Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano é feminista, poeta, ativista cultural, letróloga, comendadora das artes literárias no Brasil pela Ordem Scriptorium e doutora honoris causa em Literatura pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. 2ª Secretária da Academia Internacional Mulheres das Letras (AIML), membro associada à União Brasileira de Escritores (UBE); acadêmica imortal da Academia Independente de Letras (AIL); membro fundadora da Academia de Artes e Letras Internacional da Baixada Fluminense e Brasil (AALIBB); acadêmica nacional de grande honra da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (Febacla); membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Autora dos livros (In)sanidade Lírica (2020) e Desnudar do Eu (2021), prefaciadora, coautora em cerca de quarenta antologias e organizadora de nove projetos antológicos. É amante das artes e, tratando-se de literatura, tem como inspiração Hilda Hilst, Clarice Lispector e Edgar Allan Poe. Faz parte dos coletivos "Corvo Literário" e "Maldohorror". Personalidade Cultural do Ano, foi selecionada no Prêmio Internacional Mulheres das Letras (2020 e 2021), no Grande Prêmio Internacional de Literatura Machado de Assis, no 4º Concurso de Poesias - Prêmio Cecília Meireles, no Prêmio Alma de Poeta e no Prêmio e Exposição Sou Mulher Poesia. Atualmente, reside em Campo Alegre, Alagoas.







A IRA DE AMON

Chuva incessante banha a noite porta afora. Algumas pingueiras se fazem ouvir no cômodo ao lado, e eu tento bloquear o som incômodo pondo o grande travesseiro da minha finada mãe nos ouvidos. Amon ladra lá fora. Certamente, deseja se amparar, mas eu estou preguiçosa demais para pô-lo dentro de casa. São Miguel dos Campos nunca fora um lugar divertido, isso é indubitável; porém, há alguns dias que as ruas estão desertas, sequer ouço o choro irritante do bebê na casa vizinha.

De acordo com o calendário, injetei cocaína anteontem. Eu havia bebido o restante do whisky e permanecido numa sobriedade ensandecedora, por isso decidi pôr um fim no pó que escondi no meu porta-joias. O meu irmão viajou com a namorada e me deixou sozinha nessa casa velha e imunda. Amon continua ladrando, parece estar enfurecido e desesperado ao mesmo tempo. Pergunto-me se é certo ignorar as súplicas do pobre animal, e concluo que não sou obrigada a responder agora. Após alguns minutos de total concentração, consigo me erguer da cama. Titubeando, caminho até a cozinha e bebo um pouco de água. Sento-me em uma das cadeiras tortas da mesa ainda mais torta e tento comer uma banana meio apodrecida que estava solitária na fruteira. Lá fora, a chuva só piora. Os trovões silenciam o choramingo de Amon e eu encosto a cabeça na mesa com o intuito de amenizar a tontura que engolfou o meu corpo.

Repentinamente, faz-se ouvir um forte barulho na porta dos fundos, como se ela houvesse sido fortemente pressionada. Congelo. Amon já não ladra e eu me pego a imaginar o pior. Determinada a me pôr de pé, me ergo. A minha visão enturva e tento me apoiar nas laterais da mesa, forçando-me a manter um pouco de equilíbrio a cada passo. O silêncio incessante faz com que eu sinta o sabor amargo do medo e a sensação aterradora parece haver inundado as minhas veias, pois todo o meu corpo bamboleia e eu receio ir de encontro ao chão no instante seguinte.

─ Quem está aí? ─ minha voz enche o recinto com o questionamento lançado ao breu. Amedrontada, arrasto-me até a parede mais próxima e encaro o corredor escuro que antecede o quintal. O fato de eu não conseguir enxergar se há alguém encarando-me de volta, me submerge a um nível de agonia que eu jamais pensara existir. Mesmo estando totalmente incapaz, decido rumar à escuridão, pois não consigo suportar a falsa calmaria que se faz presente. Por trás do meu crânio, uma voz sussurra para eu permanecer dentro de casa, como se o Eu que a mim fala estivesse prenunciando o mal.

Páginas: 1 2 3

Jeane Tertuliano
A IRA DE AMON

Chuva incessante banha a noite porta afora. Algumas pingueiras se fazem ouvir no cômodo ao lado, e eu tento bloquear o som incômodo pondo o grande travesseiro da minha finada mãe nos ouvidos. Amon ladra lá fora. Certamente, deseja se amparar, mas eu estou preguiçosa demais para pô-lo dentro de casa. São Miguel dos Campos nunca fora um lugar divertido, isso é indubitável; porém, há alguns dias que as ruas estão desertas, sequer ouço o choro irritante do bebê na casa vizinha.

De acordo com o calendário, injetei cocaína anteontem. Eu havia bebido o restante do whisky e permanecido numa sobriedade ensandecedora, por isso decidi pôr um fim no pó que escondi no meu porta-joias. O meu irmão viajou com a namorada e me deixou sozinha nessa casa velha e imunda. Amon continua ladrando, parece estar enfurecido e desesperado ao mesmo tempo. Pergunto-me se é certo ignorar as súplicas do pobre animal, e concluo que não sou obrigada a responder agora. Após alguns minutos de total concentração, consigo me erguer da cama. Titubeando, caminho até a cozinha e bebo um pouco de água. Sento-me em uma das cadeiras tortas da mesa ainda mais torta e tento comer uma banana meio apodrecida que estava solitária na fruteira. Lá fora, a chuva só piora. Os trovões silenciam o choramingo de Amon e eu encosto a cabeça na mesa com o intuito de amenizar a tontura que engolfou o meu corpo.

Repentinamente, faz-se ouvir um forte barulho na porta dos fundos, como se ela houvesse sido fortemente pressionada. Congelo. Amon já não ladra e eu me pego a imaginar o pior. Determinada a me pôr de pé, me ergo. A minha visão enturva e tento me apoiar nas laterais da mesa, forçando-me a manter um pouco de equilíbrio a cada passo. O silêncio incessante faz com que eu sinta o sabor amargo do medo e a sensação aterradora parece haver inundado as minhas veias, pois todo o meu corpo bamboleia e eu receio ir de encontro ao chão no instante seguinte.

─ Quem está aí? ─ minha voz enche o recinto com o questionamento lançado ao breu. Amedrontada, arrasto-me até a parede mais próxima e encaro o corredor escuro que antecede o quintal. O fato de eu não conseguir enxergar se há alguém encarando-me de volta, me submerge a um nível de agonia que eu jamais pensara existir. Mesmo estando totalmente incapaz, decido rumar à escuridão, pois não consigo suportar a falsa calmaria que se faz presente. Por trás do meu crânio, uma voz sussurra para eu permanecer dentro de casa, como se o Eu que a mim fala estivesse prenunciando o mal.

Páginas: 1 2 3