Necroína - Gerson Machado De Avillez
Gerson Machado De Avillez
Vendedor de ideias e traficante de placebos. Fotógrafo e homem da prática de letras nas horas vagas, teólogo e pedagogo por formação, filósofo autodidata e por vocação. Descendente direto do Tenente-General Jorge Avillez, portador da Síndrome de Aspeger, trabalhou em eventos culturais nas Lonas Culturais no Rio (2002) onde produziu e fotografou, tendo fotos publicadas em jornais do Rio de Janeiro. Posteriormente trabalhou na Rede Globo como fiscal de figuração pela agência MMCDI especialmente na novela Avenida Brasil (2012). Membro votante do Plano Estadual do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas do Rio de Janeiro, membro número 1017 do CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica) e da Sal (Sociedade de Artes de São Gonçalo), tendo escrito artigos para a Revista Somnium, teve contos selecionados e publicados na Revista Litera, Primeiro Capítulo e é autor de destaque da Obvious Mag. Finalista de diversos concursos literários, tem 21 livros escritos e dois publicados, 'Adormecidos' (2011 - Ryoki Produções) e 'Síndrome Celestial' (2013 - Editora Multifoco).
E-mail: gersonavillez46@hotmail.com
Site: gersonavillez.jimdo.com





Necroína

      Doravante por demais tentado a utilizar-se do fármaco infame e discutido agora por todas religiões mediante suas óbvias implicações aquilo parece ter levado a um aumento exponencial de membros de igrejas das mais variadas como se atestasse a justificativa da fé. Assim naquele dia deitei-me num leito confortavelmente ao lado de minha amiga Roberta e relaxei após inserir uma cápsula da droga. Respirei fundo e fechei os olhos sob os sussurros da doce voz de minha amiga de viagem e sob a trilha sonora de Pinky Floyd.

      Inicialmente não senti nada a não ser a expectativa gerada pelo uso da droga ainda aquém de seus efeitos até que repentinamente me sobreveio uma sonolência pesada, mas nada diferente do que era normal, mas apenas aparentemente. Tão logo uma profusão de imagens difusas me sobreveio até que vi Roberta Conrad sentada diante de mim no tapete. Ele contava no relógio o tempo suposto do efeito da droga quando então levantou-se e pegou um maço de cartas de baralho. Ela os misturou e misturou até tirar uma carta ajeitando com graciosidade seus cabelos encaracolados e me mostrou adormecido um As de Kopas. A seguir a jovem na maior cara de pau trocou de roupa na minha frente vestindo um top azul. Ela sorria como tudo não passasse de uma brincadeira adolescente ainda meia descrente naquilo tudo, todavia enquanto me projetava pelo quarto tendo a inóspita sensação de ver meu corpo de fora de mim, atravessei a janela e fintei um terreno baldio que havia próxima a casa dela.

       Era noite e as ruas estavam desertas, tendo as trevas como cenário tipicamente noturno apenas irrompido pelas luzes artificiais de postes e das janelas de casas de pessoas os quais ainda não adormeceram. Parecia voar sem asas usando os ventos como degraus de um caminhar ao céu quando um grito irrompeu o silêncio noturno fazendo-me fintar abaixo de mim. Ao contemplar o que vislumbrei era contrastante e terrífico em contraponto a sensação de liberdade única de ter minha alma (ou consciência, se preferir) voar livre pelos céus como se a gravidade invertesse e me convidasse a subir até o paraíso como nos relatos de pós morte.

        Porém, agora senti a sensação angustiante de uma empatia que me fazia sentir a dor de algo que proferira o grito e ao olhar pra baixo, sob o terreno baldio pude presenciar uma mulher agora sufocada com pano em sua boca para ser violada por dois homens que nutriam um prazer doentio num sexo a força, vulgo estupro.

