O Trem que Não Passou - Fabiano Soares
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






O Trem que Não Passou

      O trem obviamente ia parar, afinal, para isso servem as estações, e esse foi um erro de cálculo de Felipe, que em seu desespero, só pensou na capacidade de destruição do trem a partir de sua velocidade total, e não de sua velocidade quando chega na estação: deitado na linha férrea, achou que o trem passaria a toda, cortando-lhe a cabeça e o corpo com a facilidade com que um sushiman destroça um salmão; no entanto, uma roda do trem, que vinha freando para parar na estação, agarrou-se ao osso de sua saboneteira, enquanto a outra, paralela, cravava em sua bacia e arrastou-o por uns 50 metros, enquanto Felipe sentia a pele do pescoço repuxar e arder, fazendo-o conhecer sete níveis do inferno antes de morrer. A primeira parte a ser separada do corpo foram as pernas, já que a bacia foi facilmente destrinchada, espalhando sangue, tripa e bosta pela linha do trem. E o pouco que o cérebro conseguia fazer era trincar os dentes e desejar a morte, embora o instinto natural, mesmo em casos de suicídio, busque manter nossa vida: o ombro direito de Felipe estava sendo fatiado pela roda, pois levantava, tentando dar um apoio além da saboneteira para parar a dor de puxar a pele do pescoço. Mas enfim, antes do trem parar, uma parte da pele e do couro cabeludo fora arrancada, deixando os músculos da face à mostra por pouco tempo, pois logo após a roda conseguiu desviar do osso que a impedia, e separou a cabeça do torso de Felipe. A cabeça bateu nas pedras, ricocheteou na parte de baixo do trem, nas rodas, nas pedras de novo e foi assim até o trem parar. Irreconhecível, nosso protagonista estava arrasado, em pedaços. Literalmente.
E foi assim que o trem passou sobre “o trem que não passou”.

 

      FIM

 

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Fabiano Soares
O Trem que Não Passou

      O trem obviamente ia parar, afinal, para isso servem as estações, e esse foi um erro de cálculo de Felipe, que em seu desespero, só pensou na capacidade de destruição do trem a partir de sua velocidade total, e não de sua velocidade quando chega na estação: deitado na linha férrea, achou que o trem passaria a toda, cortando-lhe a cabeça e o corpo com a facilidade com que um sushiman destroça um salmão; no entanto, uma roda do trem, que vinha freando para parar na estação, agarrou-se ao osso de sua saboneteira, enquanto a outra, paralela, cravava em sua bacia e arrastou-o por uns 50 metros, enquanto Felipe sentia a pele do pescoço repuxar e arder, fazendo-o conhecer sete níveis do inferno antes de morrer. A primeira parte a ser separada do corpo foram as pernas, já que a bacia foi facilmente destrinchada, espalhando sangue, tripa e bosta pela linha do trem. E o pouco que o cérebro conseguia fazer era trincar os dentes e desejar a morte, embora o instinto natural, mesmo em casos de suicídio, busque manter nossa vida: o ombro direito de Felipe estava sendo fatiado pela roda, pois levantava, tentando dar um apoio além da saboneteira para parar a dor de puxar a pele do pescoço. Mas enfim, antes do trem parar, uma parte da pele e do couro cabeludo fora arrancada, deixando os músculos da face à mostra por pouco tempo, pois logo após a roda conseguiu desviar do osso que a impedia, e separou a cabeça do torso de Felipe. A cabeça bateu nas pedras, ricocheteou na parte de baixo do trem, nas rodas, nas pedras de novo e foi assim até o trem parar. Irreconhecível, nosso protagonista estava arrasado, em pedaços. Literalmente.
E foi assim que o trem passou sobre “o trem que não passou”.

 

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