Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Gustavo Lopes
Nascido em 89, em Suzano - SP, trabalho, estudo, vivo e me divido entre centenas de coisas, mas minha verdadeira paixão é a escrita. Tenho um blog de estimação onde escrevo sobre música e meus projetos inacabados. Leio quando posso e escrevo o quanto possível, sobre realidades distorcidas e talvez horrendas, que nem sempre têm um final feliz, mas que devem ser contadas. Meu primeiro livro, O Inominável, foi publicado em 2017 e está disponível gratuitamente nas plataformas Wattpad e Luvbook.
Site: gustavolopes.net.br
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A sombra que dança

– O seu monitor cardíaco tinha função de relógio?

– Sim.

– Mais alguma coisa? Celular? Joias?

– Não levo meu celular para a aula de ioga. Foi só o monitor cardíaco.

– Talvez seja uma pergunta estranha, mas você viu alguém usando relógio?

– Na velocidade que corri até agora, só consigo me concentrar no caminho. Não reparei em relógios.

– Pegaram seu monitor cardíaco, mas não pegaram suas joias. Presumo que o intuito de levarem seu monitor, assim como o meu relógio, seja impedir que vejamos as horas. Isso não faz sentido. Apesar da densidade da floresta, podemos enxergar o sol, que está se pondo. A hora é irrelevante.

– Eu já disse, não tente estabelecer uma linha de raciocínio. Você tem sorte de não ter sido tocado e talvez tenha sorte de encontrar a saída. Apenas corra enquanto está claro e descanse enquanto estiver escuro, sempre em linha reta. É a única forma de sobreviver.

– Como você sabe disso?

– Pouco depois de acordar eu conheci um homem. Ele liderava um grupo com vinte e poucas pessoas. Quando passaram por mim, ele me disse para correr e eu corri. Mais tarde contou que estava correndo há trinta e cinco escuridões, mas tinha certeza que não estava correndo há trinta e cinco dias. Corra enquanto está claro, descanse enquanto estiver escuro, sempre em linha reta. É a única forma de sobreviver, ele repetia.

– Meu Deus… Trinta e cinco dias…

– Ele também disse para correr da sombra que dança, sem olhar para trás. O primeiro toque da sombra te marca. O segundo te engole. Ela surge quando os primeiros raios de sol adentram a floresta, como uma onda gigantesca cuja forma só pode ser enxergada por aqueles que foram tocados, e nada mais faz sentido, além de correr. Por isso, te digo, mantenha sua sorte enquanto pode.

– Presumo que você foi tocada.

– Conforme a luz vai ficando mais fraca, ela vai ficando maior, e mais rápida, antes de desaparecer no escuro. Uma garota do grupo tropeçou. Ela caiu, bateu a cabeça e urrou de dor. O susto nos distraiu, e foi quando ela nos alcançou. Eu era a única do grupo que não tinha sido tocada. Quando acordei, estava sozinha, e precisava correr.

– Sombra que dança. Quem é ela,?

– Droga! Ela está vindo!

A mulher ganhou uma velocidade explosiva. Seus passos quebravam os galhos aos seus pés. Preciso correr. Acelero para alcançá-la novamente, correr lado a lado.

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Gustavo Lopes
A sombra que dança

– O seu monitor cardíaco tinha função de relógio?

– Sim.

– Mais alguma coisa? Celular? Joias?

– Não levo meu celular para a aula de ioga. Foi só o monitor cardíaco.

– Talvez seja uma pergunta estranha, mas você viu alguém usando relógio?

– Na velocidade que corri até agora, só consigo me concentrar no caminho. Não reparei em relógios.

– Pegaram seu monitor cardíaco, mas não pegaram suas joias. Presumo que o intuito de levarem seu monitor, assim como o meu relógio, seja impedir que vejamos as horas. Isso não faz sentido. Apesar da densidade da floresta, podemos enxergar o sol, que está se pondo. A hora é irrelevante.

– Eu já disse, não tente estabelecer uma linha de raciocínio. Você tem sorte de não ter sido tocado e talvez tenha sorte de encontrar a saída. Apenas corra enquanto está claro e descanse enquanto estiver escuro, sempre em linha reta. É a única forma de sobreviver.

– Como você sabe disso?

– Pouco depois de acordar eu conheci um homem. Ele liderava um grupo com vinte e poucas pessoas. Quando passaram por mim, ele me disse para correr e eu corri. Mais tarde contou que estava correndo há trinta e cinco escuridões, mas tinha certeza que não estava correndo há trinta e cinco dias. Corra enquanto está claro, descanse enquanto estiver escuro, sempre em linha reta. É a única forma de sobreviver, ele repetia.

– Meu Deus… Trinta e cinco dias…

– Ele também disse para correr da sombra que dança, sem olhar para trás. O primeiro toque da sombra te marca. O segundo te engole. Ela surge quando os primeiros raios de sol adentram a floresta, como uma onda gigantesca cuja forma só pode ser enxergada por aqueles que foram tocados, e nada mais faz sentido, além de correr. Por isso, te digo, mantenha sua sorte enquanto pode.

– Presumo que você foi tocada.

– Conforme a luz vai ficando mais fraca, ela vai ficando maior, e mais rápida, antes de desaparecer no escuro. Uma garota do grupo tropeçou. Ela caiu, bateu a cabeça e urrou de dor. O susto nos distraiu, e foi quando ela nos alcançou. Eu era a única do grupo que não tinha sido tocada. Quando acordei, estava sozinha, e precisava correr.

– Sombra que dança. Quem é ela,?

– Droga! Ela está vindo!

A mulher ganhou uma velocidade explosiva. Seus passos quebravam os galhos aos seus pés. Preciso correr. Acelero para alcançá-la novamente, correr lado a lado.

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