Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
J. A. de Nardo
João decidiu dar vida aos seus mórbidos pesadelos e compartilhar feitos e devaneios nada memoráveis com o público. 
O medo, o estranho e o cotidiano banal são as suas inspirações para a escrita. Escreve como uma forma de canalizar seus sentimentos, da forma mais clichê possível. 
Se perde em pensamento abstratos e overdoses filosóficas, crê que o horror é um universo a ser explorado, e o pavor é o sentimento mais puro a ser sentido. Se perde também em alguns pseudônimos para poder escrever o que há de mais bizarro em si, não gosta muito de mostrar o rosto para não perturbar os leitores, usa máscaras como referência ao baile de máscaras do plano físico. 
Diretor da Revista Aterrorizante e autor de algumas obras em conjunto e originais nada comuns, sempre terror com doses de perturbação e humor negro.
Sua conquista mais memorável foi um concurso de poesias quando tinha 10 anos, desde então vem colecionando fracassos e insucessos. Muitas vezes confundido com um demônio sem função na terra, transita entre funções aleatórias, como um traficante de inutilidades ou vendedor de ideias natimortas. 
Email: Jaoanm@gmail.com 
Instagram: @joaodenardo






Noite de Natal

O sal cobriu todo o interior da minha boca enquanto eu mordia minha enchilada. Eu teria engasgado com minha própria saliva se o sal não tivesse evaporado tudo. Um rastro de branco cai da borda do meu prato até o balcão, levando a um saleiro aberto e agora o derrubando. Isso é coisa do Evan! Minha mente pede para eu gritar, agarrá-lo pelo braço, bater em sua bunda e levá-lo para seu quarto. Mas … ele tem apenas dois anos e é véspera de Natal.

O relógio marcava 13h38 e meu coração se partiu ao perceber que meu marido não estaria em casa por mais cinco horas. Eu podia ouvir meus dois meninos mais velhos discutindo distantes na outra sala, diminuindo minha paciência com cada palavra. Não demorou muito para que nosso filho do meio Logan viesse correndo até mim, com lágrimas escorrendo por suas bochechas rechonchudas. “Mamãe! Aidan disse que Papai Noel não é real. Ele disse que você e o papai são os que comem os biscoitos e colocam os presentes debaixo da nossa árvore.”

No tempo que levou para explicar a situação, Evan havia desaparecido de vista. Eu estava verificando o banheiro para ter certeza de que ele não estava desperdiçando novos rolos de papel higiênico de novo quando ouvi o som de vidro quebrando no meu quarto. Corri pela casa, pedindo a Logan que me seguisse para que pudéssemos conversar ao longo do caminho. Eu esperava que o bebê não tivesse se machucado, mas esperava mais que ele não bagunçasse nosso quarto.

Eu o encontrei sentado no meio da minha cama, apontando para o chão. Ele pegou meu espelho de maquiagem e o jogou do outro lado da sala, que se espatifou com o impacto no piso de madeira. Felizmente, a vassoura estava no canto da sala mais próxima de mim. Eu agarrei, instruí Logan a esperar na porta e comecei a limpar a bagunça.

–– Tudo bem, querido… em primeiro lugar, por mais que eu odeie dizer isso, seu pai e eu não podemos bancar um lote de presentes para três crianças. Pense sobre isso por um minuto. Quando vamos à loja e você pede coisas, o que eu digo?

Ele olhou para mim com tristeza antes de responder.

–– Você sempre diz não agora, não podemos pagar.

Por mais que eu esperasse que ele tivesse chegado a essa conclusão, ainda doía ouvi-lo dizer isso. Mas… engoli meu orgulho e balancei a cabeça de forma convincente enquanto esvaziava a pá de lixo no lixo e amarrava o saco.

–– Não se preocupe, eu assegurei a ele. Papai Noel viu e ouviu toda aquela conversa. E se o seu irmão não acreditar bem… então, ele simplesmente não vai ganhar tantos presentes quanto você, vai?

–– Você promete que ele virá em casa hoje à noite, mamãe? Ele me perguntou esperançoso.

–– Claro que ele vai, querido! Aidan acha que sabe tudo, mas eu prometo que não. Eu te amo. Vá descansar um pouco, certo? Todos nós temos um grande dia amanhã.

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J. A. de Nardo
Noite de Natal

O sal cobriu todo o interior da minha boca enquanto eu mordia minha enchilada. Eu teria engasgado com minha própria saliva se o sal não tivesse evaporado tudo. Um rastro de branco cai da borda do meu prato até o balcão, levando a um saleiro aberto e agora o derrubando. Isso é coisa do Evan! Minha mente pede para eu gritar, agarrá-lo pelo braço, bater em sua bunda e levá-lo para seu quarto. Mas … ele tem apenas dois anos e é véspera de Natal.

O relógio marcava 13h38 e meu coração se partiu ao perceber que meu marido não estaria em casa por mais cinco horas. Eu podia ouvir meus dois meninos mais velhos discutindo distantes na outra sala, diminuindo minha paciência com cada palavra. Não demorou muito para que nosso filho do meio Logan viesse correndo até mim, com lágrimas escorrendo por suas bochechas rechonchudas. “Mamãe! Aidan disse que Papai Noel não é real. Ele disse que você e o papai são os que comem os biscoitos e colocam os presentes debaixo da nossa árvore.”

No tempo que levou para explicar a situação, Evan havia desaparecido de vista. Eu estava verificando o banheiro para ter certeza de que ele não estava desperdiçando novos rolos de papel higiênico de novo quando ouvi o som de vidro quebrando no meu quarto. Corri pela casa, pedindo a Logan que me seguisse para que pudéssemos conversar ao longo do caminho. Eu esperava que o bebê não tivesse se machucado, mas esperava mais que ele não bagunçasse nosso quarto.

Eu o encontrei sentado no meio da minha cama, apontando para o chão. Ele pegou meu espelho de maquiagem e o jogou do outro lado da sala, que se espatifou com o impacto no piso de madeira. Felizmente, a vassoura estava no canto da sala mais próxima de mim. Eu agarrei, instruí Logan a esperar na porta e comecei a limpar a bagunça.

–– Tudo bem, querido… em primeiro lugar, por mais que eu odeie dizer isso, seu pai e eu não podemos bancar um lote de presentes para três crianças. Pense sobre isso por um minuto. Quando vamos à loja e você pede coisas, o que eu digo?

Ele olhou para mim com tristeza antes de responder.

–– Você sempre diz não agora, não podemos pagar.

Por mais que eu esperasse que ele tivesse chegado a essa conclusão, ainda doía ouvi-lo dizer isso. Mas… engoli meu orgulho e balancei a cabeça de forma convincente enquanto esvaziava a pá de lixo no lixo e amarrava o saco.

–– Não se preocupe, eu assegurei a ele. Papai Noel viu e ouviu toda aquela conversa. E se o seu irmão não acreditar bem… então, ele simplesmente não vai ganhar tantos presentes quanto você, vai?

–– Você promete que ele virá em casa hoje à noite, mamãe? Ele me perguntou esperançoso.

–– Claro que ele vai, querido! Aidan acha que sabe tudo, mas eu prometo que não. Eu te amo. Vá descansar um pouco, certo? Todos nós temos um grande dia amanhã.

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