Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Comendo por dois

– Agora você está comendo por dois.

Disse meu marido ao colocar um pedaço do grande bife que havia feito no meu prato.

– Obrigado. Eu peguei a faca e cortei o pedaço de carne, uma fatia grande e ainda com um vermelho sangue que circulava por ela me fez salivar. Parece perfeita.

Os primeiros meses foram realmente os mais difíceis. Eu vomitava tantas vezes que na maioria delas eu chegava a perder as contas. Nós acabamos por virar profissionais em limpar o sofá que fedia por isso.

Não importava o que eu comia, muito menos o quanto eu tentava, sempre parecia que a náusea chegava nos piores momentos possíveis. E honestamente? Não me sentia como se fosse eu mesma. As vezes eu tentava me comunicar mas apenas sílabas inteligíveis saiam da minha boca.

Meu marido dizia que isso era perfeitamente normal, não era algo que precisava me preocupar, que essa parte de ficar confusa e misturar as coisas era normal no processo. Eu acreditava nele.

As vezes eu dizia coisas, e sequer lembradas de pensar nelas antes de sair falando. Outras vezes era apenas palavras desconexas e sem sentido algum.

Tinha muitos efeitos colaterais que eu não esperava, também. Como desmaiar, por exemplo. A algumas semanas atrás, eu estava caminhando a poucos passos da igreja, quando de repente senti uma fraqueza cobrir meu corpo todo, minha visão enegreceu e então cai no chão gelado sem que pudesse me proteger.

– Você desmaiou! – Meu marido Mário disse quando eu finalmente levantei. – Você está bem? Eu deveria estar aqui do seu lado para te ajudar. Me desculpa, eu sinto muito.

Minha cabeça latejava e minhas pernas doíam, porém eu estava bem. Nós estávamos bem. Eu gastei uma semana foda me recuperando em casa  — assistindo minhas novelas favoritas na TV, sendo servida pelo meu marido — então eu estava novinha em folha.

Mas sabe? Eu de alguma maneira já esperava a náusea e desmaios. Quer dizer, eu li todos os livros. Eles sempre dizem que há mudanças, algumas nada prazerosas. Mas tudo vale a pena no final, não é? Todas as dores e incômodo, até as mudanças inesperadas.

Meu pescoço tem doído muito nesses meses passados, sinto minhas costas pegando fogo e sempre tem uma dor a mais em uma ou outra parte do corpo. Sem contar as alergias aleatórias e feridas. Eu tenho uma lista imensa de intolerânciabà alimentos… Mas, um dia de maneira inesperada, eu estava com uma ferida que tinha o formato do meu colar favorito, de cruz! Isso foi uma loucura.

Mário me trouxe sorvete nesse dia, mas eu ainda me sentia triste. Os livros também me avisaram sobre a ansiedade imensa e pavorosa que eu sentiria. Mas não me contaram sobre essas vozes na minha cabeça que só aumentam. Alguns dias eu só deito na minha cama, tentando silenciar e focar em algo positivo, mas é difícil. Muito difícil.

Mário tem me ajudado muito, seu suporte é essencial. Ele tem massageado minhas costas, meus pés, me trazendo os melhores presentes que eu poderia ter.

Eu não poderia pedir um marido melhor, ele sabia do trabalho duro que teria. Ele soube bem como agir, jogando fora o meu crucifixo e lidando com os ecos que apenas aumentavam na minha cabeça.

Ele sabe como é difícil ser possuído por um demônio, mas no final tudo isso valerá a pena.

 

J. A. de Nardo
Comendo por dois

– Agora você está comendo por dois.

Disse meu marido ao colocar um pedaço do grande bife que havia feito no meu prato.

– Obrigado. Eu peguei a faca e cortei o pedaço de carne, uma fatia grande e ainda com um vermelho sangue que circulava por ela me fez salivar. Parece perfeita.

Os primeiros meses foram realmente os mais difíceis. Eu vomitava tantas vezes que na maioria delas eu chegava a perder as contas. Nós acabamos por virar profissionais em limpar o sofá que fedia por isso.

Não importava o que eu comia, muito menos o quanto eu tentava, sempre parecia que a náusea chegava nos piores momentos possíveis. E honestamente? Não me sentia como se fosse eu mesma. As vezes eu tentava me comunicar mas apenas sílabas inteligíveis saiam da minha boca.

Meu marido dizia que isso era perfeitamente normal, não era algo que precisava me preocupar, que essa parte de ficar confusa e misturar as coisas era normal no processo. Eu acreditava nele.

As vezes eu dizia coisas, e sequer lembradas de pensar nelas antes de sair falando. Outras vezes era apenas palavras desconexas e sem sentido algum.

Tinha muitos efeitos colaterais que eu não esperava, também. Como desmaiar, por exemplo. A algumas semanas atrás, eu estava caminhando a poucos passos da igreja, quando de repente senti uma fraqueza cobrir meu corpo todo, minha visão enegreceu e então cai no chão gelado sem que pudesse me proteger.

– Você desmaiou! – Meu marido Mário disse quando eu finalmente levantei. – Você está bem? Eu deveria estar aqui do seu lado para te ajudar. Me desculpa, eu sinto muito.

Minha cabeça latejava e minhas pernas doíam, porém eu estava bem. Nós estávamos bem. Eu gastei uma semana foda me recuperando em casa  — assistindo minhas novelas favoritas na TV, sendo servida pelo meu marido — então eu estava novinha em folha.

Mas sabe? Eu de alguma maneira já esperava a náusea e desmaios. Quer dizer, eu li todos os livros. Eles sempre dizem que há mudanças, algumas nada prazerosas. Mas tudo vale a pena no final, não é? Todas as dores e incômodo, até as mudanças inesperadas.

Meu pescoço tem doído muito nesses meses passados, sinto minhas costas pegando fogo e sempre tem uma dor a mais em uma ou outra parte do corpo. Sem contar as alergias aleatórias e feridas. Eu tenho uma lista imensa de intolerânciabà alimentos… Mas, um dia de maneira inesperada, eu estava com uma ferida que tinha o formato do meu colar favorito, de cruz! Isso foi uma loucura.

Mário me trouxe sorvete nesse dia, mas eu ainda me sentia triste. Os livros também me avisaram sobre a ansiedade imensa e pavorosa que eu sentiria. Mas não me contaram sobre essas vozes na minha cabeça que só aumentam. Alguns dias eu só deito na minha cama, tentando silenciar e focar em algo positivo, mas é difícil. Muito difícil.

Mário tem me ajudado muito, seu suporte é essencial. Ele tem massageado minhas costas, meus pés, me trazendo os melhores presentes que eu poderia ter.

Eu não poderia pedir um marido melhor, ele sabia do trabalho duro que teria. Ele soube bem como agir, jogando fora o meu crucifixo e lidando com os ecos que apenas aumentavam na minha cabeça.

Ele sabe como é difícil ser possuído por um demônio, mas no final tudo isso valerá a pena.