Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Fabiano Soares
Formado em jornalismo, detesta jornalismo. Escrito assim em terceira pessoa parece melhor para uma minibiografia. Fabiano tenta se dedicar a muitas coisas, levando-se pela paixão das diversas formas de artes: música, textos, filmes. E é nessa esquizofrenia de interesses, onde tenta dedicar-se um pouco a cada coisa que acaba como um jornalista: sabendo nada de muita coisa. Não sabe fazer música, não sabe escrever textos e não sabe fazer filmes. Mas tenta fazer tudo isso e segue, literalmente, amador. É isso mesmo que ele quer. Apaixonado também por temas sombrios e por uma sombria vontade de avacalhar temas sombrios, não consegue fazer nada sério, portanto, não criem expectativas. Divirtam-se, ou não.
E-mail: fabianocabeludo@yahoo.com.br
Facebook: facebook.com/fabiano. cabeludosoares






Satanal: Lúcifer Sangrando Deus- Parte 01

            A mesa está farta de comida: tem um leitão assado, naquela cor cobre, que só de começar a descrever me dá vontade de ir a um bar vagabundo e pedir um pedaço de pernil com torresmo e engordurar esses dedos que teclam a história; tem um tender, seja lá que merda de bicho é esse, mas aquela bolinha de carne que você conhece do natal; tem farofa de ovos e lingüiça, que dá pra comer até pura; maionese e arroz, que deve sobrar, porque esses putos só vão querer comer carnes e doces; tem pudim, pavê (afinal, alguém tem que fazer a piada), brigadeirão e quindins espalhados na mesa. Mas o que eles gastaram de comida, não deu nem um décimo do que gastaram com otras cositas más. Tem uma barra de maconha que parece uma caixa de bombons da Lacta, e uma cartela, similar àquelas de adesivos que todo mundo tinha na 5ª série, de Power Rangers ou Snoopy. Talvez eu, narrador, esteja entregando minha idade, e talvez vocês estejam pensando “na minha 5ª série não tinha essa merda, não!”. Ok, uma cartela tipo uma folha de apostas da Mega Sena, no entanto, só de selos de LSD. Esses caras tão planejando ficar mal hoje!

            Começa a noite de Satanal, e a maconha está sendo dichavada enquanto rola “Mourning Palace”, a primeira do “Enthrone Darkness Triumphant“, do Dimmu Borgir, no aparelho de som. Sim, eles estão naquela idade em que essas músicas são pesadíssimas e chocantes, etc; todo mundo já teve suas certezas dos dezoito anos. Felipe e Leonardo estão fumando maconha enquanto jogam Mario Kart, deleitando-se com as imagens coloridas, contrastantes com o black metal harmonioso que sai do som. Marcel dropou três selos e encontra-se inerte em uma poltrona, olhando para a mesa da ceia. 

            Muito tempo se passou, Leonardo perdeu muitas partidas no Mario Kart, e Felipe recebia o troféu do campeonato, quando Leo levantou do sofá.

– Vou comer alguma coisa. Já tenho fome normal, na larica então… E com essa mesa, nham nham!

            Marcel continuava na mesma posição, olhando para a mesa, mas certamente a mente dele não estava ali, ao menos não até agora. Leo começou o ataque e pegou um pedaço do pudim de leite condensado, que misturou com um pouco de panetone e uma colher de farofa de ovos. Então Leo pegou um tridente – desses, chiques, que só usamos duas vezes por ano – e o facão e caminhou em direção ao porco, no canto mais esquerdo da mesa, para onde Marcel parecia estar absorto, olhando. Nessa hora, o CD do Dimmu Borgir ainda estava rolando, e agora era “Entrance“:

            “Another dimension opens for me to see… Heaven sure ain’t made for me to be!”

            E nesse exato momento Marcel dá um pulo da poltrona, fazendo Leonardo tomar um susto e virar-se para trás, para ver o que ocorreu. Felipe está rindo e gritando “é campeão! É campeão!” na sala, sozinho, enquanto explodem os fogos de artifício na tela, que o deixa mais feliz. Mas o importante, nessa hora, é penetrar na mente de Marcel, e veja só, vocês estão com sorte! Sou um narrador onisciente, seus putos!

