Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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E lá está ele

A equipe médica que nos atendeu me levou para o hospital mais próximo, com algumas fraturas e escoriações. Acordei daquele sonho, com a imagem do corvo e os flashes pipocando na mente. A enfermeira e o médico entraram logo em seguida com a notícia, sem rodeios. Aurora e meu sogro morreram no local. A anestesia ainda fazia efeito, e as lágrimas não desceram. Eu só virei o rosto, e lá estava ele, no galho da árvore ao lado da janela, e ficou lá, me esperando e observando. Em dois dias eu já chorava e mancava por aí. E ele voava, ansioso para o nosso próximo encontro.

Eu passei a procurá-lo em todo canto, esperando por seu olhar de seta, um sinal, uma mensagem. Não podia ser só coincidência.

Depois de largar as muletas e tirar os pontos, me preparava para retornar ao trabalho numa manhã de segunda-feira quando percebi que lá estava ele. Tinha as penas cor-de-piche como qualquer outro corvo, mas eu soube que era ele com apenas um relance. Quando nossos olhos se encontraram, senti meu corpo queimar. Olhei para a marca rosada em formato de moeda em minha mão e vi a bolha do passado eclodindo, a pele rachando, e não somente minha mão. O fogo invisível se espalhava por todo meu corpo, a fumaça com cheiro de cabelo queimado preenchia meus pulmões. Vi meu corpo carbonizado, e perdi a consciência. Quando acordei no chão, ele não estava lá.

Telefonei para o pessoal do trabalho e pedi mais um dia de descanso. Depois me esparramei no sofá e liguei a televisão. Passei a manhã desperdiçando tempo com desenhos da minha época, tentando preencher o vazio deixado por Aurora. O plantão interrompeu o programa com a música de sempre, estourando nas caixas de som da TV, mostrando imagens de um incêndio. Um prédio. O prédio em que eu deveria estar. Na reportagem, notei alguns colegas de trabalho ao fundo, enrolados em toalhas enquanto os bombeiros apontavam suas mangueiras para os focos no primeiro andar. A repórter disse que ninguém se feriu.

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Gustavo Lopes
E lá está ele

A equipe médica que nos atendeu me levou para o hospital mais próximo, com algumas fraturas e escoriações. Acordei daquele sonho, com a imagem do corvo e os flashes pipocando na mente. A enfermeira e o médico entraram logo em seguida com a notícia, sem rodeios. Aurora e meu sogro morreram no local. A anestesia ainda fazia efeito, e as lágrimas não desceram. Eu só virei o rosto, e lá estava ele, no galho da árvore ao lado da janela, e ficou lá, me esperando e observando. Em dois dias eu já chorava e mancava por aí. E ele voava, ansioso para o nosso próximo encontro.

Eu passei a procurá-lo em todo canto, esperando por seu olhar de seta, um sinal, uma mensagem. Não podia ser só coincidência.

Depois de largar as muletas e tirar os pontos, me preparava para retornar ao trabalho numa manhã de segunda-feira quando percebi que lá estava ele. Tinha as penas cor-de-piche como qualquer outro corvo, mas eu soube que era ele com apenas um relance. Quando nossos olhos se encontraram, senti meu corpo queimar. Olhei para a marca rosada em formato de moeda em minha mão e vi a bolha do passado eclodindo, a pele rachando, e não somente minha mão. O fogo invisível se espalhava por todo meu corpo, a fumaça com cheiro de cabelo queimado preenchia meus pulmões. Vi meu corpo carbonizado, e perdi a consciência. Quando acordei no chão, ele não estava lá.

Telefonei para o pessoal do trabalho e pedi mais um dia de descanso. Depois me esparramei no sofá e liguei a televisão. Passei a manhã desperdiçando tempo com desenhos da minha época, tentando preencher o vazio deixado por Aurora. O plantão interrompeu o programa com a música de sempre, estourando nas caixas de som da TV, mostrando imagens de um incêndio. Um prédio. O prédio em que eu deveria estar. Na reportagem, notei alguns colegas de trabalho ao fundo, enrolados em toalhas enquanto os bombeiros apontavam suas mangueiras para os focos no primeiro andar. A repórter disse que ninguém se feriu.

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