Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
E. B. Toniolli
Sou um contador de histórias.
Desde que tenho consiência de minha existência conto histórias.
Sou péssimo com nomes e rostos e a vida das pessoas não me atrai, mas as suas histórias sim.
Cada dia uma nova história, com suas banalidades, com suas expectativas, frustrações, seus sonhos, medos...
Me agrada o caos presente na ordem e a ordem sistemática presente no caos.
E assim levo a vida: entre extremos de crenças e crença nenhuma, entre a criação do novo e a reciclagem do bem e do mau, do belo e do feio.
Entre os diversos meios de retratar a vida, de criar conceitos em empresa, de vender esperanças na harmonia das coisas e das pessoas.
E assim levo a vida, contando histórias.

E-mail: toniolli@gmail.com
Facebook: facebook.com/ebtoniolli




Cara de anjo

Logo a vida abandonou seu corpo. Você a apertou ainda mais forte, tentando passar sua vida a ela. As lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, enquanto as últimas palavras ainda ecoavam em seu mente. Sentindo um amargo no peito e um aperto na garganta nunca dantes sentido, repetiu as palavras de sua amada Deise. Como seria viver sem ela? E a criança? A criança… Olhou para ela que estava largada no banco traseiro, com um pequeno filete de sangue que escorria pelo canto da boca e o coração da sua amada em sua pequena mão. Admirou-o e percebeu que era belo, belo como um anjo, apesar da membrana que ainda envolvia seu pequeno corpo.
Olhou-o novamente sentindo uma mescla de carinho, medo e ódio. Com um gesto automático, começou a livrá-lo da membrana e percebeu que ainda estava ligado pelo coração umbilical com sua amada Deise. Pensou em matar a criança, mas era muito inocente e não tinha razão em seus ações. Pegou com a mão a ponta do cordão que estava no corpo do seu filho e foi seguindo-o até o útero destroçado de sua esposa. Estava admirando o estado lastimável de sua esposa, quando sentiu algo quente preenchendo sua garganta. Era seu filho que mordia sua jugular com mandíbulas animalescas. Com um gesto instintivo afastou-o com brutalidade, arremessando-o contra o vidro. Apalpou sua garganta e sentiu o sangue grosso que escorria denso. Com grande esforço dirigiu suas mãos até o guarda luvas de onde retirou uma faca. Com as mãos tremulas foi em direção ao filho, mas o sangramento era muito intenso e tombou sem vida antes de alcança-lo.
Pouco tempo depois um carro para logo atrás do carro de Ivan. Cautelosamente um casal de velhinhos deixa o carro e contempla a cena trágica.
– Meus deus. Deve ter sido um daqueles viciados que vivem por aqui que fez isso…
– Que horrível, Jonathan!
– Sim, Marta. E veja a criança: o mostro deve ter ficado com pena dela.
– Que criança mais linda! Que carinha de anjo! Se não tiverem parentes, podemos ficar com ele?
– Talvez Marta, talvez…

 

 

 

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E. B. Toniolli
Cara de anjo

Logo a vida abandonou seu corpo. Você a apertou ainda mais forte, tentando passar sua vida a ela. As lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, enquanto as últimas palavras ainda ecoavam em seu mente. Sentindo um amargo no peito e um aperto na garganta nunca dantes sentido, repetiu as palavras de sua amada Deise. Como seria viver sem ela? E a criança? A criança… Olhou para ela que estava largada no banco traseiro, com um pequeno filete de sangue que escorria pelo canto da boca e o coração da sua amada em sua pequena mão. Admirou-o e percebeu que era belo, belo como um anjo, apesar da membrana que ainda envolvia seu pequeno corpo.
Olhou-o novamente sentindo uma mescla de carinho, medo e ódio. Com um gesto automático, começou a livrá-lo da membrana e percebeu que ainda estava ligado pelo coração umbilical com sua amada Deise. Pensou em matar a criança, mas era muito inocente e não tinha razão em seus ações. Pegou com a mão a ponta do cordão que estava no corpo do seu filho e foi seguindo-o até o útero destroçado de sua esposa. Estava admirando o estado lastimável de sua esposa, quando sentiu algo quente preenchendo sua garganta. Era seu filho que mordia sua jugular com mandíbulas animalescas. Com um gesto instintivo afastou-o com brutalidade, arremessando-o contra o vidro. Apalpou sua garganta e sentiu o sangue grosso que escorria denso. Com grande esforço dirigiu suas mãos até o guarda luvas de onde retirou uma faca. Com as mãos tremulas foi em direção ao filho, mas o sangramento era muito intenso e tombou sem vida antes de alcança-lo.
Pouco tempo depois um carro para logo atrás do carro de Ivan. Cautelosamente um casal de velhinhos deixa o carro e contempla a cena trágica.
– Meus deus. Deve ter sido um daqueles viciados que vivem por aqui que fez isso…
– Que horrível, Jonathan!
– Sim, Marta. E veja a criança: o mostro deve ter ficado com pena dela.
– Que criança mais linda! Que carinha de anjo! Se não tiverem parentes, podemos ficar com ele?
– Talvez Marta, talvez…

 

 

 

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