Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O Evangelista de Sodoma 3

          … E o fervoroso Benício foi amarrado de cabeça para baixo em uma cruz de madeira e obrigado a assistir aos guardas estuprarem e degolarem sua bondosa mãe e sua cabrita favorita, aquela mesma que seu saudoso pai morrera para salvar. Chorou desesperado ao ver suas irmãs virgens serem levadas acorrentadas pra servirem ao Bordel Real e seu irmão mais novo, paralítico e retardado Salício, ser utilizado como alvo vivo para um torneio de arco e flechas incandescentes.

          -Oh, Senhor, perdoai-os porque eles sabem muito bem o que fazem. Entrego minha alma aos céus, mas, por favor, não deixe este tirano possuir esta terra sagrada que sempre nos acolheu… Um violento chute na boca arrancou os poucos dentes que ele ainda possuía e o fizeram se calar. Nos dias e noites vindouros, Benício foi espancado, queimado, esfolado, escalpelado, sodomizado e emasculado e finalmente decapitado. Durante todo o tormento nunca deixou de rezar pedindo perdão a Deus por suas faltas e proteção para suas terras. Então seu corpo foi esquartejado e estripado. Seu coração foi levado ao tirano e o resto foi queimado até virar cinzas que foram espalhadas aos pés das parreiras recém plantadas aonde antes haviam as vagens de ervilhas.

          Mais de uma estação se passaram, até que Petrus Erbus II se lembrasse de um de seus milhares de caprichos e consultasse os seus vinicultores para saber das parreiras com uvas Moscato especiais vindas da longínqua e exótica Chapecônia. As respostas foram todas excepcionalmente evasivas e estranhas. Durante semanas tentou arrancar, inclusive sob ameaças, alguma informação de seus servos quanto ao futuro de seu mais especial vinho, sem sucesso. Preocupado com algum complô ou temendo que alguma ação dos inimigos Catariníticos estivesse sendo escondida de sua Monárquica pessoa, mandou torturar primeiro a família e depois o próprio Grande Mestre Vinicultor, que foi depois jogado para ser devorado pelos cães da matilha real. Vencendo sua lendária preguiça, ele mesmo o soberano de toda a Baixa Gauchudéia iria até a remota região fronteiriça para conferir as histórias absurdas que lhe eram contadas. Depois de exaustivos doze dias de viagem por entre os morros e colinas de seu reino, o descrente Petrus chegou até aquela aparentemente inóspita região e encontrou-a totalmente tomada por lindas e ricas parreiras, pesadas de cachos azuis. Uma legião de velhos sábios, com seus monóculos de pedra cristal, investigavam tudo e confabulavam excitados. O monarca desceu de seu coche dourado, e aos berros exigiu saber por que toda esta opulência na safra estava sendo mantida em sigilo e por que não havia sinais da fabricação do tão esperado licor azulado. Entre gaguejos, pigarros e estapafúrdias explicações místico-científicas, o incrédulo tirano pode constatar com seus olhos e mãos, que misteriosamente, dentro de cada baga de uva, de cada cacho, dos milhares que haviam crescido em toda parte, ao invés do fruto a ser esmagado e fermentado, havia uma insossa, pobre, ridícula e amarela… ervilha! E mais, os experimentos dos sábios haviam constatado que tudo que era plantado naquelas estranhas terras, de batatas a laranjeiras, terminavam por apenas germinar… ervilhas amarelas.

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Coffin Souza
O Evangelista de Sodoma 3

          … E o fervoroso Benício foi amarrado de cabeça para baixo em uma cruz de madeira e obrigado a assistir aos guardas estuprarem e degolarem sua bondosa mãe e sua cabrita favorita, aquela mesma que seu saudoso pai morrera para salvar. Chorou desesperado ao ver suas irmãs virgens serem levadas acorrentadas pra servirem ao Bordel Real e seu irmão mais novo, paralítico e retardado Salício, ser utilizado como alvo vivo para um torneio de arco e flechas incandescentes.

          -Oh, Senhor, perdoai-os porque eles sabem muito bem o que fazem. Entrego minha alma aos céus, mas, por favor, não deixe este tirano possuir esta terra sagrada que sempre nos acolheu… Um violento chute na boca arrancou os poucos dentes que ele ainda possuía e o fizeram se calar. Nos dias e noites vindouros, Benício foi espancado, queimado, esfolado, escalpelado, sodomizado e emasculado e finalmente decapitado. Durante todo o tormento nunca deixou de rezar pedindo perdão a Deus por suas faltas e proteção para suas terras. Então seu corpo foi esquartejado e estripado. Seu coração foi levado ao tirano e o resto foi queimado até virar cinzas que foram espalhadas aos pés das parreiras recém plantadas aonde antes haviam as vagens de ervilhas.

          Mais de uma estação se passaram, até que Petrus Erbus II se lembrasse de um de seus milhares de caprichos e consultasse os seus vinicultores para saber das parreiras com uvas Moscato especiais vindas da longínqua e exótica Chapecônia. As respostas foram todas excepcionalmente evasivas e estranhas. Durante semanas tentou arrancar, inclusive sob ameaças, alguma informação de seus servos quanto ao futuro de seu mais especial vinho, sem sucesso. Preocupado com algum complô ou temendo que alguma ação dos inimigos Catariníticos estivesse sendo escondida de sua Monárquica pessoa, mandou torturar primeiro a família e depois o próprio Grande Mestre Vinicultor, que foi depois jogado para ser devorado pelos cães da matilha real. Vencendo sua lendária preguiça, ele mesmo o soberano de toda a Baixa Gauchudéia iria até a remota região fronteiriça para conferir as histórias absurdas que lhe eram contadas. Depois de exaustivos doze dias de viagem por entre os morros e colinas de seu reino, o descrente Petrus chegou até aquela aparentemente inóspita região e encontrou-a totalmente tomada por lindas e ricas parreiras, pesadas de cachos azuis. Uma legião de velhos sábios, com seus monóculos de pedra cristal, investigavam tudo e confabulavam excitados. O monarca desceu de seu coche dourado, e aos berros exigiu saber por que toda esta opulência na safra estava sendo mantida em sigilo e por que não havia sinais da fabricação do tão esperado licor azulado. Entre gaguejos, pigarros e estapafúrdias explicações místico-científicas, o incrédulo tirano pode constatar com seus olhos e mãos, que misteriosamente, dentro de cada baga de uva, de cada cacho, dos milhares que haviam crescido em toda parte, ao invés do fruto a ser esmagado e fermentado, havia uma insossa, pobre, ridícula e amarela… ervilha! E mais, os experimentos dos sábios haviam constatado que tudo que era plantado naquelas estranhas terras, de batatas a laranjeiras, terminavam por apenas germinar… ervilhas amarelas.

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