Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Coffin Souza
Cesar “Coffin” Souza
Nasci em uma madrugada fria de junho de 1962. Continuo gostando de madrugadas e de frio.
Cresci com livros, filmes, gatos & quadrinhos. Queria ser Cientista, Desenhista, Escritor, Pintor, Diretor de Cinema, Ator... Faço um pouco de cada-tudo-junto-misturado. Batalhando como todos para sobreviver ao dia-a-dia, nas horas (poucas) vagas, escrevo, atuo, faço filmes, faço coisas. Orgulho de ter sido cúmplice com Baiestorf/Waslawick/Toniolli/Bortolanza/Jahnke da deliciosa demência chamada Canibal Filmes. Tenho dois blogs: She Demons Zine (shedemonszine.blogspot.com.br ) & Museu da Meia Noite (museudameianoite.blogspot.com.br ). Estou neles. E aqui. Em vários lugares. E em nenhum...
E-mail: coffinsouza@gmail.com






O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

As velhas carolas não conseguiram continuar sua pregação, por que logo atrás de mim a nuvem de fumaça invadiu a rua e a luz vermelha no alto do confessionário ficou louca e se transformou em um alarme estridente. Surgidas imediatamente sabe-se lá da onde, várias motos flutuantes e silenciosas cavalgadas por policiais com capacetes altos e cônicos, com longas viseiras negras passaram a distribuir pancadas e choques indiscriminadamente, atingindo a todos ao redor. Gritos de dor de senhoras e de pavor de crianças, em meio a um tumulto generalizado. Um cacetete elétrico acertou meu ombro esquerdo e me jogou no chão. Rastejei como pude e consegui me levantar, me lançando rapidamente em meio a multidão.

Corri como pude por entre um mar de mulheres com seus rosários, homens segurando seus Biblecorões de encontro ao peito e crianças vestidas de anjos que corriam em desespero. Dobrei uma esquina e quase fui atropelado por um coletivo elétrico. Fiz sinal e ele parou. Embarquei e sentei-me no fundo, ainda tremendo de raiva, medo e dor. Se a memória do maldito confessor não tiver sido completamente destruída, descobririam com facilidade quem o havia vandalizado. Mas não havia em mim espaço para arrependimentos, depois de toda aquela balela confessional e deter escapado da truculência dos policiais da misericórdia. A experiência servira entretanto para me lembrar de meus pais. Fazia muitos meses que não tinha notícias deles. E estava machucado e com fome. Lembrei-me da época em que minha mãe cozinhava para nós, tentando extrair o máximo de gosto daquelas comidas asséptica, temperando tudo “com muito amor”, como dizia uma antiga propaganda de condimentos. Se as velhas D.O.I.D.A.S. soubessem que eu havia aceitado dois de seus conselhos fanáticos em uma mesma tarde, certamente seria um júbilo regado a muitos glórias-aos-deuses-nas-alturas e o escambau.

Desci do coletivo a umas duas quadras do lugar onde nasci, do lado direito da cidade das luzes. O bairro residencial, todo de pequenos edifícios de sete ou oito andares, enfileirados em calçadas enfeitadas com árvores e flores semi-artificiais e pequenos pátios com indefectíveis cercas brancas. Um pesadelo de boa vizinhança, habitado noventa por cento por funcionários e ex-funcionários públicos. Minha mãe havia sido cozinheira da lanchonete da P.U.S., e meu pai se aposentara como contínuo da F.E.D.E.

-Filho meu, eu e teu pai nos preocupamos muito contigo, por que não voltas a morar conosco? Podemos cuidar de ti e tu de nós! – dizia minha velha enquanto colava uma bandagem curativa em minha mão recortada pela tela do confessor.

-Para voltar para cá, antes ele tem que retomar a vida direita, cumprir suas obrigações religiosas e aceitar um cargo na repartição, eu já disse isto mulher!

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Coffin Souza
O evangelista de Sodoma – parte 4: Nem tudo que é sólido se desmancha com ácido

As velhas carolas não conseguiram continuar sua pregação, por que logo atrás de mim a nuvem de fumaça invadiu a rua e a luz vermelha no alto do confessionário ficou louca e se transformou em um alarme estridente. Surgidas imediatamente sabe-se lá da onde, várias motos flutuantes e silenciosas cavalgadas por policiais com capacetes altos e cônicos, com longas viseiras negras passaram a distribuir pancadas e choques indiscriminadamente, atingindo a todos ao redor. Gritos de dor de senhoras e de pavor de crianças, em meio a um tumulto generalizado. Um cacetete elétrico acertou meu ombro esquerdo e me jogou no chão. Rastejei como pude e consegui me levantar, me lançando rapidamente em meio a multidão.

Corri como pude por entre um mar de mulheres com seus rosários, homens segurando seus Biblecorões de encontro ao peito e crianças vestidas de anjos que corriam em desespero. Dobrei uma esquina e quase fui atropelado por um coletivo elétrico. Fiz sinal e ele parou. Embarquei e sentei-me no fundo, ainda tremendo de raiva, medo e dor. Se a memória do maldito confessor não tiver sido completamente destruída, descobririam com facilidade quem o havia vandalizado. Mas não havia em mim espaço para arrependimentos, depois de toda aquela balela confessional e deter escapado da truculência dos policiais da misericórdia. A experiência servira entretanto para me lembrar de meus pais. Fazia muitos meses que não tinha notícias deles. E estava machucado e com fome. Lembrei-me da época em que minha mãe cozinhava para nós, tentando extrair o máximo de gosto daquelas comidas asséptica, temperando tudo “com muito amor”, como dizia uma antiga propaganda de condimentos. Se as velhas D.O.I.D.A.S. soubessem que eu havia aceitado dois de seus conselhos fanáticos em uma mesma tarde, certamente seria um júbilo regado a muitos glórias-aos-deuses-nas-alturas e o escambau.

Desci do coletivo a umas duas quadras do lugar onde nasci, do lado direito da cidade das luzes. O bairro residencial, todo de pequenos edifícios de sete ou oito andares, enfileirados em calçadas enfeitadas com árvores e flores semi-artificiais e pequenos pátios com indefectíveis cercas brancas. Um pesadelo de boa vizinhança, habitado noventa por cento por funcionários e ex-funcionários públicos. Minha mãe havia sido cozinheira da lanchonete da P.U.S., e meu pai se aposentara como contínuo da F.E.D.E.

-Filho meu, eu e teu pai nos preocupamos muito contigo, por que não voltas a morar conosco? Podemos cuidar de ti e tu de nós! – dizia minha velha enquanto colava uma bandagem curativa em minha mão recortada pela tela do confessor.

-Para voltar para cá, antes ele tem que retomar a vida direita, cumprir suas obrigações religiosas e aceitar um cargo na repartição, eu já disse isto mulher!

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