Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gisele Honorato
Gisele Honorato, 34 anos, nasceu em Vila Velha no Espírito Santo e participou de várias coletâneas literárias, sendo as mais recentes:
Ultra Rômanticos, Góticos & Trágicos Poemas (2020) pela Dark Books;
Sangue e Água Benta (2020) pelo Grupo Editorial Quimera;
Noites Arcanas (2020) pela Dríade Editora;
A Maldição da Lua Cheia (2021) pela Cartola Editora e
Witch (2021) pela Amazon pela Come in Handy.










O nascimento de uma bruxa.

Ela era a mais velha, a única mulher entre seis homens. Pensa se que era a mais amada e protegida, mas a realidade é o contrario. Era a mais castigada e repudiada de todos, dizem as más línguas que foi concebida fora do leito matrimonial, talvez por isso sua mãe a odiava e castigava tanto. Ela não se lembra de ter ouvido alguma palavra de afeto ou agradecimento, somente palavras brutas. Sua mãe nunca a amou. Nem mesmo quando seu pai morreu e seus seis irmãos a colocaram para fora de casa sem nada. Essa foi uma época difícil, ela não o nega. Seu pai a tratava com gentileza, apesar das historias sobre seu nascimento. Ela não sabe se são verdadeiras e nunca quis perguntar a única pessoa que a tratava com gentileza sobre isso. Pois temia perder a única fonte de carinho, por mais singelo que fosse. Quando se casou achou que iria viver longe de toda magoa e tristeza do passado, ainda mais que recebeu a graça de conceber o tão sonhado filho e o destino quis que seu marido fosse um homem caridoso e bondoso. Fazendo a conhecer o conforto do amor. Mas sua alegria não durou muito. Seu mundo se despedaçou pela primeira vez quando seu pai morreu. Ela acolheu a mãe a pedido do marido. Um homem bom que dizia que as duas deviam se acertar, pois essa era a vontade de Deus. E deveriam esquecer as desavenças e magoas do passado. Não importando quão duras tenham sido as desavenças. A peste chegou meses depois. E junto com ela uma aura de medo. Ninguém sobrevivia à peste. E ela não fazia distinção entre, homem, mulher, criança, idosos, ricos ou pobres. Todos eram levados de igual maneira. E o medo assolava a cidade inteira, pois ninguém sabia mais o que fazer. As orações não surtiam efeito, medicamentos escassos. E somente esperança não curava ninguém. Seu marido foi o primeiro da casa a ficar doente. E ela viu seu mundo ruir em meio ao desespero. Sua mãe só sabia reclamar e maldizer sua vida. Tudo era motivo de desagrado. Ela não dava conta mais dos afazeres domésticos e cuidar do marido. E sua mãe não ajudava em nada. Só sabia desfiar um rosário de reclama- ções: A cama nunca estava suficientemente limpa, a sopa tinha que ser mais rala ou mais espessa. As compressas eram sempre as erradas. Ela nunca acertava quando deviam ser frias ou quentes, e mais uma infinidade de reclamações. Ela se via a beira de um precipício. Em três dias a doença o levou e sua mãe a culpava dizendo que era Deus a castigando por ser uma má filha. E o seu mundo se despedaçou mais uma vez. Ela chorava e pedia perdão a Deus. Pedia perdão por tudo, pois não sabia qual era seu erro.

