Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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E lá está ele

Até então, sua presença era apenas coincidência. Nosso próximo encontro aconteceu dois meses depois, se bem me recordo. Na época também me pareceu coincidência, sempre parece. Esses detalhes passam despercebidos, até ser tarde demais. Eu nunca fui de acreditar em nada que não pudesse explicar. Para mim, coincidências existiam e ponto. Qualquer tentativa de encontrar ligações entre coisas que não possuíam relação factual era desperdício de tempo, como nas vezes em que pensava na minha mulher e ela me ligava, ou quando o contrário acontecia e ela se surpreendia com tamanha coincidência. O corvo, bem, o corvo era somente isso, uma eventualidade. Ele ainda era “um”, e não “o”.

Eu e minha esposa Aurora estávamos de férias, viajando pela Europa, bem longe de casa. Você imagina que todo mundo no Europa fala inglês — pelo menos eu tinha essa visão — até descobrir que ser fluente em mímica é mais importante. Naquele dia passeávamos em Praga, na Republica Tcheca, cidade maravilhosa. Fizemos uma parada num famoso café ao ar livre de frente para o rio Moldava, próximo à ponte Mánes. A brisa que vinha do rio batia em nosso rosto como um alívio para uma manhã de caminhada e fotos em pontos turísticos. Minha esposa sentou de costas para o rio, já que no avião entre Munique e Praga quis sentar na janela. Eu negociei a troca da vista do avião pela do café. Ela riu, disse que preferia ver o mundo de cima.

E lá estava ele, pousado nos fios de iluminação da ponte Mánes. Naquele dia poderia ser um corvo, mas hoje sei que era ele. Me observava, enquanto eu ria com Aurora de alguma coisa que ela disse. Acho que falava do turista asiático que vestia uma camisa florida parecida com as que o Sílvio Santos aparece nos sites de fofoca. O corvo voou, e eu acompanhei seu voo com os olhos enquanto sorvia um gole de café, e então, vislumbrei o avião. Ele parecia tão próximo. Tão próximo. Próximo demais. Nos filmes essas cenas acontecem em câmera lenta, e talvez tivesse a ilusão de que na vida real seria assim, mas tudo aconteceu numa questão de segundos. Num instante o avião parecia apenas próximo demais, e no seguinte, eu, Aurora e todos aqueles que aproveitavam a vista estávamos encharcados. As duas metades do avião afundaram devagar e nós nos empoleiramos na sacada do café sem saber o que fazer. Notei que mais adiante no fluxo do rio dois barcos viraram. E os corpos começaram a boiar. E lá estava ele, pousado em uma garotinha virada de barriga para baixo, olhando para mim e zombando da minha ignorância por não notar sua presença até que fosse tarde demais.

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Gustavo Lopes
E lá está ele

Até então, sua presença era apenas coincidência. Nosso próximo encontro aconteceu dois meses depois, se bem me recordo. Na época também me pareceu coincidência, sempre parece. Esses detalhes passam despercebidos, até ser tarde demais. Eu nunca fui de acreditar em nada que não pudesse explicar. Para mim, coincidências existiam e ponto. Qualquer tentativa de encontrar ligações entre coisas que não possuíam relação factual era desperdício de tempo, como nas vezes em que pensava na minha mulher e ela me ligava, ou quando o contrário acontecia e ela se surpreendia com tamanha coincidência. O corvo, bem, o corvo era somente isso, uma eventualidade. Ele ainda era “um”, e não “o”.

Eu e minha esposa Aurora estávamos de férias, viajando pela Europa, bem longe de casa. Você imagina que todo mundo no Europa fala inglês — pelo menos eu tinha essa visão — até descobrir que ser fluente em mímica é mais importante. Naquele dia passeávamos em Praga, na Republica Tcheca, cidade maravilhosa. Fizemos uma parada num famoso café ao ar livre de frente para o rio Moldava, próximo à ponte Mánes. A brisa que vinha do rio batia em nosso rosto como um alívio para uma manhã de caminhada e fotos em pontos turísticos. Minha esposa sentou de costas para o rio, já que no avião entre Munique e Praga quis sentar na janela. Eu negociei a troca da vista do avião pela do café. Ela riu, disse que preferia ver o mundo de cima.

E lá estava ele, pousado nos fios de iluminação da ponte Mánes. Naquele dia poderia ser um corvo, mas hoje sei que era ele. Me observava, enquanto eu ria com Aurora de alguma coisa que ela disse. Acho que falava do turista asiático que vestia uma camisa florida parecida com as que o Sílvio Santos aparece nos sites de fofoca. O corvo voou, e eu acompanhei seu voo com os olhos enquanto sorvia um gole de café, e então, vislumbrei o avião. Ele parecia tão próximo. Tão próximo. Próximo demais. Nos filmes essas cenas acontecem em câmera lenta, e talvez tivesse a ilusão de que na vida real seria assim, mas tudo aconteceu numa questão de segundos. Num instante o avião parecia apenas próximo demais, e no seguinte, eu, Aurora e todos aqueles que aproveitavam a vista estávamos encharcados. As duas metades do avião afundaram devagar e nós nos empoleiramos na sacada do café sem saber o que fazer. Notei que mais adiante no fluxo do rio dois barcos viraram. E os corpos começaram a boiar. E lá estava ele, pousado em uma garotinha virada de barriga para baixo, olhando para mim e zombando da minha ignorância por não notar sua presença até que fosse tarde demais.

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