Maldohorror - Coletivo de escritores fantásticos e malditos.
Jeane Tertuliano
Jeane Tertuliano é feminista, poeta, ativista cultural, letróloga, comendadora das artes literárias no Brasil pela Ordem Scriptorium e doutora honoris causa em Literatura pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. 2ª Secretária da Academia Internacional Mulheres das Letras (AIML), membro associada à União Brasileira de Escritores (UBE); acadêmica imortal da Academia Independente de Letras (AIL); membro fundadora da Academia de Artes e Letras Internacional da Baixada Fluminense e Brasil (AALIBB); acadêmica nacional de grande honra da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (Febacla); membro da Academia Internacional de Literatura Brasileira (AILB). Autora dos livros (In)sanidade Lírica (2020) e Desnudar do Eu (2021), prefaciadora, coautora em cerca de quarenta antologias e organizadora de nove projetos antológicos. É amante das artes e, tratando-se de literatura, tem como inspiração Hilda Hilst, Clarice Lispector e Edgar Allan Poe. Faz parte dos coletivos "Corvo Literário" e "Maldohorror". Personalidade Cultural do Ano, foi selecionada no Prêmio Internacional Mulheres das Letras (2020 e 2021), no Grande Prêmio Internacional de Literatura Machado de Assis, no 4º Concurso de Poesias - Prêmio Cecília Meireles, no Prêmio Alma de Poeta e no Prêmio e Exposição Sou Mulher Poesia. Atualmente, reside em Campo Alegre, Alagoas.







A Voz

“Os ecos do meu alter ego ecoam em minha mente ritmadamente como se houvesse um canto fúnebre sendo emitido no alto do meu ser. Estaria a morte reclamando minh’alma antes de eu começar a viver?”

A noite parece não ter fim nesse quarto. O que há de errado com as pessoas que me trancafiaram nessa clínica de loucos? Todos que estão aqui são insanos. Eu gostaria de poder curá-los, minto, eu desejo estripá-los, e como desejo! Ninguém pode saber que eu sinto repulsa de partilhar o ar que respiro com esses vermes, me amarrariam à cama e injetariam algum medicamento em minha veia para me derrubar. Eu não cederei aos meus instintos, a voz em minha cabeça disse que se eu me comportar e aguardar o momento oportuno, ficarei livre em breve, eu confio plenamente nela.
Eu vim para a Clínica Santa Edwiges em meados de junho do ano de 1998. Eu era uma garota ingênua e cheia de bondade no coração, mas, aparentemente, apenas eu conseguia enxergar tal coisa, pois o senhor e a senhora Andrade, meus pais, chegaram à conclusão da noite para o dia que eu era uma psicopata. Está bem, eu não omitirei o que sucedeu no meu amargo lar. Eu estrangulei a minha querida vizinha e esfaqueei a minha colega de classe (também conhecida como a minha BFF) até ela sufocar com o líquido imundo que esguichava das pequenas perfurações feitas pelo meu gentil canivete.
“Que criança demoníaca!”, praguejavam os empregados no térreo enquanto eu fingia dormir após ser dopada.
É interessante como o dinheiro dos meus pais imbecis me impediu de ser condenada à morte, inclusive, eles até compraram um exame que comprovou que eu, uma pessoa supernormal, sou esquizofrênica. Eu gargalhei por horas, literalmente, depois de ouvir o diagnóstico do psiquiatra corrupto. Urinei na cama a noite inteira, como eu adorava dar trabalho aos vassalos dos meus velhos! No dia seguinte, meus amados pais me trouxeram para a minha mais nova e maldita residência. Um dia hei de me vingar, é óbvio, mas, por ora, eu estou tentando ludibriar os médicos a ponto de eles acreditarem que eu estou curada (não sei de quê) para eu poder arruinar as vidas das pessoas que se opuseram a satisfazer as vontades da voz. Ela sussurra tragédias belíssimas em meus ouvidos, e digo mais: eu promoverei toda a diversão com as minhas próprias mãos, que delícia!
Caleb é o enfermeiro responsável por trazer a minha refeição nessa quinta-feira. Ele é alto, tem um par de braços musculosos e uma boca que denuncia o seu lado libertino. Quando ele me segura tentando apaziguar a minha selvageria, eu aperto o meu corpo contra o dele e me insinuo da maneira mais sacana possível. Eu sei que ele quer possuir o meu corpo nu, mas tendo em vista a minha fama de sanguinária, ele sente um pouco de receio de sucumbir ao anseio da sua carne suculenta.