        Paralisei nos céus angustiado com a cena terrível que se desvelou ante mim numa visão que não usava olhos na concepção material, mas que talvez justificasse a glândula pineal em sua hiperatividade nesse estado. Aterrorizado tentei dizer algo, mas sem boca para falar relutei de modo que por empatia aquele quase sonho se tornou pesadelo como se a vítima daquele crime hediondo e profano fosse algum conhecido próximo de mim. Desci ferozmente em direção aos captores da vítima, todavia parecia apenas transpassar seus corpos de modo que meus chutes e socos eram inúteis. A agonia perdurou por longos minutos até que subitamente senti-me puxado por algo que me atraia de volta para a casa de Roberta Conrad, uma âncora que se tornou meu corpo ao gradualmente despertar.

      (continua…)

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      Doravante por demais tentado a utilizar-se do fármaco infame e discutido agora por todas religiões mediante suas óbvias implicações aquilo parece ter levado a um aumento exponencial de membros de igrejas das mais variadas como se atestasse a justificativa da fé. Assim naquele dia deitei-me num leito confortavelmente ao lado de minha amiga Roberta e relaxei após inserir uma cápsula da droga. Respirei fundo e fechei os olhos sob os sussurros da doce voz de minha amiga de viagem e sob a trilha sonora de Pinky Floyd.

      Inicialmente não senti nada a não ser a expectativa gerada pelo uso da droga ainda aquém de seus efeitos até que repentinamente me sobreveio uma sonolência pesada, mas nada diferente do que era normal, mas apenas aparentemente. Tão logo uma profusão de imagens difusas me sobreveio até que vi Roberta Conrad sentada diante de mim no tapete. Ele contava no relógio o tempo suposto do efeito da droga quando então levantou-se e pegou um maço de cartas de baralho. Ela os misturou e misturou até tirar uma carta ajeitando com graciosidade seus cabelos encaracolados e me mostrou adormecido um As de Kopas. A seguir a jovem na maior cara de pau trocou de roupa na minha frente vestindo um top azul. Ela sorria como tudo não passasse de uma brincadeira adolescente ainda meia descrente naquilo tudo, todavia enquanto me projetava pelo quarto tendo a inóspita sensação de ver meu corpo de fora de mim, atravessei a janela e fintei um terreno baldio que havia próxima a casa dela.

       Era noite e as ruas estavam desertas, tendo as trevas como cenário tipicamente noturno apenas irrompido pelas luzes artificiais de postes e das janelas de casas de pessoas os quais ainda não adormeceram. Parecia voar sem asas usando os ventos como degraus de um caminhar ao céu quando um grito irrompeu o silêncio noturno fazendo-me fintar abaixo de mim. Ao contemplar o que vislumbrei era contrastante e terrífico em contraponto a sensação de liberdade única de ter minha alma (ou consciência, se preferir) voar livre pelos céus como se a gravidade invertesse e me convidasse a subir até o paraíso como nos relatos de pós morte.

        Porém, agora senti a sensação angustiante de uma empatia que me fazia sentir a dor de algo que proferira o grito e ao olhar pra baixo, sob o terreno baldio pude presenciar uma mulher agora sufocada com pano em sua boca para ser violada por dois homens que nutriam um prazer doentio num sexo a força, vulgo estupro.

        Paralisei nos céus angustiado com a cena terrível que se desvelou ante mim numa visão que não usava olhos na concepção material, mas que talvez justificasse a glândula pineal em sua hiperatividade nesse estado. Aterrorizado tentei dizer algo, mas sem boca para falar relutei de modo que por empatia aquele quase sonho se tornou pesadelo como se a vítima daquele crime hediondo e profano fosse algum conhecido próximo de mim. Desci ferozmente em direção aos captores da vítima, todavia parecia apenas transpassar seus corpos de modo que meus chutes e socos eram inúteis. A agonia perdurou por longos minutos até que subitamente senti-me puxado por algo que me atraia de volta para a casa de Roberta Conrad, uma âncora que se tornou meu corpo ao gradualmente despertar.

      (continua…)

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