Espantos - George Au Costa
George Au Costa
George Au Costa nasceu e reside em Porto Alegre, RS.
Persona non grata para alguns, utiliza sua arte desde 2013 como resposta para tudo.
Vive transitando entre Cinema, escrita e fotografia, suas maiores paixões.
Em suas malditas trindades, estão Stephen King, Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft; Quentin Tarantino, Stanley Kubrick e Woody Allen; Annie Leibovitz, Vivian Maier e Andy Warhol.
Atualmente, vem publicando textos em coletâneas, sites e em suas redes sociais, onde pode ser encontrado como @georgeaucosta.





Espantos

          Naquelas horas (horas?) que passaram entre minha entrada no ginásio, a constatação de que a porta por onde passei trancou-se e que eu teria que atravessar toda a extensão do prédio para alcançar a outra saída, nenhum dos corpos mexeu-se. Mesmo achando que via movimentos pelo canto dos olhos. Continuei caminhando entre os corpos que de alguma forma ‒ horripilante e sobrenatural ‒ mantinham-se de pé. A cada passo, o cheiro de podre (semelhante ao da mochila mas conseguindo ser pior) entrava por minhas narinas e fazia meu estômago vazio chacoalhar como um gato preso em um saco.

          – Merda! — ouvi-me pensando. Ouvi-me falando. No segundo seguinte ao pensamento-fala, dei-me conta de que o cadáver que esbarrei por descuido parecia flutuar. Fiquei imóvel, encarando os olhos fundos e sem cor do homem que, poucas horas atrás, era um colega. Perdi-me na profundidade do par de olhos que serviam como portas para duas cavernas sem fim. Mais um passo. Mais um cadáver deixado para trás. Funcionários. Professores. Alunos. Mortos. Todos mortos. Mas de pé. Como se fossem a qualquer momento marchar. A marcha dos mortos, pensei debilmente. Os degraus que levavam até a saída já estavam visíveis. Passei por mais dois corpos conhecidos: gêmeas que sempre usavam a mesma roupa e que agora usariam eternamente seus vestidos azuis. Último corpo, vitória! Subi a dúzia de degraus da escada e olhei para trás. Arrepiei-me. Preciso confessar que uma pequena rajada de urina saiu quente de mim e molhou minhas calças. Dezenas de corpos parados em fila me encaravam fixamente com olhos mortos. Não esperei para ver o segundo seguinte e obriguei-me a colocar meu corpo em movimento. Saí pela porta em direção à luz e ao ar fresco da manhã do dia de minha morte.

          Não sei por quanto tempo corri e quanto tempo levei para chegar até minha casa. Não sei quanto tempo levei para decidir o que faria. Minha única certeza era de que precisava colocar um fim em tudo. Decidi gastar meus últimos minutos com um banho, uma dose de minha pior bebida, com a limpeza de minha arma e com esta carta. Não sei se alguém lerá o que aqui escrevo. Sei que algo ‒ ou alguém ‒ sabe o que faço no momento. Pois agora mesmo, escrevendo minhas malditas últimas palavras, sinto a silenciosa presença na vazia cadeira ao meu lado. Antes de executar minha última decisão, deixo aqui registrado que uma sensação de alívio paira sobre mim e enche meus olhos como se fosse uma luz no fim de um escuro túnel. Talvez traga alguma paz para este corpo e este espírito, que estão cansados de andar perigosamente na beira de abismos desconhecidos.

          Com medo, mas com esperança, seu escritor amaldiçoado,

          Igor.

 

*Texto originalmente publicado na coletânea de contos Tratado Oculto do Horror e lançado em outubro de 2016 pela Editora Andross.

 

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George Au Costa
Espantos

          Naquelas horas (horas?) que passaram entre minha entrada no ginásio, a constatação de que a porta por onde passei trancou-se e que eu teria que atravessar toda a extensão do prédio para alcançar a outra saída, nenhum dos corpos mexeu-se. Mesmo achando que via movimentos pelo canto dos olhos. Continuei caminhando entre os corpos que de alguma forma ‒ horripilante e sobrenatural ‒ mantinham-se de pé. A cada passo, o cheiro de podre (semelhante ao da mochila mas conseguindo ser pior) entrava por minhas narinas e fazia meu estômago vazio chacoalhar como um gato preso em um saco.

          – Merda! — ouvi-me pensando. Ouvi-me falando. No segundo seguinte ao pensamento-fala, dei-me conta de que o cadáver que esbarrei por descuido parecia flutuar. Fiquei imóvel, encarando os olhos fundos e sem cor do homem que, poucas horas atrás, era um colega. Perdi-me na profundidade do par de olhos que serviam como portas para duas cavernas sem fim. Mais um passo. Mais um cadáver deixado para trás. Funcionários. Professores. Alunos. Mortos. Todos mortos. Mas de pé. Como se fossem a qualquer momento marchar. A marcha dos mortos, pensei debilmente. Os degraus que levavam até a saída já estavam visíveis. Passei por mais dois corpos conhecidos: gêmeas que sempre usavam a mesma roupa e que agora usariam eternamente seus vestidos azuis. Último corpo, vitória! Subi a dúzia de degraus da escada e olhei para trás. Arrepiei-me. Preciso confessar que uma pequena rajada de urina saiu quente de mim e molhou minhas calças. Dezenas de corpos parados em fila me encaravam fixamente com olhos mortos. Não esperei para ver o segundo seguinte e obriguei-me a colocar meu corpo em movimento. Saí pela porta em direção à luz e ao ar fresco da manhã do dia de minha morte.

          Não sei por quanto tempo corri e quanto tempo levei para chegar até minha casa. Não sei quanto tempo levei para decidir o que faria. Minha única certeza era de que precisava colocar um fim em tudo. Decidi gastar meus últimos minutos com um banho, uma dose de minha pior bebida, com a limpeza de minha arma e com esta carta. Não sei se alguém lerá o que aqui escrevo. Sei que algo ‒ ou alguém ‒ sabe o que faço no momento. Pois agora mesmo, escrevendo minhas malditas últimas palavras, sinto a silenciosa presença na vazia cadeira ao meu lado. Antes de executar minha última decisão, deixo aqui registrado que uma sensação de alívio paira sobre mim e enche meus olhos como se fosse uma luz no fim de um escuro túnel. Talvez traga alguma paz para este corpo e este espírito, que estão cansados de andar perigosamente na beira de abismos desconhecidos.

          Com medo, mas com esperança, seu escritor amaldiçoado,

          Igor.

 

*Texto originalmente publicado na coletânea de contos Tratado Oculto do Horror e lançado em outubro de 2016 pela Editora Andross.

 

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