Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O Evangelista de Sodoma 3

          No sopé do penúltimo morro dentro das fronteiras Gauchudéicas, vivia a infortunada família Crutis. Habitavam o local a várias gerações, sempre com dificuldades, quer seja pela região inóspita e pedregosa, quer pela temperatura instável, que variava abruptamente no meio das estações. Além destas dificuldades para a agricultura e pecuária, estavam muito próximos da fronteira com a Região Catarinítica, antiga Alta Gauchudéia, em constante atritos bélicos desde sua independência, o que os deixavam a mercê de ataques de soldados dos dois lados. Enquanto viveu ali, o último patriarca Crutis, Salamin Crutis, a família apesar dos contratempos e agruras, sobrevivia com o cultivo de nabos roxos e batatas amargas, e a criação de dezenas de cabritinhos leiteiros. Todo o final de ano, após pagarem os tributos – apesar da distância com o poder central nunca eram esquecidos pelos cruéis cobradores de impostos; Reuniam-se com os poucos vizinhos e recebiam parentes distantes e dividiam uma ceia com pão de batatas amargas, salada de nabos e muito leite e queijo caprino. Celebravam assim o Natal e o Ano Novo juntos e oravam e agradeciam a Deus pela felicidade de todos, inclusive de Sua Majestade. Durante a última celebração, o clima sempre instável lançou uma violenta tempestade com raios, ventos fortíssimos e uma chuva abundante que varreu a região por mais de uma semana. Salamin Crutis, que auxiliava o sacerdote, primo seu, a preparar o culto, lembrou-se que não havia recolhido seus cabritos, e apesar das súplicas de todos, saiu em meio à tormenta para procurá-los. Foi encontrado dois dias depois no fundo de uma ravina, empapado de lama e com os miolos esfacelados depois da queda. Protegida em seus braços, apesar da fome e do frio, uma pequenina cabrita estava milagrosamente viva.

          Precisaram esperar vários dias para enterrá-lo por causa dos temporais contínuos, e rezaram por sua alma e agradeceram a Deus pelo homem fervoroso, dedicado, trabalhador e bondoso que se fora. Após o funeral, todos os parentes e vizinhos distantes se foram, desejando boa sorte para a família: A matriarca Verzolina Crutis, o filho mais velho Benício – 14 anos; Anícia – 12; Onícia – 9; e os gêmeos Salício e Docília – 3 anos. Apesar das orações e da fé inabalável dos Crutis, os tempos seguintes foram de miséria, fome e desespero. Grande parte do rebanho se fora na noite fatídica, a chuva e uma posterior avalanche de pedras e lama destruíram todas as plantações, que não conseguiram reflorescer, pois sobrevieram meses  do mais puro e intenso calor e seca.Todos trabalharam arduamente, enfrentando juntos as adversidades, e os pequenos gêmeos encarregados de cuidar dos cabritos anões no cercado, acabaram contaminados com as fezes dos animais com quem brincavam, e Docília morreu com a Febre Caprina e seu irmão depois de semanas de sofrimento sobreviveu com seqüelas graves na locomoção e fala.

          Quatro anos depois que seu pai se foi, Benício, como todos os dias trabalhava duro, suando enquanto carpia e rezava quando viu aproximar-se uma comitiva Real. O mais estranho é que não era época dos impostos e não lhes havia chegado nenhuma notícia de conflitos bélicos recentes, únicos motivos para os emissários empoados de Petrus Erbus II se aventurarem por estas plagas.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10

Coffin Souza
O Evangelista de Sodoma 3

          No sopé do penúltimo morro dentro das fronteiras Gauchudéicas, vivia a infortunada família Crutis. Habitavam o local a várias gerações, sempre com dificuldades, quer seja pela região inóspita e pedregosa, quer pela temperatura instável, que variava abruptamente no meio das estações. Além destas dificuldades para a agricultura e pecuária, estavam muito próximos da fronteira com a Região Catarinítica, antiga Alta Gauchudéia, em constante atritos bélicos desde sua independência, o que os deixavam a mercê de ataques de soldados dos dois lados. Enquanto viveu ali, o último patriarca Crutis, Salamin Crutis, a família apesar dos contratempos e agruras, sobrevivia com o cultivo de nabos roxos e batatas amargas, e a criação de dezenas de cabritinhos leiteiros. Todo o final de ano, após pagarem os tributos – apesar da distância com o poder central nunca eram esquecidos pelos cruéis cobradores de impostos; Reuniam-se com os poucos vizinhos e recebiam parentes distantes e dividiam uma ceia com pão de batatas amargas, salada de nabos e muito leite e queijo caprino. Celebravam assim o Natal e o Ano Novo juntos e oravam e agradeciam a Deus pela felicidade de todos, inclusive de Sua Majestade. Durante a última celebração, o clima sempre instável lançou uma violenta tempestade com raios, ventos fortíssimos e uma chuva abundante que varreu a região por mais de uma semana. Salamin Crutis, que auxiliava o sacerdote, primo seu, a preparar o culto, lembrou-se que não havia recolhido seus cabritos, e apesar das súplicas de todos, saiu em meio à tormenta para procurá-los. Foi encontrado dois dias depois no fundo de uma ravina, empapado de lama e com os miolos esfacelados depois da queda. Protegida em seus braços, apesar da fome e do frio, uma pequenina cabrita estava milagrosamente viva.

          Precisaram esperar vários dias para enterrá-lo por causa dos temporais contínuos, e rezaram por sua alma e agradeceram a Deus pelo homem fervoroso, dedicado, trabalhador e bondoso que se fora. Após o funeral, todos os parentes e vizinhos distantes se foram, desejando boa sorte para a família: A matriarca Verzolina Crutis, o filho mais velho Benício – 14 anos; Anícia – 12; Onícia – 9; e os gêmeos Salício e Docília – 3 anos. Apesar das orações e da fé inabalável dos Crutis, os tempos seguintes foram de miséria, fome e desespero. Grande parte do rebanho se fora na noite fatídica, a chuva e uma posterior avalanche de pedras e lama destruíram todas as plantações, que não conseguiram reflorescer, pois sobrevieram meses  do mais puro e intenso calor e seca.Todos trabalharam arduamente, enfrentando juntos as adversidades, e os pequenos gêmeos encarregados de cuidar dos cabritos anões no cercado, acabaram contaminados com as fezes dos animais com quem brincavam, e Docília morreu com a Febre Caprina e seu irmão depois de semanas de sofrimento sobreviveu com seqüelas graves na locomoção e fala.

          Quatro anos depois que seu pai se foi, Benício, como todos os dias trabalhava duro, suando enquanto carpia e rezava quando viu aproximar-se uma comitiva Real. O mais estranho é que não era época dos impostos e não lhes havia chegado nenhuma notícia de conflitos bélicos recentes, únicos motivos para os emissários empoados de Petrus Erbus II se aventurarem por estas plagas.

Páginas: 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10