Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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E lá está ele

O motivo do acidente nunca foi descoberto. O corvo ficou em minha memória, novamente, não pelo fato de estar lá me encarando, mas porque foi só por olhar em sua direção que avistei o avião. Mas era mais uma eventualidade. Eu nem me dei ao trabalho de ligar os pontos. Até que o corvo, ou o que quer que ele seja, resolveu ser mais incisivo, mostrar que não havia coincidência, eventualidade ou qualquer nome que eu desse para isso, pelo menos não na sua presença.

Praga era a última parada da nossa viagem. A queda do avião nos deixou receosos de viajar, mas a passagem estava comprada e nossas férias acabando. Aurora apertava minha mão ao menor sinal de turbulência, e eu o braço da cadeira, para não revelar que também me cagava de medo.

— Minha linda, vai ficar tudo bem. — Quem não gosta de ouvir uma doce mentira, não é mesmo?

O tempo não passava. Aurora dormia sob efeito de um remédio para enjoo e eu assisti uns três filmes, sendo que pelo menos um deles era repetido. Meu sogro nos esperava no aeroporto. Acredito que ele estava tão tenso quanto nós a dez mil pés. Não planejávamos contar a ele sobre o que ocorreu em Praga até estarmos seguros em casa. Sabíamos que ficaria preocupado e ansioso, mas e como ficou, depois de ouvir sobre a queda do avião no rádio. Só a ligação no Skype para recontar o que aconteceu levou umas três horas. Também deve ter sido um alívio tão grande para ele quanto para nós quando chegamos à área de desembarque com nossas malas. Ele nos recebeu com um abraço apertado e os olhos marejados.

Meu sogro gostava de carros do tipo que cabiam umas três pessoas só no porta-malas. A família não era grande, mas ele dizia que se sentia mais seguro em carros maiores. No estacionamento, eu e Aurora fomos surpreendidos pelo velho. Enquanto estávamos fora, ele trocou de carro, comprou um SUV invocado, vermelho com detalhes em preto, ainda tinha aquele cheiro de carro novo e plástico nos bancos traseiros. Ele parecia uma criança querendo nos mostrar cada detalhe do seu novo brinquedo, mas também não parava de perguntar sobre nossas aventuras. Colocamos nossas malas no carro, minha esposa sentou no banco do passageiro e eu logo atrás, segurando sua mão no apoio do centro. Na saída do aeroporto, gargalhávamos relembrando o turista asiático que nos acompanhou por Munique, pedindo para tirar fotos e falando com um inglês engraçadinho, quando um caminhão surgiu pela esquerda, tão rápido quanto o avião. Só me lembro de ver o mundo girar e girar, pontadas, pancadas, cacos de vidro, sons abafados, uma sequência de flashes, e então, tudo parou. A última e única imagem que vi antes de desmaiar era nítida, vívida. Não parecia um sonho. Era uma memória real. Lá estava ele, pousado no fio, com seu bico apontando para mim como uma seta.

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Gustavo Lopes
E lá está ele

O motivo do acidente nunca foi descoberto. O corvo ficou em minha memória, novamente, não pelo fato de estar lá me encarando, mas porque foi só por olhar em sua direção que avistei o avião. Mas era mais uma eventualidade. Eu nem me dei ao trabalho de ligar os pontos. Até que o corvo, ou o que quer que ele seja, resolveu ser mais incisivo, mostrar que não havia coincidência, eventualidade ou qualquer nome que eu desse para isso, pelo menos não na sua presença.

Praga era a última parada da nossa viagem. A queda do avião nos deixou receosos de viajar, mas a passagem estava comprada e nossas férias acabando. Aurora apertava minha mão ao menor sinal de turbulência, e eu o braço da cadeira, para não revelar que também me cagava de medo.

— Minha linda, vai ficar tudo bem. — Quem não gosta de ouvir uma doce mentira, não é mesmo?

O tempo não passava. Aurora dormia sob efeito de um remédio para enjoo e eu assisti uns três filmes, sendo que pelo menos um deles era repetido. Meu sogro nos esperava no aeroporto. Acredito que ele estava tão tenso quanto nós a dez mil pés. Não planejávamos contar a ele sobre o que ocorreu em Praga até estarmos seguros em casa. Sabíamos que ficaria preocupado e ansioso, mas e como ficou, depois de ouvir sobre a queda do avião no rádio. Só a ligação no Skype para recontar o que aconteceu levou umas três horas. Também deve ter sido um alívio tão grande para ele quanto para nós quando chegamos à área de desembarque com nossas malas. Ele nos recebeu com um abraço apertado e os olhos marejados.

Meu sogro gostava de carros do tipo que cabiam umas três pessoas só no porta-malas. A família não era grande, mas ele dizia que se sentia mais seguro em carros maiores. No estacionamento, eu e Aurora fomos surpreendidos pelo velho. Enquanto estávamos fora, ele trocou de carro, comprou um SUV invocado, vermelho com detalhes em preto, ainda tinha aquele cheiro de carro novo e plástico nos bancos traseiros. Ele parecia uma criança querendo nos mostrar cada detalhe do seu novo brinquedo, mas também não parava de perguntar sobre nossas aventuras. Colocamos nossas malas no carro, minha esposa sentou no banco do passageiro e eu logo atrás, segurando sua mão no apoio do centro. Na saída do aeroporto, gargalhávamos relembrando o turista asiático que nos acompanhou por Munique, pedindo para tirar fotos e falando com um inglês engraçadinho, quando um caminhão surgiu pela esquerda, tão rápido quanto o avião. Só me lembro de ver o mundo girar e girar, pontadas, pancadas, cacos de vidro, sons abafados, uma sequência de flashes, e então, tudo parou. A última e única imagem que vi antes de desmaiar era nítida, vívida. Não parecia um sonho. Era uma memória real. Lá estava ele, pousado no fio, com seu bico apontando para mim como uma seta.

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