Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

-Oi! – Disse ela piscando os grandes olhos castanhos e balançando suas madeixas – eu estava te observando e te achei um pouco deslocado, sem saber para onde ir, eu queria…

-Puta merda! – exclamei bem alto, imaginando que a tal belezinha deveria pertencer a uma das lojas em volta, ou pior a algum grupelho de jovens querendo atrair mais um incauto – Olha menina, não sei quem tu é, e não quero comprar nada, nem ir a reunião de grupo nenhum, ouviu? – ela desfez aquele sorriso lindo, e baixou os olhos se encolhendo um pouco, desarmando-me.

-Desculpe-me eu nem te deixei falar, mas sabe como é, já to meio vacinado contra simpatias forçadas, sabe?

-Eu que me desculpo em incomodá-lo, acho que não iria dar certo mesmo, tchau!

E meteu-se rapidamente em meio a multidão sumindo tão rapidamente quanto aparecera e deixando-me com a sensação de ser um estúpido, ignorante e que deixara alguma coisa importante escapar-me.

Nem tive tempo de remoer minhas frustrações, pois fui cercado por um bando numeroso de D.O.I.D.A.S., o grupo mais miseravelmente insuportável esta época.

-Amém Aleluia, Shalom meu filho, que a paz de nosso senhôzinho Jesus, o abençoe!

-Desculpem-me senhoras estou com pressa, tenho que ir.

-Shalom, Krig-ha, Bandolo! Sim! Amém! Vá meu filho e confesse seus pecados para se preparar com o coração puro para a vinda do altíssimo! -Sim, claro, um confessor eletrônico, onde é o mais próximo – Glória,glória Aleluia! – gritaram todas as idosas em uníssono, enquanto abriam caminho para mim, formando um corredor até a porta de uma das cabines eletrônicas invioláveis, espalhadas pelo centro para facilitar a vida de devotos arrependidos. BANCO CONFESSIONAL 24 HORAS, diziam as letras garrafais ao lado da porta magnética. Retirei rapidamente algumas moedas do bolso e depositei-as na ranhura de coletas, o que me permitiu voar pra dentro, trancando a porta e deixando a gritaria das loucas D.O.I.D.A.S. lá fora. Eu faria qualquer coisa para me livrar daquela perturbação, inclusive aproveitar o conforto, o silêncio e o ar condicionado de uma destas jostas. Só me lembrava de ter entrado nelas duas vezes na minha vida, quando muito pequeno, logo que foram instaladas, levado pela mão de meu pai e algum tempo atrás, bêbado fugindo dos bastões de choque de P.M.S. Sentei-me na poltrona estofada em frente a um teclado. Sabia que lá fora havia uma luz vermelha que avisava quando a confissão estava em andamento, assim eu não poderia ficar apenas fazendo hora, pois, as carolas não me deixariam sair em paz. Puxei minha identidade paroquial e digitei meu número. Enter. Senha. Automaticamente foi-me descontado o valor pelo serviço especial diretamente nos meus créditos, preço duas vezes maior que o pago a um sacerdote em uma confissão “ao vivo”.

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Coffin Souza
O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

-Oi! – Disse ela piscando os grandes olhos castanhos e balançando suas madeixas – eu estava te observando e te achei um pouco deslocado, sem saber para onde ir, eu queria…

-Puta merda! – exclamei bem alto, imaginando que a tal belezinha deveria pertencer a uma das lojas em volta, ou pior a algum grupelho de jovens querendo atrair mais um incauto – Olha menina, não sei quem tu é, e não quero comprar nada, nem ir a reunião de grupo nenhum, ouviu? – ela desfez aquele sorriso lindo, e baixou os olhos se encolhendo um pouco, desarmando-me.

-Desculpe-me eu nem te deixei falar, mas sabe como é, já to meio vacinado contra simpatias forçadas, sabe?

-Eu que me desculpo em incomodá-lo, acho que não iria dar certo mesmo, tchau!

E meteu-se rapidamente em meio a multidão sumindo tão rapidamente quanto aparecera e deixando-me com a sensação de ser um estúpido, ignorante e que deixara alguma coisa importante escapar-me.

Nem tive tempo de remoer minhas frustrações, pois fui cercado por um bando numeroso de D.O.I.D.A.S., o grupo mais miseravelmente insuportável esta época.

-Amém Aleluia, Shalom meu filho, que a paz de nosso senhôzinho Jesus, o abençoe!

-Desculpem-me senhoras estou com pressa, tenho que ir.

-Shalom, Krig-ha, Bandolo! Sim! Amém! Vá meu filho e confesse seus pecados para se preparar com o coração puro para a vinda do altíssimo! -Sim, claro, um confessor eletrônico, onde é o mais próximo – Glória,glória Aleluia! – gritaram todas as idosas em uníssono, enquanto abriam caminho para mim, formando um corredor até a porta de uma das cabines eletrônicas invioláveis, espalhadas pelo centro para facilitar a vida de devotos arrependidos. BANCO CONFESSIONAL 24 HORAS, diziam as letras garrafais ao lado da porta magnética. Retirei rapidamente algumas moedas do bolso e depositei-as na ranhura de coletas, o que me permitiu voar pra dentro, trancando a porta e deixando a gritaria das loucas D.O.I.D.A.S. lá fora. Eu faria qualquer coisa para me livrar daquela perturbação, inclusive aproveitar o conforto, o silêncio e o ar condicionado de uma destas jostas. Só me lembrava de ter entrado nelas duas vezes na minha vida, quando muito pequeno, logo que foram instaladas, levado pela mão de meu pai e algum tempo atrás, bêbado fugindo dos bastões de choque de P.M.S. Sentei-me na poltrona estofada em frente a um teclado. Sabia que lá fora havia uma luz vermelha que avisava quando a confissão estava em andamento, assim eu não poderia ficar apenas fazendo hora, pois, as carolas não me deixariam sair em paz. Puxei minha identidade paroquial e digitei meu número. Enter. Senha. Automaticamente foi-me descontado o valor pelo serviço especial diretamente nos meus créditos, preço duas vezes maior que o pago a um sacerdote em uma confissão “ao vivo”.

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