Mas sabia que devia ser grave. Pois agora seu filho padecia em febre. Ela sabia que não iria conseguir viver sem sua única fonte de esperança, carinho e amor. *** Ela não sabia o que fazer mais. Há três dias ele ardia em febre, seu corpo estava cada vez mais decadente e fraco. Ela implorava aos céus pela melhora de seu filho e ele só piorava. Sua raiva e ódio só aumentavam, crescia a cada piora dele e a deixava cada vez mais descrente de tudo. Sua mãe gemia baixinho ao lado. Agradecia a Deus por não precisar ouvir mais a voz dela a maldizendo, a doença a consumia também, mas não tão rápido quanto a seu precioso garotinho. Ela trocou novamente os lençóis encharcados de suor e excrementos de seu filho. Ele já não controlava suas funções. Só ficava ali gemendo baixinho, às vezes nem tinha forças para gemer. Ele já estava tão leve que não precisava fazer esforço algum para levanta lo. Sua mãe chamou. E ela ignorou. Seu filho vinha primeiro. E ela não iria perder os momentos preciosos que tinha com seu filho para acudir a quem sempre lhe fez mal. Ela só a limpava para garantir que seu filho não ficasse em meio à imundice. Pois se não fosse isso a deixaria apodrecendo em meio à própria sujeira num canto, mas ela não deixaria seu filho passar por isso, não agora que se encontrava tão fraco. Ela respirou fundo e foi cuidar de sua progenitora, que nada mais fez do que coloca lá no mundo. Ela a limpou e alimentou de forma mecânica. Não demonstrava um pingo de carinho, não o recebeu em momento algum de sua vida, como o daria agora? Foi ver seu filho e descobriu que ele se fora enquanto perdia seu tempo nos cuidados daquela que só lhe fez sofrer, daquela que só soube lhe tirar tudo, inclusive o último momento de sua amada cria. Ela chorou. Implorou por mais um segundo. Por mais um beijo. Por mais um gemido ao menos. Mas tudo foi em vão. Seus pedidos não foram aten didos. A raiva a consumiu de vez. E ela se entregou ao desespero. Chorou, arrancou os cabelos e se entregou completamente a dor. E em meio à dor e a raiva ela culpou sua mãe por tudo! Sim! Tudo culpa dela, que não a amou, não lhe deu carinho, afeto ou uma palavra branda. Culpou-a por tudo! Por ter nascido, por ter sofrido e por ter perdido o que de mais precioso tinha, seu único filho! Culpou-a por não ter visto seu ultimo suspiro, por não ver a luz daqueles lindos olhos de apagarem, por não poder se despedir. E num acesso de fúria ela foi até sua mãe e sussurrou em seu ouvido com toda a raiva que existia dentro de si:

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Gisele Honorato
O nascimento de uma bruxa.

Ela era a mais velha, a única mulher entre seis homens. Pensa se que era a mais amada e protegida, mas a realidade é o contrario. Era a mais castigada e repudiada de todos, dizem as más línguas que foi concebida fora do leito matrimonial, talvez por isso sua mãe a odiava e castigava tanto. Ela não se lembra de ter ouvido alguma palavra de afeto ou agradecimento, somente palavras brutas. Sua mãe nunca a amou. Nem mesmo quando seu pai morreu e seus seis irmãos a colocaram para fora de casa sem nada. Essa foi uma época difícil, ela não o nega. Seu pai a tratava com gentileza, apesar das historias sobre seu nascimento. Ela não sabe se são verdadeiras e nunca quis perguntar a única pessoa que a tratava com gentileza sobre isso. Pois temia perder a única fonte de carinho, por mais singelo que fosse. Quando se casou achou que iria viver longe de toda magoa e tristeza do passado, ainda mais que recebeu a graça de conceber o tão sonhado filho e o destino quis que seu marido fosse um homem caridoso e bondoso. Fazendo a conhecer o conforto do amor. Mas sua alegria não durou muito. Seu mundo se despedaçou pela primeira vez quando seu pai morreu. Ela acolheu a mãe a pedido do marido. Um homem bom que dizia que as duas deviam se acertar, pois essa era a vontade de Deus. E deveriam esquecer as desavenças e magoas do passado. Não importando quão duras tenham sido as desavenças. A peste chegou meses depois. E junto com ela uma aura de medo. Ninguém sobrevivia à peste. E ela não fazia distinção entre, homem, mulher, criança, idosos, ricos ou pobres. Todos eram levados de igual maneira. E o medo assolava a cidade inteira, pois ninguém sabia mais o que fazer. As orações não surtiam efeito, medicamentos escassos. E somente esperança não curava ninguém. Seu marido foi o primeiro da casa a ficar doente. E ela viu seu mundo ruir em meio ao desespero. Sua mãe só sabia reclamar e maldizer sua vida. Tudo era motivo de desagrado. Ela não dava conta mais dos afazeres domésticos e cuidar do marido. E sua mãe não ajudava em nada. Só sabia desfiar um rosário de reclama- ções: A cama nunca estava suficientemente limpa, a sopa tinha que ser mais rala ou mais espessa. As compressas eram sempre as erradas. Ela nunca acertava quando deviam ser frias ou quentes, e mais uma infinidade de reclamações. Ela se via a beira de um precipício. Em três dias a doença o levou e sua mãe a culpava dizendo que era Deus a castigando por ser uma má filha. E o seu mundo se despedaçou mais uma vez. Ela chorava e pedia perdão a Deus. Pedia perdão por tudo, pois não sabia qual era seu erro.