            Marcel olha para o leitão na mesa, e percebe que a cabeça dele está tremendo, como quando se faz um esforço absurdo. A cabeça do porco começa e levantar-se na mesa, enquanto o corpo continua pesadamente morto, e Marcel começa a ouvir sons como se fossem vindos de um vocalista de goregrind, aqueles mais agudos, vindos todos da boca do leitão, cuja cabeça continuava tremendo em cima da mesa.

            “Buuuu buuuuinhiiiiii! Buiiiaaaam! Ruuuuuubuuu Uriiiiiiiibaaambuuuuuaaaaam!”

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Fabiano Soares
Satanal: Lúcifer Sangrando Deus- Parte 01

            A mesa está farta de comida: tem um leitão assado, naquela cor cobre, que só de começar a descrever me dá vontade de ir a um bar vagabundo e pedir um pedaço de pernil com torresmo e engordurar esses dedos que teclam a história; tem um tender, seja lá que merda de bicho é esse, mas aquela bolinha de carne que você conhece do natal; tem farofa de ovos e lingüiça, que dá pra comer até pura; maionese e arroz, que deve sobrar, porque esses putos só vão querer comer carnes e doces; tem pudim, pavê (afinal, alguém tem que fazer a piada), brigadeirão e quindins espalhados na mesa. Mas o que eles gastaram de comida, não deu nem um décimo do que gastaram com otras cositas más. Tem uma barra de maconha que parece uma caixa de bombons da Lacta, e uma cartela, similar àquelas de adesivos que todo mundo tinha na 5ª série, de Power Rangers ou Snoopy. Talvez eu, narrador, esteja entregando minha idade, e talvez vocês estejam pensando “na minha 5ª série não tinha essa merda, não!”. Ok, uma cartela tipo uma folha de apostas da Mega Sena, no entanto, só de selos de LSD. Esses caras tão planejando ficar mal hoje!

            Começa a noite de Satanal, e a maconha está sendo dichavada enquanto rola “Mourning Palace”, a primeira do “Enthrone Darkness Triumphant“, do Dimmu Borgir, no aparelho de som. Sim, eles estão naquela idade em que essas músicas são pesadíssimas e chocantes, etc; todo mundo já teve suas certezas dos dezoito anos. Felipe e Leonardo estão fumando maconha enquanto jogam Mario Kart, deleitando-se com as imagens coloridas, contrastantes com o black metal harmonioso que sai do som. Marcel dropou três selos e encontra-se inerte em uma poltrona, olhando para a mesa da ceia. 

            Muito tempo se passou, Leonardo perdeu muitas partidas no Mario Kart, e Felipe recebia o troféu do campeonato, quando Leo levantou do sofá.

– Vou comer alguma coisa. Já tenho fome normal, na larica então… E com essa mesa, nham nham!

            Marcel continuava na mesma posição, olhando para a mesa, mas certamente a mente dele não estava ali, ao menos não até agora. Leo começou o ataque e pegou um pedaço do pudim de leite condensado, que misturou com um pouco de panetone e uma colher de farofa de ovos. Então Leo pegou um tridente – desses, chiques, que só usamos duas vezes por ano – e o facão e caminhou em direção ao porco, no canto mais esquerdo da mesa, para onde Marcel parecia estar absorto, olhando. Nessa hora, o CD do Dimmu Borgir ainda estava rolando, e agora era “Entrance“:

            “Another dimension opens for me to see… Heaven sure ain’t made for me to be!”

            E nesse exato momento Marcel dá um pulo da poltrona, fazendo Leonardo tomar um susto e virar-se para trás, para ver o que ocorreu. Felipe está rindo e gritando “é campeão! É campeão!” na sala, sozinho, enquanto explodem os fogos de artifício na tela, que o deixa mais feliz. Mas o importante, nessa hora, é penetrar na mente de Marcel, e veja só, vocês estão com sorte! Sou um narrador onisciente, seus putos!

            Marcel olha para o leitão na mesa, e percebe que a cabeça dele está tremendo, como quando se faz um esforço absurdo. A cabeça do porco começa e levantar-se na mesa, enquanto o corpo continua pesadamente morto, e Marcel começa a ouvir sons como se fossem vindos de um vocalista de goregrind, aqueles mais agudos, vindos todos da boca do leitão, cuja cabeça continuava tremendo em cima da mesa.

            “Buuuu buuuuinhiiiiii! Buiiiaaaam! Ruuuuuubuuu Uriiiiiiiibaaambuuuuuaaaaam!”

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