Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Glau Kemp
Escritora de terror, suspense e mais o que der vontade, que não tem medo do escuro, mas, às vezes, fecha os olhos quando vai ao banheiro de madrugada. Colunista nos sites Boca do inferno e Iluminerds e editora da revista Amazing. Gosta de se aventurar em outros gêneros, fazer roteiro de quadrinhos e participar de antologias. Publica livros e contos no Wattpad e na Amazon e ama o contato com leitores. Em resumo, só uma garota que sonha com bibliotecas.





Veneno em brasas

 III – Medo

          Carlos tentava se levantar e escorregava no próprio vômito. Várias serpentes batiam no basculante do banheiro, ele não compreendia como, mas seus corpos se chocavam contra o vidro como se fossem pedras atiradas. De repente o vidro trincou e o desespero o fez gritar, a febril ecoou pela casa vazia e voltou para os ouvidos de Carlos. Estava sozinho. Engatinhou até a porta e quando colocou a mão na maçaneta gritou mais uma vez. O metal incandescente lhe queimava.

          O cheiro de carne humana queimada lhe trazia a pior lembrança, o assassinato do pai por uma dívida de jogo. O homem foi queimado vivo e Carlos presenciou seus últimos minutos, o pai andou em sua direção com o braço estendido, a boca aberta sem lábios chiando junto com o som do fogo consumindo sua carne. Mas o pior era o cheiro que invadia suas narinas, o mesmo que agora o trazia de volta para a realidade, bem pior do que a lembrança macabra.

          O som dos vidros se quebrando atraiu seu olhar, uma grande serpente vermelha com os olhos amarelos e expressivos, quase humanos, se arrastava na direção dele. Cerca de dois metros do corpo da cobra já passavam pelo buraco e parecia que mais da metade ainda estava do lado de fora. Os cacos de vidro ainda presos ao basculante fazias veios de sangue no corpo da cobra que abriu a boca e exibiu uma língua comprida e humana.

          Com uma toalha, Carlos agarrou a maçaneta e abriu a porta, o corredor estava repleto de fumaça e fogo descia do teto começando a consumir as paredes, lambendo as fotos de família e quadros baratos com moldura de papelão. E no final do corredor, entre Carlos e a porta da frente, estava um homem queimado. Por mais que pensasse no pai, sentia que não era ele, porque a criatura era do mal, seu olhar dizia isso, a boca esticada exibindo um sorriso permanente. Maligno.

          Faltavam dez minutos para as três, o pequeno cronômetro no canto do relógio digital contava os segundos. Carlos se arrastou para a porta da cozinha, a fumaça queimava os olhos, mas não podia permanecer tempo demais com ele fechado. Porque a morte aparecia e tocava seu corpo com dedos ressequidos e quentes. A cada passo as pernas formigam quase insensíveis aos seus comandos. Trôpego, conseguiu vencer a fumaça e ganhar a noite fresca, estava a poucos metros da praia e o tempo se esgotava.

          O homem se encontrava a um mergulho da salvação, depois disso sua vida seria recheada de alegrias e riquezas. Passou pelo buraco onde o gato foi enterrado e sentiu um calafrio ao se recordar como o bicho sofreu durante os três dias. O estômago revirou mais uma vez, contudo foi diferente, ao invés do líquido espesso algo sólido queria sair. Forçava passagem. O pescador enfiou a mão garganta para puxar aquilo que lhe roubava o ar. Sim, estava morrendo. A visão escurecia e nenhum oxigênio passava.

          O maligno se aproximava com a cobra vermelha enrolada em seu corpo. A cabeça achatada no ombro direito balançando suavemente de um lado para o outro. O corpo em chamas deixava pegadas de fogo e Carlos chorava não só pela visão de seus medos materializados em uma abominação, chorava também pela falta de ar. Estava morrendo.

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Glau Kemp
Veneno em brasas

 III – Medo

          Carlos tentava se levantar e escorregava no próprio vômito. Várias serpentes batiam no basculante do banheiro, ele não compreendia como, mas seus corpos se chocavam contra o vidro como se fossem pedras atiradas. De repente o vidro trincou e o desespero o fez gritar, a febril ecoou pela casa vazia e voltou para os ouvidos de Carlos. Estava sozinho. Engatinhou até a porta e quando colocou a mão na maçaneta gritou mais uma vez. O metal incandescente lhe queimava.

          O cheiro de carne humana queimada lhe trazia a pior lembrança, o assassinato do pai por uma dívida de jogo. O homem foi queimado vivo e Carlos presenciou seus últimos minutos, o pai andou em sua direção com o braço estendido, a boca aberta sem lábios chiando junto com o som do fogo consumindo sua carne. Mas o pior era o cheiro que invadia suas narinas, o mesmo que agora o trazia de volta para a realidade, bem pior do que a lembrança macabra.

          O som dos vidros se quebrando atraiu seu olhar, uma grande serpente vermelha com os olhos amarelos e expressivos, quase humanos, se arrastava na direção dele. Cerca de dois metros do corpo da cobra já passavam pelo buraco e parecia que mais da metade ainda estava do lado de fora. Os cacos de vidro ainda presos ao basculante fazias veios de sangue no corpo da cobra que abriu a boca e exibiu uma língua comprida e humana.

          Com uma toalha, Carlos agarrou a maçaneta e abriu a porta, o corredor estava repleto de fumaça e fogo descia do teto começando a consumir as paredes, lambendo as fotos de família e quadros baratos com moldura de papelão. E no final do corredor, entre Carlos e a porta da frente, estava um homem queimado. Por mais que pensasse no pai, sentia que não era ele, porque a criatura era do mal, seu olhar dizia isso, a boca esticada exibindo um sorriso permanente. Maligno.

          Faltavam dez minutos para as três, o pequeno cronômetro no canto do relógio digital contava os segundos. Carlos se arrastou para a porta da cozinha, a fumaça queimava os olhos, mas não podia permanecer tempo demais com ele fechado. Porque a morte aparecia e tocava seu corpo com dedos ressequidos e quentes. A cada passo as pernas formigam quase insensíveis aos seus comandos. Trôpego, conseguiu vencer a fumaça e ganhar a noite fresca, estava a poucos metros da praia e o tempo se esgotava.

          O homem se encontrava a um mergulho da salvação, depois disso sua vida seria recheada de alegrias e riquezas. Passou pelo buraco onde o gato foi enterrado e sentiu um calafrio ao se recordar como o bicho sofreu durante os três dias. O estômago revirou mais uma vez, contudo foi diferente, ao invés do líquido espesso algo sólido queria sair. Forçava passagem. O pescador enfiou a mão garganta para puxar aquilo que lhe roubava o ar. Sim, estava morrendo. A visão escurecia e nenhum oxigênio passava.

          O maligno se aproximava com a cobra vermelha enrolada em seu corpo. A cabeça achatada no ombro direito balançando suavemente de um lado para o outro. O corpo em chamas deixava pegadas de fogo e Carlos chorava não só pela visão de seus medos materializados em uma abominação, chorava também pela falta de ar. Estava morrendo.

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