca Petrus Erbus II. Seu reinado a mais de vinte anos, impunha severos tributos sobre as parcas colheitas e metade dos rebanhos, que serviam para grandes banquetes onde eram recheados e assados com iguarias exóticas. A população em geral só costumava criar os pequenos animais para aproveitar seu leite, forte e abundante, já que eram desprovidos de pouca carne em seus corpos diminutos e esquálidos. Já sua majestade, também era apreciador de vinhos, e cultivava de forma cada vez mais extensa, diversas variedades de uvas que só podiam ser colhidas, fermentadas e consumidas pela família Real, ou seja, somente ele, já que era viúvo pela quarta vez e não tinha herdeiros diretos. Incumbira ele agora, seus vinicultores reais de encontrar o melhor lugar para o cultivo da rara uva Moscate-Branco-Azulada, que renderia um maravilhoso vinho licoroso de refinado aroma silvestre.

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Coffin Souza
O Evangelista de Sodoma 3

          -Putaqueopariu! Que filme do caralho! Isto é o que tinha que passar no S.B.T.

          -Sabia que tu ia gostar, bostinha. Foi realizado per um artista da antiga América do Sul, a mais de cem anos. Mesmo em sua época foi polêmico e revolucionário. Hoje em dia seria inconcebível e potencialmente criminoso.

          Monge continuou dissertando sobre a obra e passando-me as informações que conseguira reunir em antigos arquivos sobre outras obras transgressivas de uma época em que política e religião corriam juntas, mas as pessoas ainda tinham vontades próprias e o livre pensar. Não eram muito incentivadas a isto, mas também não eram consideradas criminosos insanos.

          Não havia muito mais do que quarenta minutos de fragmentos do filme preservados, por isto fiz com que Ezequiel voltasse a gravação várias vezes durante a noite, enquanto nos entupimos de café preto forte. Monge era abstêmio, como para provar que ninguém é mesmo perfeito. Discutimos, filosofamos e blasfemamos até o amanhecer. Saí de lá quando senti que meu velho amigo já estava muito cansado e fui para meu apartamento a pé, tentando colocar meus pensamentos em ordem. Quanto mais firmeza sentia em minhas convicções, mais perdido me sentia em um mundo que definitivamente não era o meu. Como eu gostaria de ter a criatividade e capacidade para poder externar  meus pensamentos e de outros em uma obra que pudesse ser lida, vista ou ouvida por meus pais, por meus companheiros de bar ou por Lurdes. Imaginei até um título pomposo “O Evangelista de Nova Sodoma”, ou algo parecido…

 

O EVANGELISTA DE SODOMA- Interlúdio Cultural

          Região montanhosa da Baixa Gauchudéia, cerca de 850 D.C… Pobres agricultores e criadores de cabritos albinos anões viviam sob o julgo do monarca Petrus Erbus II. Seu reinado a mais de vinte anos, impunha severos tributos sobre as parcas colheitas e metade dos rebanhos, que serviam para grandes banquetes onde eram recheados e assados com iguarias exóticas. A população em geral só costumava criar os pequenos animais para aproveitar seu leite, forte e abundante, já que eram desprovidos de pouca carne em seus corpos diminutos e esquálidos. Já sua majestade, também era apreciador de vinhos, e cultivava de forma cada vez mais extensa, diversas variedades de uvas que só podiam ser colhidas, fermentadas e consumidas pela família Real, ou seja, somente ele, já que era viúvo pela quarta vez e não tinha herdeiros diretos. Incumbira ele agora, seus vinicultores reais de encontrar o melhor lugar para o cultivo da rara uva Moscate-Branco-Azulada, que renderia um maravilhoso vinho licoroso de refinado aroma silvestre.

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