Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gisele Honorato
Gisele Honorato, 34 anos, nasceu em Vila Velha no Espírito Santo e participou de várias coletâneas literárias, sendo as mais recentes:
Ultra Rômanticos, Góticos & Trágicos Poemas (2020) pela Dark Books;
Sangue e Água Benta (2020) pelo Grupo Editorial Quimera;
Noites Arcanas (2020) pela Dríade Editora;
A Maldição da Lua Cheia (2021) pela Cartola Editora e
Witch (2021) pela Amazon pela Come in Handy.










Celeste

O mundo não é mais o mesmo, os humanos são somente fonte de ali-mento para os vampiros. Por tanto tempo acreditamos que eles não exis-tiam e que não passavam de histórias inventadas por mentes loucas ou brilhantes, dependendo do ponto de vista de quem gostava das histórias ou não. Eu descobri a triste verdade há cinco anos quando eles resolveram nos subjugar, naquela noite milhões pereceram, meu pai foi um deles. Minha mãe foi poupada por estar grávida de minha irmã e eu por ser nova ainda.

Naquele dia o por do sol foi diferente, as cores e as luzes foram sugadas, uma nevoa cinza cobriu tudo. As linhas e os contornos das construções se embaralharam com as sombras, tornando tudo confuso e assustador. Uma aura de medo e assombro caiu sobre nós.

Ao anoitecer eles chegaram, matando e caçando, só poupando alguns poucos para garantir seu alimento futuro.

Hoje sei que naquele momento a morte foi um fim gentil, pois o cativeiro foi um tormento pior do que se passou naquela noite, mas hoje essa rea-lidade muda. – Por favor… Minha irmã chora e se agarra a mim. Ela sabe que no momento em que eu for nunca mais me verá. Sei que ela logo terá um fim igual ao meu, ao menos eu torço por isso. Melhor do que ser levada para as salas de re-produção… Sou lavada e esfregada com violência, mas pouco me importo, só quero que tudo acabe logo. Você deve estar se perguntando o porquê disso né? Deixa eu te explicar melhor. Eu vivo num local onde milhares de mulheres e crianças dormem e se alimentam juntas aguardando o momento de serem levadas para servi-rem como alimento ou como reprodutoras. Sim, somos abatidas ou estu-pradas, e ninguém quer gerar um filho para viver nessas condições. Vive-mos amontoadas, somos alimentadas regularmente e inspecionadas após cada refeição, pois os doentes devem ser eliminados prontamente. Hoje fui à escolhida para ser “servida”, sou encaminhada para o banho de forma bruta, mas nem era preciso tamanha hostilidade, abraço meu

fim como se fosse um bálsamo. Só me entristeço por deixar minha irmã, mas sei que após mais alguns anos nesse confinamento a levará ao mesmo fim que o meu, isso se ela não for descartada por causa de al-guma doença. Sou vendada e caminho por um corredor frio, escuto vozes indistintas, sei que são eles ansiosos pelo meu sangue. Paro após subir alguns de-graus. Algo é sussurrado e sinto a primeira mordida no meu pulso direito, logo após sinto outras em várias partes do corpo, após passar a dor inicial sinto meu corpo leve, pareço flutuar e me deixo levar por essa sensação. *** O meu corpo foi descartado após eles se saciarem com meu sangue. Descartado sem cuidado ou preocupação igual a inúmeros outros antes de mim. Porque eu sou diferente e aconteceu o que vou lhes contar agora eu não sei. *** Eu acordei com frio e sem entender aonde me encontrava. Cada músculo do meu corpo doía, uma sede e fome imensas me consumiam por dentro. Minha garganta estava tão seca que tenho certeza de que se emitisse al-gum som ela se rasgaria. Depois de um bom tempo tentando entender o que acontecia, minhas memórias voltaram com força e uma raiva desco-munal se apoderou de mim. Senti meu corpo revigorado e consegui sair daquela vala onde fui descartada sem dó ou cuidado. Me encontrava nua, mas pouco me importava com isso. Só queria matar cada um daqueles vampiros. Ao sair percebi que a noite não era mais a mesma, havia adquirido certa luminosidade aos meus olhos, cheiros diferentes chegavam até a mim. Senti cheiro de metal e o segui, uma arma seria necessária para o que pretendia fazer. Encontrei um machado e um sobretudo com capuz de tecido grosseiro, o vesti e peguei o machado. Segui até o galpão onde vivi por anos presa e com um único golpe colo-