Mas sabia que devia ser grave. Pois agora seu filho padecia em febre. Ela sabia que não iria conseguir viver sem sua única fonte de esperança, carinho e amor. *** Ela não sabia o que fazer mais. Há três dias ele ardia em febre, seu corpo estava cada vez mais decadente e fraco. Ela implorava aos céus pela melhora de seu filho e ele só piorava. Sua raiva e ódio só aumentavam, crescia a cada piora dele e a deixava cada vez mais descrente de tudo. Sua mãe gemia baixinho ao lado. Agradecia a Deus por não precisar ouvir mais a voz dela a maldizendo, a doença a consumia também, mas não tão rápido quanto a seu precioso garotinho. Ela trocou novamente os lençóis encharcados de suor e excrementos de seu filho. Ele já não controlava suas funções. Só ficava ali gemendo baixinho, às vezes nem tinha forças para gemer. Ele já estava tão leve que não precisava fazer esforço algum para levanta lo. Sua mãe chamou. E ela ignorou. Seu filho vinha primeiro. E ela não iria perder os momentos preciosos que tinha com seu filho para acudir a quem sempre lhe fez mal. Ela só a limpava para garantir que seu filho não ficasse em meio à imundice. Pois se não fosse isso a deixaria apodrecendo em meio à própria sujeira num canto, mas ela não deixaria seu filho passar por isso, não agora que se encontrava tão fraco. Ela respirou fundo e foi cuidar de sua progenitora, que nada mais fez do que coloca lá no mundo. Ela a limpou e alimentou de forma mecânica. Não demonstrava um pingo de carinho, não o recebeu em momento algum de sua vida, como o daria agora? Foi ver seu filho e descobriu que ele se fora enquanto perdia seu tempo nos cuidados daquela que só lhe fez sofrer, daquela que só soube lhe tirar tudo, inclusive o último momento de sua amada cria. Ela chorou. Implorou por mais um segundo. Por mais um beijo. Por mais um gemido ao menos. Mas tudo foi em vão. Seus pedidos não foram aten didos. A raiva a consumiu de vez. E ela se entregou ao desespero. Chorou, arrancou os cabelos e se entregou completamente a dor. E em meio à dor e a raiva ela culpou sua mãe por tudo! Sim! Tudo culpa dela, que não a amou, não lhe deu carinho, afeto ou uma palavra branda. Culpou-a por tudo! Por ter nascido, por ter sofrido e por ter perdido o que de mais precioso tinha, seu único filho! Culpou-a por não ter visto seu ultimo suspiro, por não ver a luz daqueles lindos olhos de apagarem, por não poder se despedir. E num acesso de fúria ela foi até sua mãe e sussurrou em seu ouvido com toda a raiva que existia dentro de si:

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