─ Como você está hoje, garota violenta? ─ ele pergunta com um meio sorriso.
─ Eu estou menos raivosa que ontem, grandão.
─ Grandão?
─ Sim, já que você aparenta ser todo grande, esse será o seu apelido a partir de agora.
─ Você não tem jeito mesmo, não é? Sempre com esses pensamentos obscenos ─ sussurra Caleb tocando as minhas têmporas com os seus dedos indicadores enormes. Assim que ele se cala, eu seguro o seu dedo do meio esquerdo e o introduzo em minha boca e o sugo sugestivamente. Caleb me olha surpreso, depois tenta remover o seu dedo da minha boca, mas eu sou mais veloz que ele, pulo em seu colo e envolvo a sua cintura com as minhas pernas. Pense rápido, eu digo. Seguro a sua nuca e guio a sua boca ao encontro da minha. Eu o beijo como se a minha alma dependesse disso para não ser jogada no lago que arde em fogo e enxofre, e depende.

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“Os ecos do meu alter ego ecoam em minha mente ritmadamente como se houvesse um canto fúnebre sendo emitido no alto do meu ser. Estaria a morte reclamando minh’alma antes de eu começar a viver?”

A noite parece não ter fim nesse quarto. O que há de errado com as pessoas que me trancafiaram nessa clínica de loucos? Todos que estão aqui são insanos. Eu gostaria de poder curá-los, minto, eu desejo estripá-los, e como desejo! Ninguém pode saber que eu sinto repulsa de partilhar o ar que respiro com esses vermes, me amarrariam à cama e injetariam algum medicamento em minha veia para me derrubar. Eu não cederei aos meus instintos, a voz em minha cabeça disse que se eu me comportar e aguardar o momento oportuno, ficarei livre em breve, eu confio plenamente nela.
Eu vim para a Clínica Santa Edwiges em meados de junho do ano de 1998. Eu era uma garota ingênua e cheia de bondade no coração, mas, aparentemente, apenas eu conseguia enxergar tal coisa, pois o senhor e a senhora Andrade, meus pais, chegaram à conclusão da noite para o dia que eu era uma psicopata. Está bem, eu não omitirei o que sucedeu no meu amargo lar. Eu estrangulei a minha querida vizinha e esfaqueei a minha colega de classe (também conhecida como a minha BFF) até ela sufocar com o líquido imundo que esguichava das pequenas perfurações feitas pelo meu gentil canivete.
“Que criança demoníaca!”, praguejavam os empregados no térreo enquanto eu fingia dormir após ser dopada.
É interessante como o dinheiro dos meus pais imbecis me impediu de ser condenada à morte, inclusive, eles até compraram um exame que comprovou que eu, uma pessoa supernormal, sou esquizofrênica. Eu gargalhei por horas, literalmente, depois de ouvir o diagnóstico do psiquiatra corrupto. Urinei na cama a noite inteira, como eu adorava dar trabalho aos vassalos dos meus velhos! No dia seguinte, meus amados pais me trouxeram para a minha mais nova e maldita residência. Um dia hei de me vingar, é óbvio, mas, por ora, eu estou tentando ludibriar os médicos a ponto de eles acreditarem que eu estou curada (não sei de quê) para eu poder arruinar as vidas das pessoas que se opuseram a satisfazer as vontades da voz. Ela sussurra tragédias belíssimas em meus ouvidos, e digo mais: eu promoverei toda a diversão com as minhas próprias mãos, que delícia!
Caleb é o enfermeiro responsável por trazer a minha refeição nessa quinta-feira. Ele é alto, tem um par de braços musculosos e uma boca que denuncia o seu lado libertino. Quando ele me segura tentando apaziguar a minha selvageria, eu aperto o meu corpo contra o dele e me insinuo da maneira mais sacana possível. Eu sei que ele quer possuir o meu corpo nu, mas tendo em vista a minha fama de sanguinária, ele sente um pouco de receio de sucumbir ao anseio da sua carne suculenta.

─ Como você está hoje, garota violenta? ─ ele pergunta com um meio sorriso.
─ Eu estou menos raivosa que ontem, grandão.
─ Grandão?
─ Sim, já que você aparenta ser todo grande, esse será o seu apelido a partir de agora.
─ Você não tem jeito mesmo, não é? Sempre com esses pensamentos obscenos ─ sussurra Caleb tocando as minhas têmporas com os seus dedos indicadores enormes. Assim que ele se cala, eu seguro o seu dedo do meio esquerdo e o introduzo em minha boca e o sugo sugestivamente. Caleb me olha surpreso, depois tenta remover o seu dedo da minha boca, mas eu sou mais veloz que ele, pulo em seu colo e envolvo a sua cintura com as minhas pernas. Pense rápido, eu digo. Seguro a sua nuca e guio a sua boca ao encontro da minha. Eu o beijo como se a minha alma dependesse disso para não ser jogada no lago que arde em fogo e enxofre, e depende.

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