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Gisele Honorato
Celeste

O mundo não é mais o mesmo, os humanos são somente fonte de ali-mento para os vampiros. Por tanto tempo acreditamos que eles não exis-tiam e que não passavam de histórias inventadas por mentes loucas ou brilhantes, dependendo do ponto de vista de quem gostava das histórias ou não. Eu descobri a triste verdade há cinco anos quando eles resolveram nos subjugar, naquela noite milhões pereceram, meu pai foi um deles. Minha mãe foi poupada por estar grávida de minha irmã e eu por ser nova ainda.

Naquele dia o por do sol foi diferente, as cores e as luzes foram sugadas, uma nevoa cinza cobriu tudo. As linhas e os contornos das construções se embaralharam com as sombras, tornando tudo confuso e assustador. Uma aura de medo e assombro caiu sobre nós.

Ao anoitecer eles chegaram, matando e caçando, só poupando alguns poucos para garantir seu alimento futuro.

Hoje sei que naquele momento a morte foi um fim gentil, pois o cativeiro foi um tormento pior do que se passou naquela noite, mas hoje essa rea-lidade muda. – Por favor… Minha irmã chora e se agarra a mim. Ela sabe que no momento em que eu for nunca mais me verá. Sei que ela logo terá um fim igual ao meu, ao menos eu torço por isso. Melhor do que ser levada para as salas de re-produção… Sou lavada e esfregada com violência, mas pouco me importo, só quero que tudo acabe logo. Você deve estar se perguntando o porquê disso né? Deixa eu te explicar melhor. Eu vivo num local onde milhares de mulheres e crianças dormem e se alimentam juntas aguardando o momento de serem levadas para servi-rem como alimento ou como reprodutoras. Sim, somos abatidas ou estu-pradas, e ninguém quer gerar um filho para viver nessas condições. Vive-mos amontoadas, somos alimentadas regularmente e inspecionadas após cada refeição, pois os doentes devem ser eliminados prontamente. Hoje fui à escolhida para ser “servida”, sou encaminhada para o banho de forma bruta, mas nem era preciso tamanha hostilidade, abraço meu

fim como se fosse um bálsamo. Só me entristeço por deixar minha irmã, mas sei que após mais alguns anos nesse confinamento a levará ao mesmo fim que o meu, isso se ela não for descartada por causa de al-guma doença. Sou vendada e caminho por um corredor frio, escuto vozes indistintas, sei que são eles ansiosos pelo meu sangue. Paro após subir alguns de-graus. Algo é sussurrado e sinto a primeira mordida no meu pulso direito, logo após sinto outras em várias partes do corpo, após passar a dor inicial sinto meu corpo leve, pareço flutuar e me deixo levar por essa sensação. *** O meu corpo foi descartado após eles se saciarem com meu sangue. Descartado sem cuidado ou preocupação igual a inúmeros outros antes de mim. Porque eu sou diferente e aconteceu o que vou lhes contar agora eu não sei. *** Eu acordei com frio e sem entender aonde me encontrava. Cada músculo do meu corpo doía, uma sede e fome imensas me consumiam por dentro. Minha garganta estava tão seca que tenho certeza de que se emitisse al-gum som ela se rasgaria. Depois de um bom tempo tentando entender o que acontecia, minhas memórias voltaram com força e uma raiva desco-munal se apoderou de mim. Senti meu corpo revigorado e consegui sair daquela vala onde fui descartada sem dó ou cuidado. Me encontrava nua, mas pouco me importava com isso. Só queria matar cada um daqueles vampiros. Ao sair percebi que a noite não era mais a mesma, havia adquirido certa luminosidade aos meus olhos, cheiros diferentes chegavam até a mim. Senti cheiro de metal e o segui, uma arma seria necessária para o que pretendia fazer. Encontrei um machado e um sobretudo com capuz de tecido grosseiro, o vesti e peguei o machado. Segui até o galpão onde vivi por anos presa e com um único golpe colo-

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